Na tina

Estou há quase duas semanas com a canção Ronaldo, do Chico da Tina, na cabeça. Já ouvi muita outra coisa, mas não há maneira de não voltar a esta. Parte do sucedido deve-se à sedutora produção do Bejaflor e do Co$tanza (o beat é ótimo, não há como fugir). Outra parte deve-se à forma da declamação: segura, assertiva, e provocadora, típica de quem está mais que à vontade, cheio de confiança. Não sou o maior fã do trap, mas confesso que esta fica – e já agora, sabem o que é que também fica na tina? Este pequeno som do Bejaflor: aqui fica, para que não passe despercebido.

Sobre pensar (demasiado) nas coisas

I’m Thinking About Ending Things é um filme puxado. A primeira metade corre a um bom ritmo, com imagens e diálogos extraordinários, e uma mise-en-scène que constrói muito bem uma tensão absorvente (excelentes atores, quer o casal quer os pais do namorado). Mas na segunda metade o suspense puxa em demasia, ao ponto de se tornar extenuante. A necessidade de encontrar pistas e simbolismos aumenta estupidamente, e a narrativa acaba por se fechar e concluir de maneira demasiado reduzida face a toda a carga que vinha de trás. Há momentos que esta trip misteriosa a um subconsciente pesado se assemelha aos melhores devaneios lynchianos, embora peque, no final, por ao contrário destes, estar sempre a tentar (com muita força) pôr o pé no chão. Ainda assim, é bom ver Charlie Kaufman de volta ao ativo, sempre pronto para nos levar em novas viagens.

Dick Johnson vive

A realizadora Kirsten Johnson conseguiu um pequeno milagre: chama-se Dick Johnson is Dead, e é um filme sobre agradecer uma vida, na hora do adeus. Em uma hora e meia de imagens duras, ternas e, por vezes, muito engraçadas, tornamo-nos testemunhas de uma despedida difícil, inevitável, mas amorosa – e de como o cinema consegue ser um belíssimo quadro do real e um antídoto para o tempo, uma porta para um além onde todos podemos viver e comungar (e onde Dick Johnson, para sempre, estará). Que documentário difícil e bonito.

Resenha de Setembro

Às vezes é preciso, parafraseando o autor, “diminuirmo-nos”, para que possamos voltar a crescer. Gostei muito de ouvir, nas Canções do Pós-Guerra, o autor Samuel Úria de volta “aos básicos”, com arranjos simples e cheio de espaço para deixar fluir a sua elegante potência. Potência e sentimento são palavras que podia usar para descrever outro disco bom, do Primeira Dama, chamado Superstar Desilusão: no meio de uma produção precisa, entre o fuzz de garagem e o reverb de sonho, sobressai a voz de um jovem cheio de lutas, a querer ser músico em Lisboa com todas as suas forças. Outra força para este tempo de final de tese são os discos dos amigos Filipe (da Graça) e Silas (Te Voy a Matar), muito diferentes na forma (uma exploração folk-divertida sobre a amizade, a distância e a saudade em Talvez Aqui, versus uma narrativa eletrónica de tons épicos em Texto Áureo) mas muito semelhantes no aconchego. A sala é outra, com eles aqui. Mas o disco que me tem mais acomodado nas horas de escrita, recentemente, é o Vias de Extinção, do Benjamim. É um álbum muito (e bem) trabalhado, que se expande em cantos, recantos, com curvas orelhudas e surpreendentes, pedindo-nos para ficar e deixarmos as chaves na receção, que o serviço trata do resto. Belíssima cena.

Som, som, som

Temos duas novas plantas em casa, e a maior chama-se Johnson. A pequena ainda não sabemos; está agora em frente à televisão. A sala está fresca, é preciso ter uma manta para dormir com este tempo ventoso. A lua tem estado bonita, o futebol tem sido bom, Outubro chegou. Ouvi John Moreland: “Before you hang me for my story, Lord, let me be understood”. Apetece escrever. Som, som, som.

