Meeting Adélia Prado

SENSORIAL

Obturação, é da amarela que eu ponho.

Pimenta e cravo,

mastigo à boa nua e me regalo.

Amor, tem que falar meu bem,

me dar caixa de música de presente,

conhecer vários tons pra uma palavra só.

Espírito, se for de Deus, eu adoro,

se for de homem, eu testo

com meus seis instrumentos.

Fico gostando ou perdôo.

Procuro sol, porque sou bicho do corpo.

Sombra terei depois, a mais fria.

in Tudo o Que Existe Louvará (Assírio e Alvim, 2016)

Babysitting

O truque que arranjei para que adormecessem sem chorar foi ficar ali, no canto da cama do mais velho, deitado e de cabeça para cima, a cantar canções de campos de férias que, para ser sincero, nem me lembrava que ainda sabia, enquanto eles respiravam de forma fungosa e adoentada, libertando com alguma probabilidade uma quantidade simpática de germes para o ar que partilhávamos, e quando me calei reparei que a do meio ainda estava com os olhos abertos e portanto decidi manter-me ali, a fingir que estava a adormecer para que eles adormecessem, e sem que desse por ela estava mas era a cair no sono, e no sono o que via era o caminho de carro até ao Inatel, a Lisboa residencial e nocturna de sábado à noite em pleno outono, a ouvir o meu último disco porque ando a ficar com vontade de fazer um novo e de dar concertos, mas agora já saí do quarto e vim para a sala, onde também devem existir alguns germes, e está tudo muito calado e silencioso, e estou caído no sofá, numa posição que é um misto de deitado e sentado, típico de quem se anda a borrifar já desde há algum tempo para a postura, físico, e alimentação, mas que sabe que a partir da próxima semana vai voltar a ter muito tempo para se preocupar com tudo isso e mais a tese, e é engraçado, quando me sentei-deitei-caí-a-porra estava com uma canção daquele magnífico disco do Co$tanza na cabeça chamado Linha Verde (não sei se era o Areeiro se era o Campo Grande) e agora não tenho nenhum som na cabeça, um autêntico nada, uma daquelas caixas que o Luís ontem contou que os homens tinham na cabeça, caixas para tudo e uma caixa para nada, e eu concordo muito com isso porque acho que sou muito assim, uma cabeça cheia com um conglomerado de caixas mais ou menos arrumadas, e agora vou fechar umas e abrir outras, e ter cuidado ao abrir essas outras porque há caixas que são prioritárias e outras que não, que são só necessárias, como escrever, passear, ouvir e fazer discos, e agora vou fechar os olhos e ficar no nada deste sofá branco antes de ir à cozinha deles ver o que há para comer. Entretanto, fui ver, e a canção que tinha na cabeça era o Roma. Tem muito que ver com a zona a que diz respeito – muito espacial, cinematográfica. Grande, grande disco. Já ouviram?

