Lara

Reparei nela numa pausa entre dois parágrafos. Ao início achei que era uma criança, com não mais do que seis anos, que tinha descoberto como chegar ao telhado das casas de baixo, e que já tinha um nível de maturidade tal para se saber sentar, muito parada, e apreciar a espera. Depois é que me apercebi que era uma senhora, com sessenta e poucos anos. Vestia calças brancas e uma camisola azul-clara, o cabelo grisalho aos caracóis. Estava sentada de costas para nós, a olhar para o movimento das árvores, para a ponta da arriba algarvia, para o mar, para o céu, para qualquer coisa que teria dentro de si, ou então só para o tempo. Era final de tarde, pouco depois das sete, e o vento fazia as plantas e árvores mexerem-se lentamente, numa elegância muito calma. O sol ainda vivo, o céu ainda azul. Esqueci-me da ideia que tinha e fiquei a olhar para o grande pinheiro despido que está à minha frente. Acho que é um pinheiro; para ser sincero, não tenho a certeza se é um pinheiro, mas diria que sim, pelas folhas pontiagudas. Sempre ouvi dizer que é engraçado um escritor não saber o nome das árvores. Mas se calhar não sou um escritor, e sim alguém que se fica apenas pelo espetáculo do que vê, do que sente e do que sabe, sentado na sua cadeira, acabando uma tese de doutoramento, enquanto o mundo passa e me cumprimenta, com todo o seu sereno esplendor.

Verão

Todas as viagens são sonhos. A linguagem moderna chama-lhes “escaparates” (nas piores versões, “escapadinhas”), mas acho isso uma forma demasiado redutora (e degradante e ridícula) para descrever o que é viajar. Prefiro muito mais a palavra “passeio”: captura de forma correta o ato e deixa em aberto o mistério fabuloso que é descobrir, viver. O Verão é o tempo das viagens, mas uma viagem não se esgota no Verão: transcende-o, dobra-o, doma-o como a um cordeiro. E uma lua-de-mel? É a viagem das viagens, o sonho dos sonhos; a primeira vez que se passeia (que se vive e que se descobre) num estado novo, transformado e profundo, em duplo corpo: quatro olhos, quatro mãos, dois corações, dois sorrisos. A dado momento pensei que ia deixar-me ir, mas depois comecei a tomar notas no meu caderno vermelho, sobre coisas soltas que os dias traziam, desde imagens a pormenores engraçados. Por exemplo, na Ribeira Grande apanhámos, na missa de domingo, uma profissão de fé, em que o aleluia era uma versão da canção com o mesmo título de Leonard Cohen. No Boca de Cena, em Ponta Delgada, comemos o melhor atum do mundo. No nosso hotel na Lagoa, o cheiro a mar entrava-nos pelo quarto adentro. Mas deixei de escrever quando ainda estávamos em São Miguel, muito antes de subirmos ao Pico, de comermos na Taberna do Canal, de vermos uma cachalote irromper no meio do azul do oceano atlântico, ou de sermos confrontados com o cenário divino que é a Serra do Topo, em S. Jorge, no início do caminho para a Caldeira do Santo Cristo, e de provarmos o delicioso café DIY dos Nunes, na Fajã dos Vimes. Por isso não vou estar aqui com coisas, apenas com factos, e alguns sentimentos. Porque numa viagem parte-se para longe, e como não amar a distância e a sua oportunidade com quem mais amamos? A Carol é a melhor companheira de vida, porque para além de ser a mulher mais bonita do mundo, gosta de aventura, mesmo quando não sabe que se meteu numa (sobretudo, quando disse que sim a uma proposta canónico-jurídica que lhe enderecei). Vive as coisas com a verdade que elas têm, com o sentimento que pedem. E os Açores são o paraíso do sentimento (e da beleza, e da comida, e do descanso…). Mil respeitos para quem prefere Maldivas, mas aquele nosso bonito arquipélago é o céu na terra, e vivemo-lo para lá de bem. Passámos por umas histórias muito boas – se forem descer o Pico, tenham um bom vinho branco (duas garrafas, dependendo da forma física pré-subida) à vossa espera, porque dá jeito – e vivemos mais do que podíamos pedir. Podia descrever, mas isso são factos, e prefiro focar-me no passeio. Agora, começa o Verão, e este Verão é para trabalhar. “Tem de ser / tem de ser”. Há sol, há mar, há ler e estudar (a minha poesia anda pelas ruas da amargura, mas prometo que é só até acabar a tese). No meio do silêncio a que nos votamos, fiquem com uma listinha de canções de vinte vinte e um (com um ou outro intruso) para entreter nos momentos de passeio – ou de “escape”. Kudos mil, e beijos deste vosso “cachalô”.