The beginning of a new academic ano

Estava a escrever sobre acordar, com a cabeça encostada à janela do carro, a ver o céu e a paisagem e o movimento de tudo, o filme que é a vida quando vista a partir de uma janela de um automóvel. Tinha na minha cabeça o Arizona, e depois o Utah, e depois nada, nenhum sítio em especial; apenas o céu, e o tudo que o céu tem (que é: tudo). Mas é difícil, e quem sabe, talvez inútil, tentar escrever agora, no início de um novo ano académico. Na realidade, e para ser sincero, estava no banco de trás do carro, com janela semi-aberta e o vento a chocar contra a cara. Ruas pouco cheias, que é como quem diz um pouco vazias, que é como quem diz: a acordar. No outro dia passei aqui a pé, nesta avenida, a caminho de casa. Ouvia canções de guerra, de combate, de entrega. Todas do Chefe, claro. Depois fui ouvir, pela primeira vez desde que me lembro de ser pessoa, a canção Photograph, dos Nickelback. É suficientemente orelhuda para ficar na cabeça e invadir-nos os intervalos quotidianos de pensamento, como aquele momento clássico, após o jantar, em que vamos buscar chocolate à cozinha. É, também, suficientemente foleira para se perceber que é melhor, para a minha saúde – para a minha sanidade – ouvir outra coisa (escrevo “ouvir outra coisa” e na minha cabeça começa a tocar time to say goodbye, goodbye-eye-eye. Sacanas). Tenho saudades de ouvir discos bons, ou de ter cabeça para ouvir discos bons, nem sei bem. Por um lado é bom: estou focado, que é como quem diz, comprometido. Por outro, sinto. Comecei a ler Sylvia Plath no primeiro dia deste novo ano académico. Primeira frase: It was a queer, sultry summer, the summer they electrocuted the Rosenbergs, and I didn’t know what I was doing in New York. Depois, ou antes (não interessa, na verdade) estou em casa, e é de manhã; estou descansado, a pensar sobre isto, que é como quem diz: a pensar sobre escrever, e quando levanto a cabeça reparo que estamos, os dois, refletidos no ecrã da televisão, duas figuras no sofá, a beber café, com as tábuas da parede atrás brancas de sol. É uma imagem bonita e imediata. Depois fomos trabalhar. Ouvimos Bach, escrevemos uns bons parágrafos, no meu caso sobre o poder e o dever, sobre o poder do dever e o dever do poder. Aproveito o que recebo, dou o que devo, vivo o que tenho, e o que tenho para fazer. Agora, por exemplo, estou de pé, em casa, a olhar para o espaço para onde vai entrar o armário, e a aperceber-me: a acordar, aos poucos, para o ritmo deste final de ano no qual me encontro. Invade-me a vontade, impele-me o sentido, sorri-me / a / inocência. A dado momento desligamos as luzes, abraçamo-nos, e vamos dormir. Amanhã voltamos a correr, lado a lado: é uma promessa. Ritmo, movimento, e céu, que é como quem diz: tudo.

Álbum, número oito

Estou no meio da pista, e não sei se este é o lugar, ou se é outro, mas depois lembro-me que esta é uma pergunta de quem tem o sentimento como lugar, e o sentimento pode ser muita coisa, porque está dentro de nós, e não sei se este era o lugar, mas senti-me assim, como um adolescente que mais do que passar tardes a ouvir canções vive nelas, aposta tudo naquele lugar onde o som o leva, e o lugar, ontem, eram canções desses tempos, coisas que agora pertencem a um cânone, a um segmento limitado e pré-marcado para passar durante a noite, e não sei se “as pessoas não percebem” o que se passa quando essas canções tocam e estamos lá, porque sentem (vivem?) isso com outras canções, ou com outros filmes, ou com outras coisas, afinal de contas cada um tem os seus sentimentos, cada um teve a sua definição, cada um teve o seu trajeto, e ontem à noite senti-me bem a dançar, estava num lugar bom, o Éme tem uma canção que diz que “um lugar / é tão difícil de encontrar / um lugar” e é verdade, e quando encontras sabes, e ficas, de olhos abertos e pés no chão, uno.

Imagens

Na imagem — num dia sem tempo — estou com os pés junto ao mar, cobertos pela água das ondas que rebentam a um, dois metros do meu corpo moreno. Estou de calções vermelhos e com as mãos atrás das costas, a olhar em frente. Não contemplo, porque não estou descansado o suficiente para isso. Mas oiço as ondas a bater, aquele ruído intensamente calmo do circuito perpétuo das marés. Avanços, recuos, avanços, recuos. Olho para o fundo de todo o espaço e procuro ver a linha que divide o céu da água. Tento discernir um traço que seja, um horizonte mais claro ou mais escuro entre os dois grande azuis que se me apresentam à vista. Quando olho para a minha direita vejo a Carol a andar pela areia molhada, naquela linha mais estável onde os pés não afundam. Vejo o corpo vestido de biquini azul-cyan a desaparecer na imensidão do areal, aos poucos. Depois volto a olhar para o mar. Não contemplo, porque mesmo descansado tenho a cabeça cheia de coisas. Vejo o céu e lembro-me de Brautigan, que dizia que o seu lugar no mundo era ser nuvem. Vejo o mar e não penso em nada. Tenho muito em que pensar. Afinal, durante este verão li livros (demasiados livros), tive sonhos (tantos sonhos), e meti-me em aventuras. Tenho ideias, imagens, canções, momentos, memórias, energias — o diabo a sete. Não tenho é pressa, nem sequer peso (exceto físico). Tenho, isso sim, vontade. Tenho vontade de andar. E então viro-me e ponho-me a seguir a Carol, caminhando na linha do horizonte, com as minhas mãos soltas. Pés na terra, mar à vista, corpo quente, sob o céu.