Sentir, falar, escrever

Às seis da tarde de ontem a minha rua cheirava a Outono. Alguém deve ter acendido uma lareira, ou queimado lenha. Não há cheiro mais aconchegante que o cheiro a Outono. Às onze e meia da manhã de hoje tocava o Nem Lhe Tocava do Samuel Úria (canção) numa loja de sapatos desportivos do Chiado. Não há canção que me faça sentir mais do Chiado do que esta. Às onze da noite de quinta-feira estava sentado no banco junto à junta de freguesia da Rua da Lapa, a apreciar o silêncio do bairro. Não há silêncio urbano como o silêncio da Lapa. Às onze da manhã de hoje fiquei a saber que morreu Robert Forster, o actor que fez um icónico papel no melhor Tarantino de todos, Jacky Brown. Mesmo quando os filmes de Tarantino são só exercícios de estilo mais ou menos vagos (como este último, Era uma Vez em Hollywood) podemos sempre contar com grandes interpretações de actores que nos surpreendem. Às cinco da tarde de ontem ouvi o novo disco dos Big Thief, que é cru, sentido e parece saído do osso, absolutamente magnífico e libertador. Às duas da tarde de quinta-feira entrei num restaurante e encontrei o Chris, e resolvemos almoçar juntos, ele a comer um hamburguer com pimento acompanhado de batatas fritas e eu a comer um prego de novilho acompanhado de salada. Disse ao Chris que não nasci para ser advogado, mas para ser um drifter (segundo o Merriam-Webster, alguém que drifts, que se move, por diferentes sítios e lugares). Depois mordi o prego, e sem querer levei dois terços comigo para fora do pão e tive de fazer um esforço para conseguir cortar, com os dentes, só uma porção, deixando cair o restante no prato, de volta para o pão. Foi uma situação desajeitada e humana, ligeiramente cómica, típica minha. There you are: drifting, disse o Chris. Às cinco da tarde de ontem lembrei-me de um sorriso que a Carol faz, entre os muitos que tem, quando está muito contente e divertida, em que de forma muito leve e suave, mas igualmente assertiva estica de repente os lábios para os lados e fecha um bocadinho-nico de nada os olhos. É uma ação muito precisa e repentina, e completamente desarmante. Coisa boa.

Olga! Olga!

“SPEAK! SPEAK!

Inside and out, to oneself and to others, narrating every situation, naming every state; search for words, try them on, that shoe that will magically transform Cinderella into a princess. Move words around like the chips you place on numbers in roulette. Perhaps this will be the time? Perhaps we’ll win this one?

Speak, grab people’s sleeves, have them sit down across from us and listen. Then turn yourself into the listener for their ‘speak, speak’. Hasn’t it been said that I speak, therefore I am? One speaks, therefore one is?

Use all possible means for this, metaphors, parables, wavers, unfinished sentences; don’t be put off by the sentence breaking off halfway through, as though past the verb where suddendly yawned an abyss.

Do not leave any unexplained, unnarrated situations, any closed doors: kick them down with a curse, even the ones that lead to embarassing and shameful hallways you would prefer to Forget. Don’t be ashamed of any fall, of any sin. The narrated sin will be forgiven. The narrated life, saved. Is it not this that Saints Sigismund, Charles and James have taught us? He who has not mastered the art of speaking shall remain forever caught in a trap.”

Olga Tokarczuk, Fligths (trans. Jennifer Croft ), Fitzcarraldo, 2017, pp. 183-184.

Coisas que interessam

Há cerca de quatro anos e meio, uma banda inglesa chamada Happyness lançou o seu primeiro disco, chamado Weird Little Birthday. É um dos melhores álbuns de indie-rock da era pós-Pavement – referências à pele, sem vergonha, com atitude e humor. Há quatro meses e meio, um dos antigos membros dos Happyness (agora com o nome Jelly Boy) lançou um EP chamado Everybody is a Universe. Não sendo tão bom como a banda original, é umas das melhores coisas de indie-rock que apareceu este ano. Vale a pena ouvir.

Seattle (eternal never)

despedi-me na esquina

e depois subi a rua

olhei para baixo

acusei o tempo

estava cansado, e

ligeiramente vazio

olhei para o lado

no mural das obras estava escrito

a caneta preta de feltro

E TERNAL

N EVER

tirei uma fotografia

continuei o caminho

prometi a mim mesmo

que um dia vou conquistar

Seattle

uma palavra

de cada vez

 

