Esboço / Decisões

Passei o primeiro dia de isolamento a recuperar de um prazo. Esteve um calor louco, deu para almoçar na varanda e relaxar do movimento dos últimos dias. Ainda se ouve muita coisa lá fora, muitos sons e barulhos, de carros, pessoas, buzinas. Há movimentos que não param, enquanto que outros movimentos – de viagens, mais concretamente – estão completamente fechados: disseram-me os meus vizinhos, que gerem alguns negócios de alojamento. Li um pouco, segui as notícias, escrevi um postal, bebi vitamina C e um comprimido de vitamina D, e fui jantar com a família. Não nos cumprimentámos; foi o último encontro antes de nos isolarmos todos, até uns dos outros. Rimo-nos muito, e depois falámos a séria sobre os dados, as perspectivas, a capacidade de se lidar com isto. Itália veio à baila, e Itália está muito mal, e em Itália já está toda a gente em casa, como se fosse uma guerra. Ao voltar para casa senti algum medo e muita apreensão pela incerteza do que vem aí, não por mim, mas por todos, com tudo o que parou, com tudo o que vai ter de voltar (nalgum momento), e com tanta gente que pode estar em risco. Assusta-me muito que alguém próximo fique numa situação complicada. Entrei em casa e fui-me deitar. Durante a noite sonhei que estava no pátio do meu antigo colégio, num encontro qualquer importante, e depois estava num pontão a ver os Strokes a tocar. O Casablancas a dado momento estava a tocar piano, e noutro momento tinha um baixo nos braços. Acordei com o Bad Decisions na cabeça, e fui tomar o pequeno-almoço para a varanda. Os barulhos continuam, como se fosse uma sexta-feira normal.

Esboço / Infante Santo

Saí do autocarro de volta (quando era de noite) e olhei para os prédios à minha frente, para o parque de estacionamento, para os prédios à esquerda, para a estrada a descer, e para a paragem do outro lado da Avenida, em frente aos azulejos de Eduardo Nery, naquela encosta feita de escadas, de pedra, de árvores e de verde, onde algumas horas antes tinha apanhado o autocarro de ida (quando era de dia). Pareceu-me um cenário muito bem pensado e desenhado para uma narrativa urbana e emocional. A Infante Santo é muito dreamy. Na peça ou filme ou vida que imagino passar-se ali há um personagem que espera o autocarro todos os dias, lendo o mesmo livro todos os dias, sobre uma rapariga que ouve canções italianas cantadas por um músico norueguês enquanto dispara pensamentos sobre as coisas simples que vai sentindo. E o personagem acha – as histórias, os pensamentos, as coisas simples – tudo muito real e fictício ao mesmo tempo, tudo muito, lá está, dreamy, tal e qual como aquela paragem onde se encontra, quando é de dia / quando é de noite. Abri o telemóvel e li as notícias sobre o progresso da situação do coronavírus. Lembrei-me da frase de Rachel Cusk: sem estrutura os acontecimentos são irreais. Fui-me embora; no dia seguinte começou o isolamento.

A garganta do gato

Estava escuro. Lembro-me de abrir os olhos e de reparar como as paredes eram altas, sabes? Altas e inclinadas, como naqueles filmes alemães expressionistas, antigos. muito perturbadores Sim, havia uma luz, clara, vinda da janela, que a cortina de plástico (que eu era capaz de jurar a pés juntos que tinha esticado antes de me deitar) estranhamente não bloqueava. Eu estava deitado na cama, com uma perna fora do cobertor porque tinha calor, e sentia que agentes secretos israelitas e agentes secretos iranianos me tinham posto na cabeça a informação toda sobre tudo, e a informação toda é de que tudo, ou seja, o mundo, a vida, as pessoas, o universo todo está minado, comprometido, condenado, perdido e sem remédio, é o que é, e eu estava ali na cama e tinha só de estar consciente disto, de que o segredo tinha sido desvendado e que agora era tudo assim, para sempre sem inocência, para sempre e para o resto da minha vida com este conhecimento terrível, obrigado a andar nos dias apesar disto, como uma espécie de impostor.

Imediatamente depois desta sensação e constatação algo marada reparo que estou num quarto de hotel  no Algarve, anos noventa, e que o sol de Inverno (morno, como que adormecido) cai sobre a madeira escura do soalho. Olho pela janela – parece que estou de pé, agora – e vejo o Minho interior, vinhas e campos verdes e estradas cinzentas claras, e parece-me que é um verão, um de muitos, porque no Minho interior só as estações é que mudam, os anos são sempre os mesmos. É nesse momento, entre o norte e o sul do país, que me apercebo de que estou num sonho. Já estava antes, quando senti que os agentes secretos me tinham colocado numa missão suicida, no quarto do Dr. Caligari.  É tudo um sonho, porque nos meus sonhos venho sempre parar aqui, a quartos de hotel grandes, confortáveis e impessoais, e depois vou sempre para o meio do verde, das árvores, e acabo junto ao mar. Nunca estou numa cidade.

Algures no sonho vou entrar numa espiral de momentos, pequenos fotogramas editados de forma abrupta, em que consigo decorar um ou outro pormenor, como a água a chegar à estrada, o carro parado junto à relva, e a sensação de nadar contra a corrente, contra um arrasto do mar, mas seguro, pacífico. Depois vou-me esquecer, vou continuar a dormir, e depois vou acordar e ver a cortina fechada, tal como eu sabia, com uma ligeira luz do sol a entrar por baixo, a Carol a dormir e o relógio a dizer-me a hora portuguesa. Vou lembrar-me dos sonhos, da sua falsa-realidade, e vou pensar o quanto achava que depois dos trinta anos a idade vinha com mais calma. Mas se calhar não, se calhar é ao contrário: se calhar a partir dos trinta é que começa a acelerar. Penso também que talvez não devesse ler livros de Kurt Vonnegut sobre publicitários-nazis-que-na-realidade-são-agentes-americanos antes de dormir. Ou so it goes.

