Acordo cedo e carrego livros, abajures e quadros. Depois arrumo-os na estante, ainda sem grande nexo, pondo os Figueiredo Dias ao lado dos Barthes, os DeLillos entre Herberto Hélder e Bill Nichols,  e outras arrumações. É um exercício completo, para braços e pernas, carregar pilhas de páginas por muitos lances de escadas. Às vezes escrevo longos postais na cabeça, entre descidas; às vezes oiço na minha cabeça uma canção, como a soul-chill de Helado Negro.  Quando acabo tomo banho, faço a barba, arranjo-me como se já lá estivesse a viver – mas não será que já lá estou a viver? – e vou para o trabalho, via pequeno-almoço e igreja, porque continuo a ir rezar antes de ir para o escritório. Entro na Igreja e ajoelho-me e penso que talvez a maior liberdade que está ao nosso alcance seja mesmo a de poder amar. Sem mais, fecho os olhos, e fico em silêncio por uns instantes. O amor liga-me à saída e faz-me companhia até à porta. E eu sigo running running running running running running running running (just / like / tu).

O final da tarde demora a passar no sul dos Países Baixos. Por um segundo quase que acho que o lusco-fusco vai durar para sempre. Há uma serenidade engraçada por estes lados: muito verde, mas com muitas árvores. Há campos extensos e planos, mas são poucos. As estações de comboio são grandes e centrais. Pela janela do comboio vejo corredores ao lado de vacas e muitas casas com mesas e cadeiras nas traseiras. Apetece-me tirar notas, mas fico parado, a olhar apenas da janela do hotel para o canal, com as casas do outro lado e o céu rosa a escurecer, lentamente.

O prado – não o vale – costumava ser verde. Agora aloirou. Foi do sol, talvez. Não percebo bem como funcionam os fenómenos da natureza. Só sei que sim, que existem. Quando desço a rua de manhã e a subo de tarde fico muitas vezes parado a olhar para o prado. Vejo-o a mexer com o vento. Não é especialmente bonito, nem grande. Mas é qualquer coisa que vive. Gosto da certeza desta vida, a das árvores e das plantas. No outro dia estava de café na mão a caminho de uma instalação televisiva, quando encontrei um tipo na rua (não sei se era uma aparição, um anjo) que me disse que “as coisas estão lá, e vão continuar lá, e quando as coisas desaparecerem vão ser substituídas por outras coisas e a vida, bem, a vida é assim, e temos de relaxar”. Uma das minhas bandas preferidas tem uma canção cujo primeiro verso é “vem fazer um disco no mês de Maio”. Aconteceram muitas coisas neste mês de Maio. É a sina das coisas: acontecem, algumas ficam, e outras passam. É um movimento perpétuo, que apesar da sua dificuldade é muito bonito. O prado vai voltar a ser verde; talvez não esteja aqui, num gabinete de janela grande, quando for de novo o tempo, mas posso sempre lembrar-me quando me apetecer. Posso lembrar-me igualmente do céu branco-cinza e das nuvens branco-luz que por lá andavam, numa sexta-feira de meio de Maio, último dia de aulas de um semestre académico, e dia de crisma. Talvez o importante seja isso: confirmarmo-nos constantemente, perante todas as coisas, na verdade que nos foi dada, dia a dia, passo a passo. E, pelo meio, parar para ver as árvores e os prados, a sua serenidade imortal e o seu lento embalo, como quem diz: vem, vem fazer a vida, neste mês de Maio.