Coisas bonitas

A meio do caminho imaginei uma história, de um homem que habitava por essa zona, na Pensão Elegante, ali no Largo da Oliveirinha – que, segundo o Google Maps, termina no Largo do Oliveirinha – junto à Travessa do Fala-só. O seu nome poderia ser Gustavo, um tipo sério e justo, mesmo que mais ou menos perdido. Gustavo passaria os dias ali, naquele trecho composto por casas em obras, lojas de mosaicos, hostels com nomes ordinários e uma mercearia. Trabalharia como advogado em casos pequenos mas recorrentes, e almoçaria e jantaria na Praça da Alegria, no café Brooklyn, onde passaria horas a ler romances em inglês sobre a América. Tomaria nota, num caderno que traria sempre consigo, no bolso interior do casaco, de todas as coisas bonitas que encontrasse, como os regadores azuis que estavam hoje colocados nas várias varandas do palácio. Coisas assim, simples.

Seminário

No caminho estavam dois sapatos de senhora. Vermelhos, género sabrinas, um pouco gastos e molhados, impecavelmente arrumados num canto de um lugar de estacionamento junto ao passeio. Lembrei-me do Feiticeiro de Oz: a que Bruxa ou a que Dorothy terão pertencido? Na terça-feira ainda por lá andavam, agora desarrumados, com o esquerdo no lugar do direito e o direito no lugar do esquerdo. Na quarta-feira já não, já não estavam por lá. Imaginei quem os tivesse calçado, que aventura é que estaria a viver, neste momento. Reparei também, no intervalo antes de ir dar a primeira aula do seminário, num pequeno globo encostado junto à janela do bar da faculdade. Vivemos num grande mundo, cheio de selvas e florestas, cheio de vidas e de histórias. Vimos uma ontem, no teatro, na sala estúdio, sobre o mundo do trabalho e os seus excessos. Era mais uma história de ideias do que uma história de pessoas, e nem sempre bem conseguida, mas o cenário – feito de papel de alumínio – era muito engraçado. Às vezes acendiam e desligavam as luzes e víamos as paredes com marcas e elevações, como se fossem montanhas ou pedras, ou até raízes (o que é irónico, tendo em conta o que se passa no fim da peça). A vida agora é um concerto de Beethoven tocado pela Royal Philarmonic Orchestra no leitor de vinis cá de casa. O sol entra pela janela, está um céu fabuloso, e há algum trabalho para acabar – entre os andamentos ouvem-se as teclas de dois computadores. Antes disto fui correr e apanhei com sol na cara. Estava a arder no fim da corrida, era possível que estivesse com a cara encarnada. Estreei os meus novos ténis de corrida, que, coincidência das coincidências, são vermelhos. São muito confortáveis.

You

eat the quinoa bread in the kitchen

and drink the lungo coffee

before doing the NYT’s daily crossword

in the living room

(how

intelectual-millennial

are you?)

and your heart dreams

you believe in her, in others, in life

you feel that, you say that, you smile, you hold the hand strongly and you

say go

and your heart dreams

you look at yourself

a dark image of yourself

reflected in the water

amongst the cars and the people and the rain

you think of green

and your heart dreams

you follow the cyclist

who has his backpack open

and is heroically fighting the wind while climbing

a very steep and wet street

and your heart dreams

you listen to Bruce Springsteen’s Thunderroad

heavenly sent through your cellphone’s shuffle

and played on your car’s stereo

you cry while you sing or

you sing while you cry

doesn’t matter

your heart

dreams

you arrive at the law school and

remember three times the structure of the class

you think about

all the legal things surrounding crypto-assets and tokens

and then you park the car

the sky opens slightly

it still rains

your remember you have

to pray

and your heart dreams

your heart dreams

your heart dreams

Notas soltas – Ann Arbor, 2018

Ao ler as cartas de Vonnegut lembrou-se da senhora da biblioteca que lhe disse que tinha conhecido o neto de Vonnegut que andava na faculdade onde ele se encontrava atualmente, em intercâmbio. Ao chegar à faculdade no dia seguinte cruzou-se com a senhora da biblioteca. Disse-lhe: Ontem lembrei-me de si, estive a ler umas cartas de Vonnegut. Ela levou as mãos ao peito e virou os olhos para cima, como se se estivesse a recordar nesse momento de uma velha mas potente paixão de liceu, e suspirou: Oh, Vonnegut, Vonnegut. Ele riu-se, e ela disse-lhe: Sabe, há algo que não lhe contei da outra vez, é que o neto era igual a ele. Fisicamente falando, era idêntico, uns anos mais novo, claro, mas tirando isso era a cara chapada do avô. E isso é que tornava tudo ainda mais impressionante, porque era como se estivesse o próprio Vonnegut à minha frente, e ele fosse um aluno, a requisitar um manual muito conhecido de fusões e aquisições. Ouvi dizer que agora está em Nova Iorque, a trabalhar no mundo financeiro. Consegue imaginar isso? E ele momento não vira os olhos mas imagina um neto de Kurt Vonnegut que é igual a Kurt Vonnegut e que estuda direito e que requisita manuais de fusões e aquisições e que depois vai para Nova Iorque e que hoje é um financeiro bem-sucedido e pensa que isso é uma história tão Vonnegutiana que o próprio Vonnegut podia ter escrito um livro sobre isso, sobre como ele Vonnegut se tornava no seu próprio neto e depois ia ser um financeiro para Nova Iorque. Ou so it goes.