Algumas linhas

É engraçado como, pensando bem, o argumento de Jean Cohen sobre soberania e globalização a partir do pluralismo sabe a pouco. Mas agora vamos começar a preparar um euro digital, por isso… preciso de um livro. Tenho três, e a Carolina dois. Mas apesar de cinco ser um número bom, penso se não devia haver mais um, só para o caso. Há quem leia nas férias o policial do airbnb onde está hospedado – lembro-me de um tempo em que avaliava airbnbs com base nos livros e filmes que por lá encontrava. Parece-me uma boa ideia: ler, explorar. Estamos a fazer as malas, levamos máquina fotográfica e sapatos para caminhar. Queria fazer uma lista de canções, mas não fiz nenhuma lista de canções. Teria Bruno Pernadas, João Bosch, 2nd Grade, Chai, Hand Habits, e… o Jacinto faz anos hoje, relembrando-nos mais uma vez que a juventude não é uma idade e sim um estatuto, um modo de vida. Cantemos, então.

O primeiro mês

Quando acordei, no dia seguinte, era domingo e o quarto estava frio. O chamado oeste português tem esta mania de começar nublado, e de ir abrindo aos poucos. O primeiro mês começou assim, num hotel no oeste, com uma aliança no dedo e um cinto esquecido em Lisboa, para mal das minhas calças. Dediquei-me então à engorda, que acho que é uma dedicação típica e razoável para os primeiros tempos de matrimónio. Passaram-se trinta dias, com muitos exames, muitos testes, alguns almoços, a primeira temporada do Pose, um passeio por Monsanto, um capítulo de tese, um campeonato da Europa, e uma nova sobrinha. Ainda preciso de usar cinto, mas já estou mais compostinho, pronto para a lua-de-mel que aí vem. A Carol sonha com caminhos e passeios, com cascatas e verde. A mim apetece-me o mar, as poças e os mergulhos. Temos muita sorte: ontem celebrámos um mês do melhor dia das nossas vidas e voltámos a sentir isso. Agora apetece-nos a distância, o tempo, e o espaço de um arquipélago. Estamos contentes, tal como no dia seguinte, ou no dia anterior, ou no primeiro dia em que nos sentámos num balcão lisboeta a desfrutar um do outro. Com a Carol é tudo bom, tudo certo, tudo forte, como as melhores canções indie-rock. Fiquem com esta, uma preferida dos últimos tempos. Prometo dar-vos mais, em breve. Até já.

Plácidos Domingos (fim / início)