É sábado e estamos em Copenhaga. Copenhaga é sóbria por fora, nas fachadas dos prédios e dos museus, e bonita por dentro, nos corredores e nas salas, nos balcões das cervejarias, nos bancos dos cafés. Muita luz, bem medida; muito equilíbrio, bem desenhado; muito conforto, bem feito. Nada está em excesso, é tudo muito suave. O pão é bom, o café é péssimo, a comida é excelente, os museus são giros, e é tudo para lá de humanamente caro.

É uma boa cidade para visitar e passear. Há Igrejas luteranas de mármore muito bonitas, e livrarias pequenas com uma ótima seleção de romances norte-americanos e manuais de economia socialista em saldo. Apanham-se alguns bêbados na rua, no metro, e na casa de banho de galerias comerciais – encontrei um que, sem se virar do urinol, me contou uma história surreal sobre um “amigo” português com quem partilhava prostitutas; lembrei-me dele quando, ao chegar ao aeroporto de Lisboa, verifiquei que os urinóis são dinamarqueses (os loucos perseguem-nos). Há muitos bebés também, em carrinhos, a serem passeados nos seus sonhos e dias pela cidade fora. A dado momento estamos a almoçar num balcão com vista para a rua, e temos ao nosso lado uma mãe e uma filha a comer um ovo benedict com uma miscelânea de legumes fermentados e um pão de trigo, enquanto que o bebé (filho da mãe e irmão da filha, presumo) está deitado num carrinho, a dormir, do outro lado da janela, ou seja, na rua. Estão três graus lá fora, nem sei qual a sensação térmica real (um ou dois graus a menos, imagino), e penso que isto deve ter algum impacto na maneira como os miúdos crescem, na forma como uma cultura se desenha, e que esse impacto deve inevitavelmente ter consequências políticas, sociais e económicas. Lembrei-me de Vasco Pulido Valente, do que poderia ter Vasco Pulido Valente escrito sobre isto.

Não sei o que teria VPV escrito sobre o  Louisiana Museum of Modern Art, mas deixem-me que vos diga: é uma pérola de instituição cultural, construída numa encosta sobre o estreito de Kattegat (“a garganta do gato”), com belíssimas e provocadoras exposições. Desde o calor rosa e turquesa das caixas de fumo e luz de Ann Veronice Janssens até às fotografias californianas e impressionantes de Lauren Greenfield e aos desenhos revolucionários e femininos de Nancy Spero. O jardim também é bonito, mas não tanto como o do cemitério de Assistens, no bairro de Norrebro. Adoro a calma de jardins urbanos, da sua calma e harmonia dentro do caos citadino de barulhos e confusões. Os dinamarqueses, tal como os japoneses e os norte-americanos, percebem muito disto, ao fazer cemitérios em jardins, ou vice-versa. Soube bem estar ali.

Na segunda noite em Copenhaga tive insónias (na terceira e na quarta népia; também não tive sonhos). Não havia agentes secretos, nem sequer luz no quarto. Deve ter sido do salmão amanteigado, ou da cerveja meio fumada que a Carol e eu partilhámos, não faço ideia. Deixei-me estar a olhar para o tecto, para as paredes, para todo o lado, enquanto esperava que o sono viesse. Tentei aproveitar o tempo para me consciencializar para mais uma Quaresma. Porque apesar de toda a modernidade e progresso, continuo a gostar de épocas e de estações, de momentos marcados, como a quarta-feira de cinzas e o caminho para a cruz. É uma ótima altura para olharmos para dentro e virarmo-nos para fora, com força e sem medo. E para deixar algumas coisas que estão a mais. Como, por exemplo, escrever.

Não me lembro quando adormeci; sei que não me recordo do que sonhei. Provavelmente, estava num hotel a caminho do mar, e depois de carro no campo, ou então no mar a ir para um hotel, pelo campo. Talvez tivesse existido alguma intriga, alguma espionagem, algum drama civilizacional na minha cabeça, não sei. Acabei o Vonnegut e comecei a ler o Milkman de Anna Burns, que é uma história sobre perceções e medos, sobre mentiras e ridículos, sobre exageros e violência, e sobre crescer no meio de uma guerra civil com contornos políticos e religiosos complicados, na Irlanda do Norte nos anos 70. Talvez me dê noites mais calmas, quem sabe. Sei que ontem li um poema com um verso de que gostei muito, de Sue Kwock Kim: “I am pure onion – pure union”. Santa Quaresma para todos.

 

(parágrafo)

Já os noto mais, junto à testa. É impressionante como se multiplicaram, desde aquele momento na casa de banho em Hill Street, acabadinho de escrever um postal nunca publicado sobre nomes que nunca se dizem, em que reparei em dois ou três, no bigode e nas patilhas. Ouvi hoje uma nova música dos Strokes e emocionei-me, não por nenhuma “bad decision” presente ou passada, mas pelo facto dos Strokes ainda conseguirem fazer grandes canções, quase 20 anos depois das primeiras. Também me emocionei nas primeiras seis canções do concerto dos Big Thief, com uma banda que é américa, que tem aquele sentimento de américa, com aquela mitologia bela, não sei explicar. Sei que odeio ver pessoas exploradas e a sofrer, que o sol ainda é de inverno e portanto falso amigo, que estou viciado no Duolingo, e que em vez de lermos mais Sapiens devíamos ouvir mais John Moreland, pois “what good’s a letter in a language you can’t read”? A luz entra pela janela e projecta-me na parede, uma sombra de mãos caídas, e eu / sonho.

Rua do Olival blues

De manhã há menos carros e mais passeio; de noite, vice-versa. Vice-versa também para os sentidos percorridos, nas duas alturas do dia, da saída e da entrada. No meio, sempre presente, a estrada de pedra escura, desnivelada, esburacada. Gotta love os poderes públicos lisboetas.