Title: PIERROT LE FOU ¥ Pers: KARINA, ANNA / BELMONDO, JEAN-PAUL ¥ Year: 1965 ¥ Dir: GODARD, JEAN-LUC ¥ Credit: [ ROME-PARIS/DE LAURENTIIS/BEAUREGARD / THE KOBAL COLLECTION ]

Sonhos de ouro

Quando olhei primeiro, antes de mergulhar uma perna, pareceu-me que fosse uma minhoca. Mas ao olhar com mais atenção, e já com as duas pernas dentro do tanque, percebi que era só uma parte de um cabo de plástico, que deve ter caído com o vento. Estava muito calor ao sol, e talvez por isso a água não parecesse tão gelada. Ainda assim os meus sobrinhos perguntaram-me mais do que uma vez porque é que eu não mergulhava a cabeça. Estava com um livro na mão, a ler e a tirar notas, a ver o que é que uma das mentes mais conhecidas do positivismo jurídico tinha a dizer sobre a problemática da relação do direito com a política (spoiler alert: muito pouco). Acabei por mergulhar a dado momento, sem o livro nem o lápis. Às vezes tenho medo de me enfiar dentro de água. Não é uma coisa muito racional, acho que tem mais que ver com o frio do que com outra coisa, como, por exemplo, o medo de me perder. De me enfiar de cabeça na água e de voltar outro, de ali no mergulho deixar alguma coisa no fundo. Mais tarde, com as mãos raspadas e em ferida por terem aparado a segunda queda em jogos de basquete, sentei-me num banco junto ao tanque pequeno. O Jacinto tocava Leonard Cohen debaixo da árvore; estava um céu muito claro, com metade da lua cheia. Vi duas estrelas cadentes, e com binóculos consegue-se ver a cauda de um cometa, um pouco ao lado da Ursa Maior. Quando adormeci, aconteceu-me novamente: sonhei. Sonhar é como um mergulho: parece que quando entramos não sabemos como vamos sair. Nesta noite sonhei que encontrava os Capitão Fausto e lhes dizia que o meu sobrinho Baltasar (número cinco) me tinha confidenciado que tinha cuca-vírus (coisa que ele me disse mesmo, assim de repente, ao jantar). Não sonhei com o Dia do Gafanhoto, de Nathanael West, uma obra-prima da literatura norte-americana que a Snob editou e me recomendou numa das minhas idas semanais à Brotéria (a Snob é uma livraria e editora como uma livraria e uma editora devem ser, com ótimas edições próprias, uma belíssima seleção de livros à venda, e um atendimento impecável, cuidado e pessoal). O Dia do Gafanhoto é o melhor filme noir que vocês alguma vez vão ler; tenho a certeza de que até o “escritor fracassado” de Roberto Alt (também editado pela Snob) concordaria. Mas também não sonhei com o escritor fracassado, embora inconscientemente o tenha feito, nos últimos dias, enquanto acordado. Porque o calor, as ideias, o desejo, os sonhos… percebem? Há uma cena no filme Zabriskie Point, talvez o maior poema alguma vez filmado, em que o personagem principal entra num avião e foge da polícia. Ele já entra no avião transformado; a partir daquele momento a fuga torna-se uma espécie de sonho dourado sobre o deserto, o espaço maior de provação, de liberdade, de amor. Tenho tido alguns sonhos assim, de ouro. Sonhei com a Carol deitada numa piscina, a olhar para o céu, se bem que o céu podia ser os meus olhos, porque parecia que ela me estava a olhar e a sorrir daquela forma muito feliz e natural que ela tem. Hoje acordei e o Estêvão (sobrinho número oito) estava acordado, mas não queria ir para a sala, sorrindo de forma malandra, como quem está a preparar alguma. Enquanto bebia o leite com café pensei em Nanni Moretti a andar por Roma de Vespa, e a mergulhar numa piscina. Roma é uma cidade de verão: faz muito, muito calor. Depois sentei-me à secretária e escrevi no caderno: viver o verão. Tenho muitas páginas de teoria política e jurídica para ler e escrever, assim como algumas páginas de contos e romances onde me refugiar – e, talvez, alguns filmes. Tenho a Carol, tenho a família, tenho os amigos, e tenho o Beiral, e tenho a certeza de um desejo imenso, de me sentar um dia, livre (nem que por um curto momento) de ocupações intelectuais, para me dedicar a escrever uma história. A história é a seguinte:

B (that summer feeling)

Adorava ser criança para sempre. Assim posso usar tshirts com robôs desenhados quando for adulto. O tio dois usava, se calhar eu também posso. Mas e se for advogado? O tio dois é advogado, como o pai e a avó. O mano dois se calhar vai ser, não sei. Não sei o que quero ser quando for grande. Mas não me consigo imaginar para sempre dentro de uma casa. Prefiro estar fora, ao sol, de cabelo rapado. Gosto de filmes e de futebol, mas prefiro brincar, correr. Correr é bom. A mãe corre, e pinta. Gosto de me sujar e de me sentir livre. Lembro me de passar um aniversário da avó nas ilhas, e de estar no cimo de um monte muito verde, com água e nuvens por baixo. Era tudo muito bonito. Acho que já decidi o que quero. Vou ser criança para sempre, ou então vou passar o tempo a visitar montes e terras, e a estar no Beiral. Gosto muito do verão.