A dado momento houve uma partida. Não foi imediata, mas progressiva: uma primeira saída para ir colocando os móveis, uma segunda para ir arrumar as caixas, voltando aqui e ali para ver como é que as coisas estavam neste canto, como é que me estava a aguentar, o que estava a fazer (se os discos estavam bem arrumados, essas coisas). Até que, recentemente, olhei à volta e apercebi-me que a despedida tinha acontecido, que o Martinho – ou um tempo, espaço do Martinho – tinha saído. É engraçado, porque já nem me lembro bem dele. Não é muito diferente de mim; aliás, é bastante parecido, na falta de jeito, na falta de pudor, no humor, no gosto por croissants brioche… Mas era um Martinho que foi. Que já era, que já não é. Que já não sou. É estranho, é engraçado (para mim, são duas palavras com sentidos muito semelhantes). Mas ontem reparei nisso. Não houve dor, nem houve chatice com a partida. Foi tudo muito normal, muito leve, muito certo. E sucedeu: aconteceu. Não houve um momento, um jantar ou um evento qualquer. Clássico Martinho, saindo à socapa, com dois ou três adeus e um piscar de olhos. Às vezes ainda o vejo, quando passeio sozinho na rua, ou ando de carro à noite; o mesmo Martinho que se apaixona com as luzes da Avenida de Roma, com paisagens amplas e abertas, que podia ficar horas sentado a ver o mar ou a passear por ruas estrangeiras, e que adora guiar. O mesmo Martinho que gosta de agarrar as pessoas e de as sentir, que adora ideias e imagens e canções tanto como gosta de mãos, de pedras, da terra nos dedos. Que torna tudo uma história, uma estrutura, uma lógica, nem sempre linear. Às vezes, no banco de trás do carro, lá este ele, com o sorriso de quem descobre, no meio do que se passa, algum tipo de graça real e ingénua. É um bom tipo, mas não tão capaz, não tão forte, não tão corajoso. Muito ele, não tão eu. O motivo é um: é que esse Martinho não tinha a Carol, não era com ela. Agora é. Já é há algum tempo – diria mais, sempre foi. Sempre fomos, a Carol e eu, desde que nos conhecemos. Um com o outro e um para o outro. Foi tudo muito normal, muito leve, muito certo, e acrescentaria: bonito como ao raio. Às vezes ainda me surpreendo, sobretudo quando ela sorri. Não há coisa no mundo mais bonita e desarmante do que o sorriso da Carol, na sua inocência e certeza, no seu sentimento e beleza, na sua promessa, na sua vida. Esqueçam. Tragam-me os desertos que quiserem, os monumentos antigos e as modernices mais vanguardistas; falem-me de qualquer pôr-do-soloriental e de qualquer praia portuguesa, de qualquer estrada americana ou praça europeia. Falem-me de livros, dos melhores poemas que conhecem, de discos, de caras, de ações. Não há nada, nenhum tesouro maior, nenhum doce mais insuperável que o sorriso dourado da Carol, numa manhã de fim-de-semana, no sofá, enquanto tomamos o pequeno-almoço e olhamos pela janela. Nem as suas mãos de anjo, nem as suas bochechas de criança ou as sardinhas da sua cara. Não há nada, nada. Arrebata-me o quanto sou dela, e o quanto ela é minha; o quanto somos, um com o outro, e como nos tornámos assim. Aconteceu, sucedeu. Ela é a minha rocha e a minha casa. É a minha melhor amiga, o meu refúgio. E a minha exigência, o meu caminho. A Carol é a minha mulher – bem, do ponto vista canónico-jurídico só será daqui a sete dias (ui, está quase, não está?). E apesar de, dito assim, o acontecimento de dia 12 de junho parecer uma formalidade, nada disso: sinto que é o momento bonito de nos assumirmos como transformados e como novos seres que somos, perante Deus e os outros. É, o momento em si, ele mesmo fundador. Estou para lá de feliz, diga-se de passagem, por ser o marido dela – porque yass, há coisas nesta vida que valem, verdadeiramente, toda a pena. O Martinho dava muitas graças a Deus, no meio de toda a sua fragilidade, pelo muito que sempre teve. Deus deu-lhe uma nova Graça. Não sei muito bem lidar com o amor, não sou espetacular a receber, admito. Mas por ela, e para ela, sou tudo. Sou todo. Sou eu, com ela, e ela, comigo. Na casa, na rua, nas lides e nos afazeres, nos descansos e nas tensões, nos pequenos e nos grandes pormenores. O Martinho sabe disso, e está muito contente. Consigo senti-lo a rir-se connosco, no banco de trás do carro, abanando a cabeça ao som de todos os sons que pomos no rádio, especialmente no Avicii. “Oh, às vezes, tenho um feeling”, dirá ele. Foi bom sê-lo. Foi mesmo muito bom sê-lo, e espero que aí, desse lado do ecrã, também tenham achado o mesmo. Agora, vão ter de lidar comigo. Para ser franco, acho que já andavam a lidar, desde há quase três anos. Sou parecido, mas diferente; melhor, todos os dias. Tenho, dentro de mim, um sorriso do tamanho do mundo. E, ao meu lado, o melhor de todos, a melhor de todas. Ligo o rádio, e toca a canção mais esperançosa que a humanidade já viu. Canto, com o Martinho, como Martinho, que “A porta abre-se / lá estás tu / como uma visão do céu / e no rádio” – num momento de filme, esta seria uma música de entrada perfeita – “Roy Orbinson canta: ‘estou sozinho’ / como estás, eu sou o Martinho” – num momento de filme, olho para a Carol, nos olhos, e remato – “e vou casar contigo”. Bem-vindos ao amor, à minha última semana de solteiro, ao meu último postal enquanto (este) Martinho. Depois, dia 12, as coisas serão – neste momento, na vida real, estou a acabar de ler isto à Carol numa mesa de um restaurante italiano de domingo, com as lágrimas a caírem-me pela cara – como o Ben Lerner diz que os Hasidis dizem que vão ser: iguais, mas diferentes. Até já.