Nas pontas, por onde entro e saio, estão dois restaurantes — um italiano de origem nepalesa e um de “comida da lusofonia”. A rua cobre bastante geografias: há brasileiros e estudantes espanhóis de Erasmus nos prédios do meio, do lado esquerdo de quem parte e no direito de quem regressa. Há famílias, crianças, casais, trabalhadores, desenhadores profissionais com ateliês noctívagos pelo meio, perto das traseiras da Igreja de S. Francisco de Paula. A minha querida Travessa São João de Deus, eleita com orgulho a rua mais florida de Lisboa, aparece depois / antes da Igreja, sempre como uma pequena surpresa. Existe ainda uma pequena mercearia, muito idosa e portuguesa, com uma luz na janela de noite, que diz OMEGA. Há casas em obras e casas com sinal de que estão há venda há muito tempo. Nas paredes encontram-se símbolos anarquistas tapados por suásticas, ou se calhar é ao contrário, não dá para perceber bem.

Um dia, no sentido de regresso, lembrei-me de Georges Steiner, e pensei que género de ensaio cultural este grande mestre do cânone ocidental escreveria se vivesse na Rua do Olival. Será que pensaria na amplitude desta rua a céu aberto, e depois na prisão em que se tornou Wuhan na China, e citaria Camus, quando este escreve, no romance A Peste, que o “hábito do desespero é pior que o próprio desespero em si”? Ou será que faria alguma ligação com o evento do Brexit, com as confusas primárias democratas norte-americanas, ou com a “nova” direita portuguesa? Será que Steiner gostaria da energia mística do novo álbum de Dan Deacon, ou da classe intemporal das novas canções de Destroyer? Ou deixaria as referências para homenagear Kobe Bryant, relembrando como se fosse uma criança, a magia que via o Balck Mamba fazer em poucos passos?

Ou será que Steiner se limitaria apenas, no seguimento dos ensinos de Epicteto, a calar a sua única boca e a aproveitar os seus dois olhos e os seus dois ouvidos para apreciar o mundo à sua volta, ali e para lá da Rua do Olival, em toda a sua complexidade, com todo o seu ruído e toda a sua magnitude, conseguindo, após alguns momentos assim, em pausa, reconhecer ali um importante e provocador silêncio, com mais sentido e presença que tantas palavras escritas?

Estava a passear, numa pausa de estudo, pelas várias salas do andar de cima da Brotéria. Deixei-me seguir no silêncio de paredes brancas e pés direitos altos. Pensei em flores, pensei na fé, pensei no mundo, no(s) sentido(s) das coisas. Parei em frente a uma janela e fiquei a ver o Largo de S. Roque. Havia pessoas sentadas a tomar café no quiosque, enquanto outras estavam de pé nas escadas da Igreja, paradas, a meio caminho da Igreja ou de outro sítio, de outro caminho.

Estava a correr e passei pelas tendas dos mendigos perto do Urban Beach. Numa delas estava colocada a bandeira da União Europeia, como cobertura, mas também (pelo menos parecia) como manifesto. Noutra altura, quando parámos o carro para ir jantar a casa, a Carol e eu vimos, no fundo da rua, uma escavadora, e à frente da escavadora o pastor alemão do chef nepalês, sentado, a olhar para nós. Ficámos parados a olhar para a cena, como se fosse um mistério. Depois / antes, estava sentado no balcão da Musa da Bica a beber a última Severa que havia em stock e a ouvir Sheryl Crow (que me faz sempre lembrar a Alanis Morissette, não sei porquê) e senti naquele momento a certeza de que nunca deixamos de valer pelo que somos e pelo que sentimos.

Mais tarde, ou mais cedo, ou quando quer que tenha sido — o tempo no “ano de tese” é uma aventura fabulosa, fiquem desde já a saber — estava numa associação cultural de bairro prestes a produzir um espetáculo de stand-up falhada (há quem chame ao conceito “concerto musical”), num auditório com algumas décadas de vida, dedicadas, entre muitos ilustres, aos “parodiantes”. Estava à porta, como na nova e muito boa canção dos Strokes, para receber a Carol. E é difícil explicar (it’s hard to explain) a força de uma chegada. Mas é um facto que há tanta vida que se ganha na contemplação e no ser, no estar, sem grandes buscas nem perguntas.

Na Rua do Olival / o caminho é amplo / a estrada escura / e o céu / aberto.

Palavras, explosões

Não se ouvia o helicóptero. Não se ouvia nada, agora que penso nisso. Talvez se ouvisse — talvez fosse necessário ouvir-se — alguém a falar, alguma das pessoas que me acompanhavam e que eram, tal e qual como o seu discurso, se este existisse, apenas som e forma; palavras vazias, sem qualquer corpo ou significado, mas existentes. Uma espécie mutante de ruído branco, ausente e presente ao mesmo tempo. Também não se ouviu nada quando o helicóptero começou a cair; apenas se reparou, como uma mera evidência. A queda contínua, muito lenta e embalada, até se despenhar num pequeno descampado, sem um estrondo, nada. Eu estava nesse momento no cimo do monte, no meio de um caminho de vinhas minhotas, a olhar para o helicóptero, e via corpos que saltavam de dentro, alguns com pernas, outros sem; alguns que se mexiam, outros que ficavam caídos, e que ao caírem abriam os braços e desmembravam-se. Pensei que devia ter havido uma explosão, nalgum momento, ou pelo menos um som, um qualquer barulho. Começou a sair fumo do aparelho. Estava sol, céu azul, algumas nuvens brancas. Sentia dentro de mim um desconforto enorme e insuportável. Mas nada rebentava.