Cafés com nome próprio

No sonho eu estava a correr, tal como hoje de manhã, outra vez a correr, desde não sei quando foi a última vez que corri, estava a correr e a ouvir uma canção que estava na lista que fiz para correr, a lista que fiz talvez há um mês atrás, com canções que tinha ouvido no mês anterior a esse, mas esta canção envelheceu bem, porque as canções para correr envelhecem sempre bem, são feitas para durar quilómetros, para durar anos e gerações, e no sonho estou a correr e a ouvir uma canção dessas e a pensar em fazer um filme com a máquina digital mini-dv que encontrei, no meio das mudanças de casa, um filme sobre um personagem que vive num último andar de um prédio, que tem o telhado pejado de gaivotas no verão, gaivotas às quais ele chama “gaivotins” por nenhuma razão aparente que não parvoíce, e ele no verão quer sempre ser escritor, mas não consegue encontrar uma história para escrever, e então torna-se crítico, crítico de tudo, de cinema, de teatro, de música, de leis e de política e de pessoas, e um dia está a arrumar uns caixotes em casa e descobre uma fotografia da mãe, que já morreu, uma fotografia antiga a preto e branco, em que a mãe aparece muito nova e antiga, ao lado de um senhor estrangeiro, também ele novo e antigo, um senhor que sorri, sorri muito, e ele não sabe quem é o senhor, embora suspeite que seja apenas isso, uma pessoa numa fotografia num determinado momento histórico, e começa a pensar escrever uma história sobre isso, sobre o senhor estrangeiro, sobre a mãe ou uma mulher parecida com a mãe, uma portuguesa num país estrangeiro num tempo antigo, e depois no sonho corro e imagino que o crítico sai de casa para ir levar o computador a arranjar, e entra no carro e põe um disco a tocar, e enquanto ouve o disco começa a fazer uma crítica, uma crítica mental ao disco, e enquanto a cuca toca o crítico crítica, as canções passam, e o carro cruzaas ruas do Bairro das Colónias, onde se encontram cafés com nome próprio, cafés tão espetaculares como o Faz Falta e O Especial, e o carro está a virar na rua Cidade de Liverpool e a subir para a rua Cidade de Manchester via rua Cidade de Cardiff, acabando por ir parar à rua da Penha de França, onde o crítico já não punha os pés, quanto mais as rodas, há uns bons anos, quando ainda nem corria mas já gostava de conduzir e ouvir discos, ouvia discos e criticava-os, escrevendo longos artigos na internet sobre editoras lisboetas alternativas, elogiando a energia e juventude de bandas que desapareceram após editarem um disco, é o que é, e eu estou a sonhar que estou a correr e a ouvir uma canção estrangeira muito forte chamada Velodrome e a imaginar o nosso crítico, em formato mini-dv, a descer a Calçada do Poço dos Mouros para a Morais Soares, ao som de uma canção portuguesa muito bonita chamada Travessia, sobre um casal que trabalha durante a pandemia, o carro e a crítica embalados pelas vozes do Tomás, da Tamen e do Louie, enquanto o crítico se embala até à Alameda a pensar na diferença entre discos SSD e discos HDD, e como a RAM se relaciona com a porta e já não há portas de cd, e ainda as placas, e quando me lembro da placa deve ter havido um curto-circuito qualquer na ligação do sonho e acabo por acordar, e depois levanto-me e vou correr, ouvir uma música chamada Velodrome, ter um dia longo, lavar o carro e ouvir um disco no carro, comprar café e ouvir as histórias e lamúrias do condutor de um serviço de assistência técnica, e a verdade é que não sei se a câmara mini-dv está sequer a funcionar, nem sei se os gaivotins que vivem em cima do telhado vão demorar muito tempo a sair, também não sei muito bem se o condutor não era um pouco exagerado nos números que dizia, mas uma coisa que sei é que não me tem apetecido escrever, ou ler, ou ouvir, que recebo estes discos descomprometidos e divertidos que um grupo de amigos muito talentosos consegue produzir em quarentena como uma boa companhia de viagem, que oiço a produção segura e a mistura eclética de dança, balada, hip hop, canción e divirto-me, aguento as idiossincrasias de grupo, típicas destes discos de comunidade, e aprecio a liberdade e amizade que por ali anda, e até consigo ter vontade de conseguir um vinil para pôr a tocar na sala, num sábado de manhã quando a Carol e eu estamos na nossa, mas nada mais, porque já entrei em modo acabar e quando se está em modo acabar não se escreve, escreve-se (gostam deste pun de tese?), e o resto sonha-se, guarda-se, vive-se, para depois. Depois, logo se vê, em canção, palavra ou, até, mini-dv. Tenham um bom verão; vamos falando. Inté.