Uma viagem a Leiria

Boombox e Federrer decidem ir a Leiria. Está uma manhã cinzenta, é o primeiro dia de Outubro. Nenhum deles alguma vez lá esteve: não sabem se é real, se existe mesmo. Mas é preciso ir a Leiria, ou à ideia do que é Leiria, e eles têm tempo, e por isso vão. Tarantinas também gostava de ir, mas ficou-se por Lisboa, a escrever emails e a fazer chamadas. Tarantinas já foi a Leiria, uma vez. Tem boas lojas de livros em segunda mão, tem um castelo, um estádio, e até um museu da imagem em movimento. O hospital é amarelo, e o céu, pelo menos dessa vez, estava sempre cinzento. Tarantinas está sentado à secretária, a martelar no teclado e a ler pareceres jurídicos, e a pensar como estará a ser a viagem de Boombox e Federrer a Leiria. Que música é que ouvem, que comentários é que fazem. São ambos loucos, tal como Tarantinas e os restantes amigos do chamado Grupo Mágico. Tarantinas acha que Boombox, que vai a conduzir, tem uma carrinha, uma daquelas Peugeot cinzentas do início dos anos zero, mas não tem a certeza. É uma viagem que podia dar um filme, uma série, um livro existencialista – Tarantinas gostaria de fazer qualquer um deles, se pudesse. Mas não, hoje (ainda) não. Hoje Tarantinas tem de falar a notários e registos, tem de escrever notas, tem de acabar introduções. Um dia talvez Tarantinas diga o que se passou ou poderia ter passado em Leiria, naquele dia um de Outubro, de como Boombox e Federrer foram em busca de um membro da espécie dos Embaixadores, uma gente misteriosa, dotada de um qualquer poder estranho. Mas não hoje. Hoje, Tarantinas trabalha e vai comer arroz com primos africanos, reparando, no regresso – na saída do metro da Baixa Chiado – num homem de t-shirt branca e casaco de fato azul, especado com um ramo de flores junto a uma das entradas para a linha Azul, esperando (nervosamente) que a sua história, qualquer que esta seja, comece.

O sol a nascer, na janela, e o final da tarde a existir, também na janela. O sabor leve das bochechas da Carol, especialmente depois de uma manhã ao sol. A canção “Samurai” de Djavan. A invencível esperança de um épico Springsteeneano. A admirável técnica de um solo de guitarra elétrica de José Esfola. Uma sesta ao almoço. O aperto de umas calças de fato que indiciam uma ruptura iminente (e a consequente necessidade de uma dieta). A frase / título / expressão (risquem, risquem o que quiserem) “BETWEEN, ALWAYS”, de Rosmarie Waldrop. As figuras de Di Caprio e Brad Pitt na morna mas engraçada carta de Tarantino a Los Angeles. A palmeira que se balança, à frente do estendal, em frente à janela. Esta fase, de alegrias, de fins, de regressos. A vontade de escrever, ENTRE, SEMPRE, tudo.

Estamos num táxi, a descer para o sul de Lombok. A Carol pergunta-me se eu não tenho sono e eu digo que não, não tenho. Mas tenho qualquer coisa, aquela atenção descontraída que uma viagem de carro proporciona. Lá fora a estrada, e nela as cidades, as pessoas, os cheiros – a vida. Quando de repente vejo a palavra “amor” escrita numa parede e junto-a, num rápido e inconsciente exercício mental, às outras duas palavras que tinha visto ontem – “punk” e “soul” – sei que a combinação é certeira, e que estou dentro de um postal. Gosto muito de postais, em especial dos que estão em movimento. Vejo um homem num fato-de-macaco cor de laranja berrante; dois minutos depois vejo um carro cor-de-rosa choque a ir na direcção contrária. Que encontro cromático terá acontecido? Um cartaz de um sítio que parece, assim de repente, um restaurante (ou serei eu que quero que seja um restaurante?) diz: “Anda Lapar”. Perco a conta às mesquitas por onde passamos, construídas e em construção. Gosto de mesquitas, das suas torres, das suas cúpulas – aqui são muito redondas, com tons marítimos (verdes, azuis). Os warungs começam a encher, com pessoas a sentarem-se e os donos a cozinhar peixe grelhado. Os indonésios são mestres na arte de sentar. Tenho de perguntar como se chamam as cabanas onde eles se sentam na estrada, junto às casas e em frente às praias. Penso em perguntar ao taxista, mas fico apenas a olhar para as costas dele. O taxista tem um movimento que repete a cada cinco minutos, de abanar a cabeça, primeiro para a esquerda e depois para a direita. Falámos um pouco no início; foi o primeiro tipo na Indonésia que, ao saber que éramos portugueses, não respondeu “Cristiano Ronaldo”. Limitou-se a afirmar que vimos de longe. Há momentos em que quero que ele me pergunte alguma coisa, que faça conversa. Do género, o que é que fazes? Diria: sou uma fraude que gosta de existir, sou um advogado que gosta de escrever, um académico que gosta da vida e do seu movimento. Um maluco que fixa realidades aleatórias que vê da janela do carro, como uma rede de badminton, um sinal que diz “federal oil”, um grupo de putos juntos à parede da escola com ar de quem está PPP – Prestes a Pregar uma Partida. Um respigador, como Agnès Varda, mas encapotado. Engraçado: a Carol reparou hoje, no hotel, no nome Varda, em letras douradas, fixas na parede, apontando para cima. Se calhar era o destino, ter este Varda feeling, hoje. Li no maravilhoso Flights, da Olga Tokarczuk (um óptimo livro, feito de belíssimos postais) que o desejo, por si só, apenas indica uma direção, um movimento. O resto é um mistério. Desliguei a dado momento da viagem e deixei de recolher imagens, para passar apenas a apreciar os montes do sul de Lombok, uma serra de Monchique versão hemisfério-sul. Quando chegámos ao hotel, olhei para a porta e reparei no nome da marca da pega de ferro. Sabem qual era? “Belleza”.