A morte de Suleimani tinha ocorrido há um ou dois dias, iniciando um ciclo de estrondos geo-políticos, culminando na trágica queda do avião ucraniano. Segui as notícias com muita preocupação, temendo por um escalar de violência a nível mundial. Às vezes a maior tensão vem disso, da espera, das possibilidades incertas, da informação que circula, do nada que não conhecemos, da descoberta. A tensão que é transmitida por palavras e silêncios. Estava a ler o último romance de Ben Lerner, The Topeka School, que aborda exatamente esse tema, o da violência cultural e emocional que é fruto do acumular de sintomas, de incapacidades de expressão, de exposição abusiva a demonstrações estéticas contraditórias. “Trauma is the collapse of experience as such”, e é difícil não pensar nos traumas que se repercutem —  quer no Kansas, quer em Bagdad, quer em Lisboa, quer em todo o mundo — por estes dias, nas suas causas mas sobretudo nas suas repercussões, quer políticas  e gerais, quer mundanas, individuais e concretas.

Não sei se o sonho do helicóptero foi resultado disso, da tensão com que o ano começou, ou da releitura dos livros sobre a crise da zona euro, da correção de exames, ou simplesmente de uma assistência compulsiva da série Rick and Morty. Aí não faltam explosões, mortes, injustiças, mas também lições e verdades, como o discurso da psicóloga no final do episódio Pickle-Rick, sobre a importância e o desafio que é reparar, curar e tratar, ultrapassar. Os psicólogos, a terapia e a análise acompanharam muito o meu mês de janeiro. Desde os pais de Adam Gordon em Topeka School, até aos analistas do FBI de Mindhunter (série fantástica, sobre posturas e espaços, procuras e delisusões), passando pelo Joker de Joaquin Phoenix. Gosto da forma como Phoenix dança, mas fiquei conquistado, sobretudo, pelo modo como corre nesse filme, num estilo muito mecânico, com as pernas e os braços muito subidos, como se tentasse levantar vôo.

Não há tanta correria em Marriage Story de Noah Baumbach, a história é muito terra-a-terra. E talvez por isso é que seja uma pequena obra-prima: por dentro daqueles planos próximos, daquela cor quente californiana, daquela música quase infantil e daqueles incríveis actores está um mundo tão bem montado, tão realmente duro e humano. Sabemos que um filme ficou quando nos deitamos e acordamos e ele ainda lá está. Adorei, do início ao fim; acho que a cena do pai, vestido de homem invisível (que argumento genial) a levar o filho a comprar doces numa loja no Halloween é das mais bonitas imagens que vi no cinema, lá em cima com Bill Murray em Tóquio, Giulietta Masina em Roma, e todos os planos realizados por Yasujiro Ozu.

Adam Driver canta muito bem no fim do filme — se ainda escrevesse postais num blog teria feito um com esse vídeo, com o título de uma grande música dos Sonic Youth: “Do You Believe In Rapture?” — mas a verdade é que não tenho ouvido muita música, ultimamente. A Ultra e eu fizemos uma lista de canções que gostávamos que tocassem na festa do nosso casamento; ouvi D’Angelo num Uber no Rossio, numa noite de Domingo, e um belo disco de Mozart num jantar de sexta-feira. O shuffle de temas que me acompanha nas corridas (63,8 quilómetros até agora and counting) já passa despercebido, um ruído branco — outro — que desaparece perante o movimento (nada espetacular, ao contrário do de Phoenix) e as imagens do rio. É difícil correr com frio (este janeiro tem sido gelado) mas tenho conseguido dormir bem.

(Grande canção que vi foi o espetáculo “O Canto da Europa”, do Jacinto, no Teatro D. Maria II. Não deixem de assistir, se tiverem oportunidade; é música ótima para os tempos que vivemos.)

Tenho tentado estar atento, quando saio, ou para a corrida ou para as compras, ou ainda para a faculdade, ao que se passa à minha volta. Reparei que há uma proliferação estranha de novos restaurantes italianos em Lisboa, em particular na zona da Baixa / Santos. Reparei também num flautista na rua da Rosa, num domingo à noite. Vi que as obras no Jardim de S. Pedro de Alcântara já não afetam a vista. Assisti a um espetáculo do Coro de Câmara de Lisboa, e voltei à Luz para ver a máquina que é Gabriel Appelt Pires em ação. Passeámos, a Ultra e eu, pelas laterais da Avenida da Liberdade, tomando nota dos sítios que encontrávamos e almoçando num agradável café de estilo internacional. Escrevi para a tese.

Lembrei-me, com a história do Irão, de outra história, a do Pai e da senhora Húngara. A senhora Húngara era a amiga (amante?) do Pai, uma das quatro personagens principais de uma ideia de romance que tive há muito tempo, chamado O Albacora. Na ideia — no livro — o Pai está a contar-nos a história da sua viagem ao Irão, em trabalho, muito antes desta vaga de explosões, e de como conhece a senhora Húngara num hotel e decide acompanhá-la numa visita aos desertos do interior, a Yazd e aos montes dos Zoroastras, a Persépolis e ao túmulo de Xerxes. O Pai conta, primeiro dentro de um terminal de aeroporto europeu (sentado ao balcão de um bar, de fato sem gravata, a beber uma cerveja belga estupidamente cara), e depois à janela de um avião com destino a Lisboa, a caminho dos anos da Mãe, sobre estar num hotel género riad, a comer tâmaras e a imaginar-se numa festa no salão maior de Persépolis. Pergunto-me se agora — se eu o escrevesse agora — o Pai não pensaria nas ruínas, algumas cheias de marcas de exploradores britânicos do século dezanove, de como elas poderiam desaparecer, não devido ao tempo, que já se viu que o tempo não as consegue vencer, mas devido à guerra, aos mísseis da guerra. Palavras e espaços, destruídos em explosões.

Estava a matutar nisto antes de ir viver um momento de rotina, e de ouvir um testemunho de um amigo querido sobre a guerra colonial, sobre pessoas que morreram na guerra colonial ao pisar uma minar, que morreram com a cabeça nos braços dele, um enfermeiro beirão, e o baixo ventre açoriano espalhado pela selva, sobre memórias que ficam, sobre promessas por cumprir, sobre passeios à Ilha da Terceira para prestar homenagem, fechar memórias, dar testemunho de uma vida, e se calhar daquele último abraço, mesmo que fatal.