Léxico auxiliar

Estou sentado ao balcão da cozinha a comer duas embalagens de sushi barato que estavam em promoção no Uber Eats. Não tenho pauzinhos em casa; vou pegando em cada peça com os dedos, molhando-as na embalagem de soja, entretanto carregada de wasabi. No Japão é normal as pessoas comerem sushi com as mãos, de passarem o sushi pela soja com as mãos. Um tipo em Kanazawa, uma terra com belíssimos jardins, museus e bairros antigos, explicou-me isto ao balcão de um sushi bar, enquanto pegava em grandes peças, verdadeiras “postas” de peixe, com apenas um pouco de arroz, e as enfiava pela goela abaixo.

Costumo contar este apontamento algumas vezes, quando estou num restaurante japonês com família ou amigos. Sempre que o conto, acontece a mesma coisa: continuamos todos (eu incluído) a comer as peças com os pauzinhos, como se nada fosse, como se eu não tivesse dito nada, enquanto eu sei que dentro da minha cabeça este meu apontamento japonês e mundano está a considerar a necessidade da sua própria existência, ou melhor, da sua própria expressão, pensando se não podia ser só isso, uma memória interessante, uma ideia que fica para mim mesmo, como tantas outras, enquanto nós, no mundo exterior, aplicamos as nossas próprias regras, mesmo para coisas que não são originariamente nossas.

Por falar em regras, estou a falar sobre regras por mensagem, sobre o estudo das regras, a dogmática das regras, a filosofia das regras, tudo isso e mais um bocado, com muita soja e bastante wasabi. Lá fora está lua cheia. Quando me levanto para despejar o lixo no caixote vejo, da janela, a Igreja onde me vou casar, muito iluminada. Depois abro uma cerveja e vou para a sala. Não me apetece fazer nada. Não me apetece fazer rigorosamente nada.

A casa está vazia. Tenho só um candeeiro aceso. O copo de cerveja está no chão, junto ao meu pé esquerdo; estou sentado no sofá. Antigamente achava que estes eram os momentos ideais para o transcendente. Depois aprendi que são os momentos ideais para se estar como estou: parado, virado de frente para a televisão vazia. Lembro-me que hoje jogou o Benfica. Apetece-me beber esta cerveja? Não me apetece fazer, rigorosamente, nada. É isso? O que é isso?

Bebo um gole de cerveja, e volto a colocar o copo no chão, junto ao meu pé direito. Ouvi uma canção na minha cabeça em que o cantor me perguntava se eu achava que era o sal da terra. Não acho nada, rigorosamente, pelo menos agora. Acho muita coisa, mas de outras formas. Hoje achei que o mais provável, depois de encomendar sushi barato numa noite de lua cheia, seria encontrar o transcendente. O mais provável seria sentir o transcendente aqui, nesta sala, neste sofá, nesta casa vazia. Mas não. Sinto o sabor da cerveja nos lábios e nos dentes, junto com um bocado de arroz, atrás do molar esquerdo. É tudo tão real. 

Olho pela janela. Não dá para ver se a lua está reflectida no rio. Às vezes isso acontece durante a lua cheia, e é uma imagem muito forte. Não fica bem numa fotografia, pelo menos não numa fotografia tirada com um telemóvel. É terrível ter de ser profissional para fixar certas coisas. Há um barco estacionado no meio do rio, cheio de luzes ligadas. Parece uma esplanada da baixa, no verão, pronta para os Santos populares. Pergunto-me se haverá música para aqueles lados.

Estava no cimo de uma rua, fora da baixa, quando vi pela primeira vez o impacto da lua cheia sobre o rio. Nessa altura já tinha mais de trinta anos, mas ainda não me ia casar. A rua era muito íngreme, difícil de descer; no fundo da rua estava o rio e no rio estava a lua. A rua, no fundo, ia dar à lua. Mas eu não desci a rua. Não fiz nada, fiquei apenas a ver a imagem, da lua no rio, no cimo da rua, sabendo que depois ia para casa e ia-me deitar na cama e adormecer. Não me apetece adormecer, agora. 