Instruções (do melhor livro de viagens)

INSTRUCTIONS

I dreamed I was leafing through an American magazine with photographs of ponds and pools. I saw everything detail by detail. The letters A, B and C described precisely every component part of the plans and outlines. I eagerly began reading an article entitled: ‘How to Build an Ocean: Instructions’.

Olga Tokarczuk, Flights (translated by Jennifer Croft), 2017

I’m again having a shower in another open-air bathroom in Indonesia, this time located in a budget bungalow in Nusa Penida island. The water is cold, but ok. I look at the sky. The tone is pink, post-sunset pink. I often remember, when I see the sky like this, the song Pink Rabbits. It’s a slow-burn song, very light, like the sky now. It makes me feel like writing, taking notes, put down pen to paper, make lists, annotate dreams and ideas. There’s something about being able to bath under the sky without any kind of man-made intermediation, like a window, or a roof, or a ceiling: it feels better, more divine than usual.

Balinese postcard (number two)

When we arrived they were still in the same place: sitting in the front porch, drinking a glass of wine. I noticed that the wine had become red since lunch. It was now 11 pm, and we had just arrived from dinner in this spot called The Loft, that served nice hummus and a reasonable margarita, and played Talking Head’s song This Must be the Place twice. There was a latino party on the other side of the road, in a joint called The Hatch. Upon seeing the couple we thought to ourselves that they had spent all day in the villa, moving back and forth between the swimming pool and their bungalow, that is the same size as ours (meaning: the size of your parent’s bedroom, with a typical balinese – did I ever mention that to you? – open-air bathroom). They were old, his back already a bit curved, and she was very fat in the belly but had thin legs (Carol said she had a “fridge-woman” body type). They were German. I couldn’t see him clearly at night, he seemed to be sitting behind her. We entered our bungalow and proceeded with the pre-sleeping rituals of cleaning and being. While I was doing my routine social media checking, a routine that was alarmingly growing day by day, I heard them speak. He had a loud, grave voice, while hers was mature and elegant. They laughed – my German is not even close to good, but I felt that he had told a joke. They seemed sweet, for I remember this morning that he went to the swimming pool while we were starting to eat breakfast in our front porch and she followed suit when I started drinking coffee, which I always save for last, and when she arrived at the pool she kissed him in his forehead. Carol and I wondered why on earth would a German couple come to Bali to spend some days in a comfortable but small villa with shitty wi-fi. I remembered that Le Carré line that says that people talk better when there is a view. Maybe that’s it: maybe they like this view. Or maybe there’s another reason. In the end, you can never tell. People will always be one step ahead of you in what respects their own reasons and feelings.