Emociono-me com o mundo que uma pessoa consegue ter e carregar enquanto se dedica à ordinária tarefa de existir dentro de uma rotina. Acho isto um dos melhores exemplos possíveis de humanidade; guardar palavras e explosões, vivê-las, descortinando o melhor sentido de ambas. Ou, se calhar posto de outra forma, apenas, e tão só e dificilmente, vivendo.

 

Álbum, vinte / vinte

Estava a subir a calçada do Sacramento quando de repente se ouviu um estrondo, como se algo muito pesado tivesse caído e quebrado no chão. Seguiu-se ao som do estrondo – quase imediatamente, ligeiramente sobreposto até – o som de um grito, de mulher. Os outros peões e eu olhámos em volta, e vimos que no cimo de um prédio pintado de vermelho claro / cor-de-rosa escuro / cor-de-framboesa (escolhe tu a cor, por favor) estava um casal de asiáticos, ele e ela, vestidos exatamente da mesma maneira (calças de ganga azuis e camisola preta), os dois numa varanda com uma mesa no meio, a olhar para baixo, para aquilo que deve ser um pátio ou jardim interior, o qual não dá para ver da rua. Fiquei a olhar para os asiáticos, ele ainda a meio caminho entre uma cadeira e a grade da varanda, como se no fundo da sua vontade e desejo não se quisesse levantar mas tivesse de o fazer, ainda que ligeiramente, ou para perceber o que caiu ou para fingir que estava preocupado, enquanto ela estava agarrada à grade, completamente de pé e decidida, concentrada no que tinha acabado de cair. Fiquei a vê-los por alguns instantes, sem conseguir perceber bem o grau de preocupação pelo sucedido, procurando discernir o que é que caiu (Uma chávena? Um bule? Uma carteira? Uma prenda de Natal?) e onde, em cima de quê, com que consequências. Tirei o telefone do bolso para filmar o momento; quando voltei a olhar a varanda estava vazia. Continuei a andar.

Estou agora em frente a uma elevação de terra que me faz lembrar uma mini-falésia. Por cima e por baixo há uma grande vegetação selvagem e húmida. No meio da vegetação de baixo está um barco encalhado. Passa um comboio na margem de cima, e na esquina da rua ao lado está um tipo a puxar para o gordo a fumar um charro, enquanto dois casais trocam de lugar num Uber que pára em frente a uma cervejeira. Aquele barco não faz sentido nenhum, e apesar dos ares deste bairro, com as suas cervejeiras, galerias, lojas vintage e o restaurante Cais das Colunas, tudo instituições de arte, moda e provocação, percebe-se que a localização do barco não tem nada que ver com qualquer devaneio criativo, e sim ser fruto de um tipo maior de desleixo ou desvario. Imagino, mais tarde, uma pessoa – pode ser uma mulher – que todos os dias passa a vegetação e entra no barco, liga umas luzes e uma aparelhagem antiga, onde sintoniza uma rádio que passa música popular e romântica, e depois abre uma cadeira de praia e põe-se a apanhar sol, numa deliciosa cena de kitsch urbano. Cinco minutos depois de nos afastarmos do barco, e muitas horas antes da minha cabeça imaginar a cena da mulher, ouve-se um estrondo, desta vez de uma explosão. Olhamos para trás e vemos, na esquina do outro lado da mini-falésia onde eu podia jurar que estava o gordo charrado, imenso fumo, e parece-me que alguém explodiu um petardo. Mas não vejo o tipo gordo, não vejo carros, na realidade não se vê ninguém nem nada a mexer, na rua. Deixamos a cena e continuamos a passear. Vamos até à Fábrica Braço de Prata e voltamos para apanhar o carro e ir beber uma cerveja no Ferroviário, a ver o pôr-do-sol sobre o rio e as linhas rosadas do céu, falando sobre pessoas, sobre sociedades de advogados, e sobre os melhores discos do ano (na altura, disse Vampire Weekend e Big Thief; hoje faria menção dos belos trabalhos de Hand Habits e Better Oblivion Community Center). Parece que o Bonga vai dar um concerto no Ferroviário, mais precisamente à meia-noite e um quarto de dia um de janeiro.

Agora é dia trinta de dezembro, penúltimo dia do ano, e estou a andar na rua do Olival, quando uma senhora que vem na direção oposta diz bom dia a um senhor mais velho que está à janela, e pergunta-lhe, literalmente, como vai “isso”, “se vai bem ou se vai melhor”. Passo por ambos e levo-lhes esta gentil interação, altamente generalizada e impecavelmente aberta (o que é “isso”? A vida? O dia? O momento? Uma doença, um filho, uma mulher, um livro, um sonho?) para pensar enquanto observo os prédios novos com ar retro que estão a aparecer na zona de Santos. Entretanto está frio e está sol, uma combinação fabulosa que convida ao passeio. Penso também num diálogo do filme Parasitas, que vi ontem à noite, em que o pai, o Sr. Kim, explica ao filho a diferença entre ter um plano ou não ter plano, na vida. Abro o casaco mas não tiro o cachecol. Gosto do ritmo de tudo isto.

Eu sei no que estás a pensar. Estás a pensar no texto que acabaste de ler – mais concretamente nas imagens do texto, nas relações entre as várias imagens e eventos e pessoas, nos factos e no que eles reproduzem. Perguntas, para dentro de ti, se há uma ideia geral por detrás de tudo isto, se há algum plano maior, alguma construção significante e significativa a que devas prestar atenção. Pensas se calhar no autor, em como é a sua postura a andar; se me conheces, pensas em como é que eu estou, se ainda uso calças de fato-de-treino quando saio à rua (a resposta é: sim, claro). Pensas se o que estou a ver e retratar é real ou não, se aconteceu mesmo, e, se for real, até que ponto é que – wait for it – realmente o é.