Sinto-me pesado. Para ser rigoroso, engordei; para ser rigoroso, não tem sido fácil viver esta pandemia. Até Rick e Morty parece um desenho animado de crianças ao pé da realidade. Não aqui dentro, na casa vazia com um candeeiro ligado e duas embalagens estupidamente baratas e vazias de sushi barato no caixote do lixo. Falo lá de fora, nas ruas onde esta casa e as outras casas dos outros se encontram, nas terras junto às terras dos outros das outras terras, que todas juntas fazem a nossa grande terra que está ao pé de outras grandes terras dos outros, e separada pelo mar de outras grandes terras ainda, e de uma ou outra ilha pelo meio. E o que se passa quer nesta rua ou noutra ou numa outra terra ou grande terra ou ilha chega muito rápido aqui, à casa do copo de cerveja junto ao pé direito, onde passo algum tempo a ver ecrãs cheios de páginas e aglomerados de páginas, cheios de imagens, vídeos, sons e opiniões. E é difícil que o cá dentro não fique afetado pelo lá de fora, porque o cá dentro é a nossa maneira de nos relacionarmos com o que vem lá de fora.

Estou pesado (as calças não precisam de cinto, algo que nunca tinha acontecido) e se calhar o jantar e as duas embalagens tiveram algo que ver com algo. Mas não é transcendente. Vejo fogo e vejo força, vejo gritos e vejo dor, mas não vejo poder – ou tenho medo de o estar a ver, no ecrã do telemóvel. Estou a ver o ecrã da televisão, completamente negro, com uma luz vermelha por baixo. Penso se isto é uma representação do futuro, o transcendente que se faz apresentar enquanto metáfora televisiva. Não. Discuti, por mensagens, o idealismo e o realismo, o cinismo crítico, o declínio de um império. Depois vim para o sofá escrever. Apetecia cinema mas não apetecia filme. Apetecia que a televisão se ligasse e o filme que é cinema começasse a passar, e eu visse, e a Carol chegasse do jantar a que foi e ficássemos os dois a ver, ou a sorrir, e depois a dormir.

Durante a tarde também me deitei no sofá a escrever perguntas. Perdi todas as vidas do Duolingo numa aula de alemão sobre o presente. Há uma coisa que me faz confusão: é ein Glas Milch mas é eine Weinflasche? A Carol encomendou um chocolate de leite com avelãs. Lembrei-me de uma canção dos Delfins que ouvi na rádio do carro da minha mãe numa viagem norte-sul quando tinha menos de quinze anos. No refrão o cantor perguntava-me porque é que eu não era como a Sharon Stone. Eu sei que não era a mim que ele queria perguntar isso, mas pensei o que é que leva uma pessoa a perguntar a outra porque é que essa outra não é como, ou igual, à Sharon Stone. Somos o que somos, pessoas muito complicadas, com muitas histórias, já nos bastamos. Porquê?

Hoje, por exemplo, estive com um amigo e colega de trabalho a beber cerveja. Descobrimos, no final do encontro, que tínhamos feito Erasmus no mesmo semestre, e no mesmo país, e que tínhamos estado, durante esse período, em Bolonha, talvez ao mesmo tempo. E eu lembrei-me de um episódio numa pizzaria em Bolonha, em que um amigo português se pôs a falar com um outro português, e pensei se esse segundo português não era este meu amigo e colega de trabalho. Não era, mas não é engraçada, a coincidência? A cerveja agora está junto ao pé esquerdo, outra vez.

Há um tipo que toca a mesma canção na viola, todos os finais de dia e noites de domingo, no início da Rua Garrett. Parece uma música italiana, de filme de praia. Diz que me vai tocar um fado, um dia destes. Mas depois, sempre que nos cruzamos, ele toca esta canção, um dedilhado alegre, mas ligeiramente melancólico. Na quarentena – a Carol disse e bem, que agora falamos sempre desse período como sendo “a quarentena” – o homem estava sozinho, com os edifícios à volta, dando ao esqueleto da cidade a alma que esta não tinha. Era uma alma triste, mas bonita. Não sei se soava a fim, se a início, mas admito ser muito difícil perceber quando uma coisa acaba e quando uma nova coisa começa. Pelo menos para mim. 

Também me é difícil reagir sobre o que se passa. Há pessoas neste mundo que são maltratadas pelos outros de uma maneira abominável, apenas por serem diferentes quando, como nós, são o que são. Acordam, vivem, dormem, e lutam. Acontece noutras grandes terras, como acontece na rua aqui ao lado, ou nos ecrãs nas nossas mãos, e dói, dói horrivelmente. A dor é dor, não tem grande explicação. O mundo dói, e dói rigorosamente, e está a doer muito. Acho que devíamos fazer para que o mundo doa menos; tenho a certeza que poder, podemos. Podíamos (devíamos?) refundar o nosso léxico, fazer uma revolução em que algo verdadeiramente novo e diferente começasse. Sabemos?

A cerveja ainda não acabou mas já voltou para ao pé do direito. O direito trata das regras, das regras do poder, para limitar e para fazer valer o poder, não trata dos pauzinhos e das mãos, mas da realidade e do futuro. O direito devia ser a representação de um léxico bom, humano, aberto. O direito é meta, meta-tudo. Meta tudo o que não interessa no caixote do lixo, imaginem uma canção assim. Sim, sim, sim; sim, vou voltar a pegar num livro, prometo, um livro que não trate de poderes nem de regras, que não seja meta-nada, mas somente muito-tudo, muito bom.