Balinese postcard

I’m having a shower in the evening. Local people were outside, in their compounds, celebrating Kunningan. During the day I couldn’t help but feel some sort of special energy around. We ate Korean and had a massage in Ubud. We then dined at the hut, some fried stuff with egg and vegetables, and she was in the room, and tomorrow we would climb a mountain during dawn and get extremely tired and even wounded, but at the same time witness the most beautiful sunrise of our lives. But now – in the present – I’m in the bathroom. The bathroom is typical of these balinese guest houses, meaning: the ceiling is open. Below the opening there’s a plant, not very exotic but nicely trimmed and proportional to the rest of the elements in this space: the toilet, the mirror and lavatory, and the bath. The bath is made of small, sea blue coloured tiles. I’m showering and listening to a prayer projected into the forest by some very loud speakers. Occasionally I hear this sound, that I cannot connect to any existing reality, in the middle of the prayer and the insects around the hut. I wonder if it is the sound of a rare insect, a finger-sized balinese mosquito; I wonder if it comes from the palm tree leaves hitting one another with the wind; I wonder if it is just some degree of technical interference coming from the speakers. Meanwhile the water runs hot and is sufficiently pressurized. When it stops I can understand that the unknown sound is a feminim voice, a contra-projection (a contra-prayer?) coming from another direction. Suddendly it starts rainning. Rain drops hit the leafs of the bathroom plant, in a light but regular manner. I’ve heard modern music concerts that were simpler than this sound mix that arrives to the bathroom. I’m standing still in the bath, wet, listening to it all when I look around and notice that there is a small clay turtle in the lower shelve of the lavatory. I wonder if it has any meaning, if it symbolizes anything – a hindu god, a reincarnated person, some sort of natural power of protection or grace – just like the prayers and the sounds and the plants symbolize something. Notwithstanding all the theological possibilities, I think all of this represents the irresistible complexity of the present and its indomitable power, the invisible soul that you can only feel in these weird, mundane moments when, strangely enough, you are closer to life than you can imagine. I stay like this, not exactly relinquishing (that’s not at all the word) but rather being, with the least possible effort, in this state of affairs, respecting the essence of this time and this space, of the discourse that is being reproduced here, before reaching for the towel. At the towel’s first contact with my back’s skin I feel that, for all that it is, it is a warm night, here in the hut.

I let the night fall and the episode end. Before moving to the other, I pause, and go get a small cup of coffee. One of my sisters in law gave me these Japanese cups. The lights are off, three windows partially open. It’s silent. I like this silence. I go to the terrace and look at the city. The lights, the river. It’s a clear sky, I can see some stars. Today I felt like a tourist. I wore a backpack, had tacos for lunch, drank coffee while walking, and stopped in some shoppings. Then I came back home to honor the rest of my Sunday. I studied a bit. I cooked a veggie meal while listening to Purple Mountains. Now I just look into the city and I feel serene. It’s a bit windy, but hey, it’s good. I think that there are a lot of things going on in our lives, and the best thing to do is to live them one by one, fully. It’s fucking hard, yes. But it’s somewhat right, and fair. There’s this beautiful song by Samuel Úria called Nem Lhe Tocava – it’s the opener of the record with the same name. The chorus goes something like this – if it were easy, I wouldn’t do it; if it were hard, I wouldn’t even touch it. I think a lot about that song in these moments. It hits the spot, perfectly. Then I felt like writing, and now I’m going to enjoy the silence. I’ll probably finish episode 4, too. And then maybe read, and then sleep. Tomorrow’s a new week. Coming on.