Perguntas-te se há mais qualquer coisa, se houve mais qualquer coisa, se falei de tudo ou se deixei algo de fora, naquele momento ou nos momentos seguintes, nos espaços e tempos entretanto, entre tantos. Eu sei bem no que pensas, não exatamente no que pensas, mas nos caminhos por onde passas, aí dentro da tua cabeça e do teu coração, quando te confrontas com momentos, dados, factos, sonhos, pessoas, sentimentos, realidades, ideias, imagens, símbolos, referências e palavras. Se pensares bem, tudo isso, os momentos, dados, factos, sonhos, pessoas, sentimentos, realidades, ideias, imagens, símbolos, referências e palavras que por aí andam, não passam de histórias. Coisas que existem a partir de tudo, mas para lá de tudo ao mesmo tempo. Que se geram e se passam, que morrem e ressuscitam. Que ficam, que vão. Mas que são. Sempre foram, sempre são, sempre serão, contra todo o espaço e todo o tempo. Livres.

Não me lembro exatamente do mês – fui ver às notas; foi a meio de julho – mas um dia fui jantar ao Rei da China. O Rei da China é um restaurante de balcão na Rua Nova da Trindade. Estava para lá ir há imenso tempo, e um dia decidi: este é o dia. Fui sozinho, era de noite. Pedi um ramen, se não me engano, e bebi uma cerveja artesanal portuguesa. Era o único cliente do restaurante; de resto, só estavam no espaço os dois cozinheiros e uma empregada. Ouvia-se uma música eletrónica meio jazzy, que embalava tudo muito bem. Toda aquela mistura – o balcão, a razoável comida asiática, a solidão, as luzes, a música – fizeram-me lembrar o filme Chungking Express.

Foi nesse momento, entre dois goles de cerveja e uma mensagem de telemóvel para o Reino Unido, que decidi escrever qualquer coisa mais “recorrente” e “desenvolvida” (palavras relativamente determinadas e ainda assim abertas), durante um “determinado” período de tempo. Podes chamar-lhe um plano, se quiseres, um plano de histórias, sem necessidade de assinatura ou subscrição, mas sem expectativa de encontro. Um planos de viagens, interiores e exteriores, de atenções e de descobertas.

Não sei o que vai ser, se algo assim como isto, se algo diferente, se fabricado ou relatado, se facto ou ficção, se um diário ou uma crónica, se um poema que se cruza com uma crítica de teatro, se o quê. Só sei que no primeiro dia do ano de dois mil e vinte estava a ressacar no sofá de casa dos meus sogros, com a Ultra a dormir no meu peito e um filme interessante sobre a vida da Nina Simone a passar na TV. Olhei pela janela e vi o rio, e ao fundo o nevoeiro. Havia ali fora um quadro, com o ritmo lento da água misturado com as cores de céu de fim de dia, meio enevoadas, que se tornava um pouco transcendental, graças à natural calma e lentidão do dia e ao meu estado de recuperação festiva. Tomei nota, primeiro mental, e depois por escrito, para começar por aí, pelo início, pelo sentimento e pelo sentido do ano – ou pelo sentimento que faz sentido, ou pelo sentido que é sentimento.

Vou te contando o que vou descobrindo, ou seja, o que vou reparando e sentindo. Prometo, não me vou coibir. Entretanto, tem um bom ano. Vamos-nos vendo.

Abraços, beijos.

 

Ensaio, número dois

Antes de anoitecer abri a janela para sentir o vento. Nos cerca de doze segundos em que estive lá fora vi dois pássaros. Não eram nem gaivotas, nem pombos. Desejei ter em mim todas as palavras do mundo. Depois fechei a janela. Escrevi mais do relatório, e tive fome. Não me apeteceu sair, fiz umas papas de aveia com leite de amêndoa, e vi um episódio de Rick and Morty enquanto comia. Agora estou a escrever outra vez, e oiço sirenes lá fora. Tive amigos que cancelaram um jantar com medo de não conseguir voltar para a outra margem. Tenho a noite, o relatório e a tempestade por minha conta. As sirenes aumentam de volume. Olhei pela janela para ver se conseguia ver alguém na rua, porque pensei, quem é que estará na rua por esta , com estas condições? Estou num último andar com o telhado por cima e parece que o vento, a intensidade do vento está a ficar mais forte. Reparo que a persiana exterior da claraboia da sala já foi à vida. No meio disto tudo, tenho na minha cabeça uma música dos Big Thief. Va savoir.

Ensaio

Estou em minha casa a acabar um relatório. O vento bate com força contra as janelas e as paredes; sinto que estou no meio de uma violenta tempestade. Encomendei almoço e fiz café. Sentei-me no sofá a comer um shawarma de frango, que agora que penso bem no assunto foi sem dúvida pedida devido à influência inconsciente da série Russian Doll (vi três episódios ontem). Reparei que fiquei sem internet em casa, provavelmente devido ao mau tempo. É melhor assim, é da forma que me concentro mais. Este ano foi duro em prazos, mas o bom é que está a acabar.  Quando acabei de beber o café olhei pela janela, para a cidade: vi uma gaivota solitária a voar, sem aparentemente sofrer com a velocidade do vento, até que passou por cima de uma grua e entrou numa nuvem muito cinzenta e carregada. Nunca mais a vi. Agora estava a beber água e a descrever uma aula que dei em Novembro, quando me lembrei que não tinha dito nada aqui sobre o Natal e sobre o ano novo. Haverá muita coisa para dizer no próximo ano, mas vão ficar a saber disso a seu devido momento (como sempre, aliás). Agora espero que estejam bem, a fechar o vosso ano e a prepararem o vosso advento. Mal posso esperar pelo meu. Um Santo Natal, e até dois mil e vinte. Kiss.