Mas antes, deixem-me ir à janela, porque não sei se as luzes que vejo são de um segundo barco, ou se são apenas o reflexo do meu único candeeiro no vidro. Já vi; são de um segundo barco, do mesmo tamanho do primeiro. E, à direita, lá está a lua, refletida no rio. À minha frente está uma grua, uma grua que aponta para a lua. Lua, sua, tua: transcendente. Uau. Sabes?

 

.

A grande inocência

Começou, por estes dias, o verão. O verão é o tempo, por excelência, daquele sentimento de vida tão doce e provocador, e ao mesmo tempo tão maldito e destrutivo a que podemos chamar a “impermanência”. É difícil permanecer – estar, ser, ficar – parado no verão, porque ao calor qualquer leveza que não a de espírito torna-se insustentável. Passamos a ser chamados, a cada momento, a lidar com a sensação do tempo presente de forma mais forte e abrasadora (pun intended) do que o normal. Muitas vezes a solução para esta ansiedade mais quente que o habitual é cair, baixar os braços, e ficar num braço de areia ou numa boa e confortável cadeira, entregues ao peso (isto, claro, se uma bacia de água, marítima ou não, não nos poder acolher). Não menos vezes, a solução é aquela diametralmente oposta, de entrar num movimento contra-ciclíco, enfrentando o peso do tempo com o nosso “peso” interior e dinâmico. O Verão é um tempo difícil, especialmente para quem gosta de correr.

As aulas acabaram, enquanto que a tese avançou. Dediquei-me a discutir a grande inocência dogmática e conceptual que é pensar o direito sem pensar no poder, e pensar no direito e no poder sem pensar no político. Arendt é espetacular neste aspecto, abrindo-nos os olhos e os sentidos para a promessa e vida dos conceitos. Tem sido uma boa companhia, agora que não tenho outros livros para ler, e que acabou a última dança dos Bulls (e que vi a vergonha constrangedora que é White Lines) e sobretudo agora que o corrupio público no mundo real é (in)tenso e confuso, confinado a trincheiras demasiado ferradas num tempo duro como é este de pandemia. Apesar das multidões consumistas que o Chiado recebeu este fim de semana, temo que o novo normal traga, mais do que máscaras e desinfetantes, uma sensação de distância terrivelmente exagerada, entre pessoas a ideias, e aquilo a que chamamos a nossa convivência comum. Tenho pensado muito, nesse aspecto, numa frase que li, de Tolentino Mendonça, de que a “normalidade não é um conhecido lugar a que se volta, mas uma construção onde somos chamados a empenhar-nos”. E empenhados temos de continuar, nesta altura presente, em que as confusões são muitas e as incertezas também.

De regresso a casa, depois de um almoço, passei pela Almirante Reis, a avenida mais cinematográfica de Lisboa. No início do mês li um comentário a um vídeo de youtube em que alguém dizia que um filme era tudo o que ela sempre quis fazer, pensar, dizer ou sentir. Há ruas que me fazem o mesmo, ou que me fazem sentir, pensar, fazer ou dizer o mesmo que fiz, nos meus melhores dias, ou mais vivos. E não só a mim, mas a muitos que se declaram nas paredes, escrevendo manifestos ou declarações, desabafos e marcas. A avenida como uma canção ininterrupta, como um espaço veranil, cheio de calor e movimento. Lembro-me de outro texto que li, no início de um mês, de um maluco que ia a um bar, todas noites, para ouvir a mesma canção dos Thin Lizzie, querendo que os rapazes voltassem à cidade, para que toda a inocência que uma canção consegue carregar dentro de si fosse aberta e o enchesse de um sentido, de uma presença.

Mas depois estou num carro, e os Terno estão a tocar e sabe bem, não atrás / além mas aqui, aqui mesmo, e acabo por ir parar a um restaurante em campo de Ourique, com empregados de máscara e luvas, que servem os menus com pinças, e quando olho para a frente a Carol, que uns trinta minutos antes estava com uma toalha na cara a fazer uma figura divertida, está agora com o sorriso instalado, e o sorriso da Carol é devastador (é essa a palavra) porque as bochechas sobem e arredondam-se de forma muito deliciosa, e a linha do lábio fica muito recta e elegante. Tal e qual como na noite anterior, quando fomos agradecer ao café argentino que nos alimentou durante parte da quarentena, embora com uma diferença importante: é que agora, no italiano, a Carol está “sardinhenta”, o que quer dizer que apanhou sol e se vêem as sardas, e não há filme que pague isto, que consiga ser assim, como a imbatível naturalidade do amor que podemos ter por alguém diferente de nós.