Notes to my American self

Dear self:

Yesterday I went for a run in the afternoon. I descended the stairs until I reached the back of the train station, and then stopped next to that bio-healthy-green supermarket in the corner. I bought a good bread there the other day, made from spelt flour, although I think that its over-healthy characteristics are disrupting my biological rhythm (i.e. my guts). Anyhow, I decided to start there: I turned the music on, and ran. I passed through the street of the old Grémio lisbonense in order to avoid the tourists at Rua Augusta. When I reached the end of the street I turned left and then right, passing below the arch of Praça do Comércio, and then going on the direction of the sea. I was running on a good pace, reaching an average of 5,33 minutes per kilometer. Then I passed Cais do Sodré, and I started to wonder a bit, thinking about that German show on Netflix that I watched while on the plane to London, where kids time-travel and everyone has a secret and sleeps or hates / loves another person to death. Germans are good at being complicated, they have a strange capacity to hold a lot of emotions inside. Then I thought that I’m feeling exhausted on the inside, and that I probably enjoy living in this kind of tension where I’m doing a lot of things and feel that I’m crazy. Being in this place, and then in that place, teaching and lawyering and writing, and then running. The Boss sings into my hears that “Everybody has a hungry heart”, and I think that says it all. I remembered listening to Darnielle the other day, singing with Colbert that epic anthem of “I’m gonna make it through this year, if it kills me”, and laughing inside. I was now returning to Praça de Comércio, going the whole way back until reaching the Grémio and arriving at Rossio, where I stopped. I climbed the stairs and passed by the restaurants full of tourists drinking large glasses of beer and covered with blankets. I was sweating, in the middle of the immense movement of people climbing and descending stairs, speaking I don’t know how many languages, thinking that I could join them and just sit in one of these tables, like a tourist, but one that lives in the neighborhood. Later on I went to Marvila to have a birthday drink with a birthday friend (and other friends). The Uber dropped me in front of an evangelical church; I found it funny, since my birthday friend’s father is an evangelical pastor. The birthday bar was across the street, in this cool place that was not very evangelical. I then drank and talked with people and came back home early and fell asleep in the couch. I thought, before closing my eyes, that you never know how good a couch is until you sleep in it. I woke three hours later, got up and went to bed, but it’s fine. I felt good. It’s a very good couch. Like the Purple Mountains’ record that I’m currently listening to is a very good record. Like life, its hopes, and perspectives, are good. But I have to tell you, dear self: I can’t wait to go on holidays and lay myself in a south Asian beach with Ultra by my side and just drink Margaritas and read Proust. Or something similar.

Notes to my American self

– I’ve been noticing that lately I’ve been surrounded by Americans everywhere I go. American clients, American doctrine, American tv shows, American bands, American neighbors, American tourists, American colleagues. I miss America, or my memory of it, sometimes.

– I re-started reading Ali Smith’s “Autumn”, almost a year since my first start. I’m enjoying it so far. It’s full of puns. There’s an amazing one saying that “this is not fiction, this is the Post Office”.

– I’ve been thinking of starting a podcast named Um Cowboy no Chiado, where I speak for about 10 to 20 minutes about rock and roll and life in general, sometimes in English and sometimes in Portuguese. It’s the seventh podcast idea I’ve had this year, so far.

– I woke up late and felt tired. The house was fresh in the morning. A friend told me to put cds on the roof to hold away the seagulls. I think it worked, and I’ve felt an urge of staying home listening to cds, like I did when I was a teenager.

– Today I told the same joke twice; it’s that joke that Alvy Singer tells in the end of Annie Hall, of the wife that thinks she’s a chicken and the husband goes to the doctor and the doctor says that there’s a cure but the husband doesn’t want the cure because he really needs the eggs. The first time was after breakfast (I told it in a conversation with the friend that told me to use cds against seagulls) and the second time was right after lunch. I kept thinking in the afternoon if there would be a third time, but there never was.

– Elizabeth is already seven months pregnant and it still seems that it was yesterday that she told me that she was going to have a baby. This has been an intense year, but I suddenly realized that we are already in its second half. That’s good: there’s so much good to come in this second half.

– I had this idea of writing a novela about spending July at home, writing a dissertation, with a terrible heat looming over the city. I’ve been feeling an urge to write auto-biographical fiction, lately. Strangely enough, it has helped me focus on the dissertation.

– I saw Agostinho today – I told him and Elizabeth the egg joke after lunch. In the afternoon I had to write many times the name Agostinho, referring to different Portuguese parishes. It’s amazing how many of them exist.