 

Listening in the shower of saturday morning

Estou no chuveiro, e é sábado de manhã. Li algures que Tom Waits celebra hoje os seus setenta anos. Daqui a pouco vou a um casamento. Está um dia frio, mas com sol. O café soube bem, a água podia estar mais quente, mas o feeling é bom. Penso, enquanto a água corre, de que gostava de ouvir Tom Waits na manhã do dia do meu casamento, embalando com o meu coração antes da alegria de sábado à noite.

This place is full of warehouses

He’s thirty minutes earlier for the show. He thinks it’s wiser to eat something before; after all, he hasn’t dined yet. He parks the car in front of a social service office. Although it’s Sunday, he questions himself if he can do this, to stop the car in this place. He eventually shrugs and ditches the issue, and goes across the street to the craft beer shop. He enters the shop and counts two waiters standing next to the kitchen, a couple sitting at the bar, and three forty-something-year old people sitting at a table. He goes to the bar and asks for a stout beer and something to eat. The only food they have is pie, chicken or meat. He chooses chicken. He drinks the beer smoothly, he enjoys its round flavor. When the pie arrives he proceeds to eat it slowly. He takes note of the couple. The couple is arguing about her life. She wants out, out of her job, out of her house, out of here. She wants to go soul searching, and he, well, he thinks that the guy that’s with her is being too polite in answering, maybe because he wants to have something to do with her later on. Our man at the bar, drinking stout and eating pie just thinking, from the top of his laughable wisdom, that she should just go. Go, do something, and then come back, with or without the guy. But nobody is asking his opinion, and even if he said something nobody would care. He finishes eating, drinks the last sip of beer, pays and leaves. He thinks the pie was too expensive for what its quality. It’s now raining outside. He hasn’t got an umbrella, nor a hoodie. He puts his hands on the side-pockets of his jacket and thinks he’s a cowboy leaving the saloon, into the soaking rain. This place is full of warehouses, could be a western scenario, he says to himself. In more or less fifteen minutes he’ll be in one of the warehouses, in the concert hall, and the space will make him remember that concert hall in Chicago, next to the Mexican neighborhood, where he once saw his favorite all-time band. He will listen to the trio of women playing string instruments and singing their cute form of neo-country while joking about Tinder and dates in between songs. He will repeat in his mind the names of the instruments – bass, violin, cello – and he think that this, all of this is so fucking america, like all the references that he has in his head and in his heart. He fucking loves an idea of america that is made of these sounds, of these lyrics that talk about prairies, and ashes, and California. Then he will go next to his brother, sister-and-law and nephew, and they will all listen together to the show that brought them here in the first place, on a rainy Lisbon Sunday. And they will sing, they will laugh, they will jump, they will admire the passion and energy that the singer-songwriter puts into all those songs, and he will think that this love is not for the songs themselves, but for the characters of the songs, some real and some fake, all fucked up, but all alive, all very much alive, all alive in tones of e, g, and d, and played in two to three minute takes. Chorus are cathartic affairs, and this singer knows it all too well. It’s beautiful, and violent, or maybe violent because it’s so beautiful, or maybe beautiful because it’s so violent. Gee, I don’t know. I only know that he will leave the concert hall at the end of the show and go straight to his car, parked on the sidewalk, and he’ll spend the return trip trying to recite the lyric from that song that he didn’t know before, the one about calendars and Illinois.

Coisas bonitas

A meio do caminho imaginei uma história, de um homem que habitava por essa zona, na Pensão Elegante, ali no Largo da Oliveirinha – que, segundo o Google Maps, termina no Largo do Oliveirinha – junto à Travessa do Fala-só. O seu nome poderia ser Gustavo, um tipo sério e justo, mesmo que mais ou menos perdido. Gustavo passaria os dias ali, naquele trecho composto por casas em obras, lojas de mosaicos, hostels com nomes ordinários e uma mercearia. Trabalharia como advogado em casos pequenos mas recorrentes, e almoçaria e jantaria na Praça da Alegria, no café Brooklyn, onde passaria horas a ler romances em inglês sobre a América. Tomaria nota, num caderno que traria sempre consigo, no bolso interior do casaco, de todas as coisas bonitas que encontrasse, como os regadores azuis que estavam hoje colocados nas várias varandas do palácio. Coisas assim, simples.

Seminário

No caminho estavam dois sapatos de senhora. Vermelhos, género sabrinas, um pouco gastos e molhados, impecavelmente arrumados num canto de um lugar de estacionamento junto ao passeio. Lembrei-me do Feiticeiro de Oz: a que Bruxa ou a que Dorothy terão pertencido? Na terça-feira ainda por lá andavam, agora desarrumados, com o esquerdo no lugar do direito e o direito no lugar do esquerdo. Na quarta-feira já não, já não estavam por lá. Imaginei quem os tivesse calçado, que aventura é que estaria a viver, neste momento. Reparei também, no intervalo antes de ir dar a primeira aula do seminário, num pequeno globo encostado junto à janela do bar da faculdade. Vivemos num grande mundo, cheio de selvas e florestas, cheio de vidas e de histórias. Vimos uma ontem, no teatro, na sala estúdio, sobre o mundo do trabalho e os seus excessos. Era mais uma história de ideias do que uma história de pessoas, e nem sempre bem conseguida, mas o cenário – feito de papel de alumínio – era muito engraçado. Às vezes acendiam e desligavam as luzes e víamos as paredes com marcas e elevações, como se fossem montanhas ou pedras, ou até raízes (o que é irónico, tendo em conta o que se passa no fim da peça). A vida agora é um concerto de Beethoven tocado pela Royal Philarmonic Orchestra no leitor de vinis cá de casa. O sol entra pela janela, está um céu fabuloso, e há algum trabalho para acabar – entre os andamentos ouvem-se as teclas de dois computadores. Antes disto fui correr e apanhei com sol na cara. Estava a arder no fim da corrida, era possível que estivesse com a cara encarnada. Estreei os meus novos ténis de corrida, que, coincidência das coincidências, são vermelhos. São muito confortáveis.