Vem aí Junho, também conhecido por época de exames. Celebra-se o primeiro mês de vida dos bébés Emília e Simão, filhos de amigos, cujo primeiro contacto com o mundo ocorre nestas nossas novas condições epidemiológicas. O Verão vai acentuar-se e entrar em vigor, oficialmente, com bandeiras nas praias e férias pelas casas, aumentando a sede de movimento desconfinado. O virús ainda existe, ainda está por aí, e com ele um medo, mas o Mubi abriu a biblioteca e portanto posso pensar em, juntamente com a tese, o direito, o poder e a política, ver alguns filmes. Entretanto, comecei a ler Natalia Ginzburg, junto ao rio, num sábado à tarde. “Vocês – dizia o meu pai – aborrecem-se, porque não têm vida interior”. Acho que tenho tudo para amar.

Março, Abril, Maio

Caro diário,

Já faz algum tempo que não te escrevo. Espero que te encontres bem. Tentei por várias vezes falar-te, mas as coisas que se passavam eram tantas e tão confusas que preferi esperar. Não se deve escrever em turbulência; pode-se viver, mas não mais do que isso. Não sei se te lembras desta frase, que escrevi há uns bons anos, quando sonhava, algo ingenuamente, ser escritor.

Era de um personagem que estava a viajar sozinho durante dezassete horas, num comboio entre Dehli e Jaisalmer, e que tenta lutar com o tempo, o movimento, e o seu próprio conflito interior. Há pouco tempo, ao limpar o computador, deparei-me com ela, e achei que era verdade: só conseguimos falar com um mínimo de justiça das coisas quando elas acalmam, não quando estão ainda a acontecer.

Na realidade, as coisas ainda não acalmaram. Estamos a viver uma pandemia – desculpa por só te avisar agora, mas sabes como é, “mais vale tarde do que” – e há tanta coisa que se passa (tanto desespero, tanto humor, tanta dor, tanta alegria, tanta controvérsia, tanta preocupação, tanta ansiedade, tanto desejo) que apetece mesmo dizer: a vida não pode ser mais vida do que isto. Já estamos nisto há quase dois meses, Março e Abril, e agora vamos para o terceiro, Maio.

Tenho estado bem, a Carol mudou-se cá para casa e temos vivido graças a várias aprendizagens culinárias, desde o básico mas saboroso arroz (o truque está todo em não fazer prisioneiros no refogado) até aos bolos de iogurte mais divinais que podem existir (nesta casa não se faz pão, e bem). O consumo simpático de cerveja (Musa, by the way) e de documentários true-crime Netflix (vejam o The Staircase, é incrível; esqueçam o da Amanda Knox e não percam, por favor, o do Fyre Festival – true-lol ao máximo) também ajuda.

A Carol tem feito muito exercício, eu tenho feito pouco, mas aproveito para ir correr e ouvir alguns bons singles que têm saído, da Phoebe Bridges e das Haim por exemplo. O resto do tempo é com trabalho. Dou aulas à distância e escrevo a tese. Tem sido o melhor período para a tese desde os Estados Unidos. Tentei fazer uma data de outras coisas – um podcast baseado numa ideia de diário, um podcast baseado numa ideia de novela, um podcast baseado num disco de versões – mas desisti.

Porque um dia acordei e percebi que, um, não sou escritor, e muito provavelmente nunca vou sou ser; e depois fui à varanda de casa, olhei para fora, e tomei nota pela milésima-sétima vez que o tempo não pára quando queremos, apenas pára quando achar que faz sentido. Estamos (o país, o mundo) há dois meses em casa, e vamos ficar mais uns tempos assim, entre “recolhimentos domiciliários” e “distanciamento social”, entre necessárias medidas sanitárias que nos fazem parecer figuras de um filme de ficção científica série-z, alternando entre pesados estados legais de limitação individual e opções políticas difíceis e de equilíbrio social controverso, com o projecto europeu no fio da navalha e sem cinemas, teatros, concertos e mar.

Pode-se descrever a turbulência: o vazio das ruas, as flores nas portas e os músicos que se mantêm, desde há quarenta e cinco dias, no Chiado, a tocar fados tocantes, enquanto tudo à volta parece um monumento abandonado, uma maquete em exposição, um futuro que vai ou não vem. Mas falar dela, do que vem, quando tudo está ainda a acontecer? É difícil. É muito difícil.

Por isso, querido diário, vou continuar a viver a rotina que estabeleci, que é o possível, vou continuar a tirar a loiça da máquina (a Carol odeia essa tarefa) e a tentar lidar com os problemas da máquina de lavar roupa (está a verter água); vou continuar a ler os meus livros de teoria política, a tentar perceber o direito da vida e a explorar os limites de um bom refogado, e a ver filmes e séries, a ouvir os discos que valem a pena, e a tentar viver de forma justa o que se passa. Vou te deixando pequenas notas sobre o quotidiano, prometo.

Por exemplo, está um belíssimo dia de verão hoje, muito quente e solarengo, e é dia da Mãe; faz-me pensar que vai correr tudo bem. Rimei, foi sem querer, desculpa-me; da próxima