– Ultra spoke about dreams this morning. In the afternoon I think I heard a street singer yelling some Cranberries, and I thought almost immediately about that moment in Chungking Express with the Chinese version of Dreams playing. I have to watch that movie with Ultra.

– Last weekend in London I had this idea for a song. It is still in my head and it’s called Sacro Beat. I imagine it as a pop-hit in the mould of Swedish indie-pop like Jens Lekman and I’m From Barcelona. God knows when I’ll have time for it.

– I saw these two guys on the subway when I was returning from London, two skinny university looking guys that had slacker written all over them. One of them referred to the other as being the Açoriano. In my mind they were Brat Boy and the Açoriano, and I thought I should write a story about them.

– I saw one episode of Rick and Morty and I laughed. I saw the first episode of Ozark and wasn’t into it. I didn’t like the first episode of the OA. I want to see more of that Tim Robinson comic show. I subscribed HBO. I started watching Chernobyl, although i honestly don’t have much time to watch tv.

– At dinner today my mom my younger brother and me discussed the political crisis of the Portuguese right and the post-post-modern problem of social interaction in the age of social media. Then we drank this orange liquor that was amazingly transparent. My nephews were sleeping the whole time.

– I really like when Ultra smiles; it’s the moment when I feel that my existence and that of the world make totally utter sense.

– I though of writing this political essay were I discuss many important issues about the state of the country that often occupy me when I’m walking. But instead I wrote a memo for the dissertation, concerning the concept of “liminal legality” that I read today in Kilpatrick’s working paper.

– Sometimes I feel this is small. Sometimes I feel this is cool. Most of the time I feel like living. I trust.

– I don’t know why I came back to Twitter. I should be doing something, like writing, podcasting, recording. I should run more and sleep. I should eat less saturated fat. I think I’m doing fine.

– I really like this song:

Caro diário,

Estou de pé na cozinha a fazer o jantar. Lá fora o céu está a morrer lentamente. Vou vendo o espetáculo em cada janela. A luz que primeiro é clara, e depois rosa, e depois lilás, caindo sobre os telhados. Entretanto tenho duas gaivotas bebés a viver (e a defecar) no terraço. A mãe está no cimo da coluna, a vigiar (não sei se volta e meia não defeca, também). Olhamo-nos olhos nos olhos. Penso nesse momento que tenho um poster do Psycho na sala, mas que a vida resolveu passar-me outro clássico do Hitchcock por estes dias. Continuo a cozinhar, e vou bebendo uma cerveja. Tenho os músculos cansados de carregar sacos cheios de papelada, fotografias e artefactos vários por cinco andares. Agora apetece-me o atrofio de um sofá e o sabor da cevada fresca. Enquanto o arroz cozinha vou ouvindo o som do vinil que vem da sala da televisão. Phosphorescent canta “Sun a-rising / Ease, easy oh”. É uma boa canção para se ouvir. A Ultra está em Londres a preparar as aulas que vai dar nestas próximas semanas. Vou mandar-lhe a música para ela juntar à sua lista de canções para ouvir no metro ou nas ruas, nessas streets of London. Entretanto já estreou a terceira temporada de Stranger Things, mas ainda não é hoje que vou estrear o Netflix nesta casa (pequena adenda de segunda-feira: entretanto já estreei. Do que vi, está óptimo; El continua badass, a música está melhor do que nunca e a dupla Henderson / Harrington está em altas). Vou (de volta a Domingo) ficar apenas no sofá, a ler, a beber, a tirar notas, a estar, a trocar olhares com a mãe-gaivota. Li de manhã uma entrevista do Jim Jarmusch ao Guardian e pensei que os americanos têm uma ótima palavra para descrever desorientação: drifting. O Domingo é um óptimo dia para drifting. E para preparar bem a entrada na semana. Sublinho o texto de Tolentino: “Esta vida que se quantifica e mede, mas permanece indecifrável”. E depois vou dormir (e já agora, o João Gilberto? Adorava a voz dele. Ainda adoro. Saudades.)