You

eat the quinoa bread in the kitchen

and drink the lungo coffee

before doing the NYT’s daily crossword

in the living room

(how

intelectual-millennial

are you?)

and your heart dreams

you believe in her, in others, in life

you feel that, you say that, you smile, you hold the hand strongly and you

say go

and your heart dreams

you look at yourself

a dark image of yourself

reflected in the water

amongst the cars and the people and the rain

you think of green

and your heart dreams

you follow the cyclist

who has his backpack open

and is heroically fighting the wind while climbing

a very steep and wet street

and your heart dreams

you listen to Bruce Springsteen’s Thunderroad

heavenly sent through your cellphone’s shuffle

and played on your car’s stereo

you cry while you sing or

you sing while you cry

doesn’t matter

your heart

dreams

you arrive at the law school and

remember three times the structure of the class

you think about

all the legal things surrounding crypto-assets and tokens

and then you park the car

the sky opens slightly

it still rains

your remember you have

to pray

and your heart dreams

your heart dreams

your heart dreams

Notas soltas – Ann Arbor, 2018

Ao ler as cartas de Vonnegut lembrou-se da senhora da biblioteca que lhe disse que tinha conhecido o neto de Vonnegut que andava na faculdade onde ele se encontrava atualmente, em intercâmbio. Ao chegar à faculdade no dia seguinte cruzou-se com a senhora da biblioteca. Disse-lhe: Ontem lembrei-me de si, estive a ler umas cartas de Vonnegut. Ela levou as mãos ao peito e virou os olhos para cima, como se se estivesse a recordar nesse momento de uma velha mas potente paixão de liceu, e suspirou: Oh, Vonnegut, Vonnegut. Ele riu-se, e ela disse-lhe: Sabe, há algo que não lhe contei da outra vez, é que o neto era igual a ele. Fisicamente falando, era idêntico, uns anos mais novo, claro, mas tirando isso era a cara chapada do avô. E isso é que tornava tudo ainda mais impressionante, porque era como se estivesse o próprio Vonnegut à minha frente, e ele fosse um aluno, a requisitar um manual muito conhecido de fusões e aquisições. Ouvi dizer que agora está em Nova Iorque, a trabalhar no mundo financeiro. Consegue imaginar isso? E ele momento não vira os olhos mas imagina um neto de Kurt Vonnegut que é igual a Kurt Vonnegut e que estuda direito e que requisita manuais de fusões e aquisições e que depois vai para Nova Iorque e que hoje é um financeiro bem-sucedido e pensa que isso é uma história tão Vonnegutiana que o próprio Vonnegut podia ter escrito um livro sobre isso, sobre como ele Vonnegut se tornava no seu próprio neto e depois ia ser um financeiro para Nova Iorque. Ou so it goes.

A casa está fria e o café também. Sentei-me à secretária, escrevi a defesa para enviar à minha mãe. Depois deixei a cabeça pesar-me, bebi um copo com água, cantei uma canção dos Berrie para as paredes vazias. Há umas horas atrás, a caminho de casa da Ultra, voltei a passar pelo jardim da Estrela. Estava escuro e molhado. Queria demorar-me por lá, como fazia dantes, como fiz durante dias seguidos, incluindo um verão inteiro e dois outonos. Fiz muita coisa em muito pouco tempo no jardim da Estrela, e ele esteve sempre lá para mim (para nós). Como uma canção melodicamente animada mas funda como o raio, como o The Boy With the Arab Strap. Não dancei. Arrastei o passo, respirei fundo, deixei-me levar até à saída. Toquei no passeio com a mão. Vi uma folha a cair de uma árvore e a dar duas voltas inteiras no ar antes de tocar no chão. Lembrei-me de tudo quando abri o livro de Sophia, na página 31 da minha idade, e li, sob o título de “Promessa”: “Na clara paisagem essencial e pobre / Viverei segundo a lei da liberdade / Segundo a lei da exacta eternidade”.

Viagens

No metro, ele continua a ler o livro que começou no Verão, quando ainda nem sequer estava noivo – pelo menos do ponto de vista técnico-jurídico – numa das muitas e pequenas ilhas que existem na Indonésia. Há qualquer coisa que o agarrava nessa altura e que ainda o agarra às páginas já muito amarrotadas, que andaram por horas de voo e de espera. É o ritmo leve e profundo das narrativas, tão reais e humanas que podiam estar a acontecer à nossa frente. A dado momento ele olha para o lado, aproveitando um intervalo entre parágrafos, e repara – de forma inocente – que a mulher que está sentada ao seu lado escreve uma mensagem no telefone. O nome do destinatário parece-lhe começar por “S.”, como se fosse um santo. Ele fica com esta ideia, de que há pessoas que trocam mensagens com Santos, que lhes rezam por sms, ou algo do género. Se calhar está aí uma história. Ele sorri, e volta a pegar no livro. Falta uma página / estação para sair.

A sala está escura, salvo pelas minúsculas luzes verdes do modem, e dos pontos vermelhos da televisão e da aparelhagem. Há um barulho contínuo que vem de fora. Faz lembrar um motor de avião, uma brisa muito forte. Mas nada se mexe lá fora. Lá fora só existe o nevoeiro, que vai crescendo muito devagar. Já cobre todos os telhados; talvez chegue até à janela. Às vezes o nevoeiro fica muito claro, como se alguém que estivesse no seu interior ligasse de repente um holofote. Se calhar é impressão minha. Estou sentado na sala e está tudo parado, fixo no chão. E, ainda assim, apesar de toda a tranquilidade, há uma leve sensação de movimento. Mesmo que fraca, está presente, como quando se está numa passagem, dentro de um túnel,  ou num intervalo. Sabe-se que se veio de antes para chegar aqui, e que a seguir se vai para o depois. Mas primeiro, agora, agora há isto, uma pausa que é um espaço, uma espera bem definida e limitada, que por tão forte e certa que é sabe a caminho. É bom, é mesmo bom sentir o sabor do caminho.