O senhor Sokurov

O senhor Sokurov estava a subir a rua. Era de noite, a rua estava amarela, com as luzes, as cores dos prédios, e ao contraste com a estrada escura, com o céu escuro, com os sacos pretos do lixo que estão junto às portas, devido a uma qualquer política municipal. O senhor Sokurov estava a falar alemão enquanto passeava o cão (se calhar é um programa, falar línguas enquanto se passeia um cão, de noite). Ainda não percebo muito bem alemão, mas parecia-me que o senhor Sokurov estava a contar uma história, a descrever qualquer coisa – a rua, a straße amarela, ou então a música sacra que se ouvia, cantada pelo grupo coral da casa de baixo. O senhor Sokurov estava a subir a rua, levando o cão pela trela, o cão que punha o focinho junto de cada saco do lixo, enquanto o dono falava para o ar em alemão, conversando com Deus sobre isto, aquilo, e as estranhas políticas municipais deste sítio.

Efeméride

Nunca fui bom a responder, nem sequer pontual. Desde há um ano para cá que a coisa agravou-se. Não foi a única coisa que piorou; a barriga ainda é grande, a vontade de filmes é pouca, o telhado ainda não está arranjado, e tenho mais cabelos brancos. Passado um ano compro kombuchas no supermercado sem ter um pingo de vergonha, deixei-me das papas de aveia ao pequeno-almoço, curto bué cenouras descascadas durante o lanche, e assumi o pão que é vida – o de hoje veio de uma padaria dinamarquesa, e tinha um sabor profundo (outra coisa em que sinto que piorei: na utilização de palavras). O que melhorou foi o ritmo, a dedicação, a organização, e o saber receber. E o conhecimento da matéria, dos manuais, das teorias, das opiniões… Há um ano atrás acho que fazia algum sol, mas não me lembro bem: a sensação que tenho é que a chuva foi um fenómeno posterior, que veio durante o período de desconfinamento a seguir ao Verão. Nessa altura já estávamos com uma rotina e um hábito, já tínhamos o tapete na sala, o Dick Johnson (a nossa planta) já cá vivia, e a nossa série da noite era… não me lembro. Talvez depois me lembre, quando sair do modo tese que me vai ocupar todo este ano, pela última vez, mas por todo este ano. Sem postais, sem filmes, sem canções, só com escritas, com ideias, com argumentos e estruturas. E aulas, discussões. Talvez nessa altura me possa lembrar e constatar, como neste sábado de manhã, depois de comer um pão dinamarquês com uma fatia de queijo limiano, da naturalidade espantosa e certa com que a minha vida aconteceu, durante a pandemia, com uma miúda de sorriso luminoso, num quinto andar sem elevador. Sabem, ainda oiço discos, aqui e ali. Mantenho listas de canções. Devoro jornais, e tento manter-me o mais possível afastado de redes sociais para não dispersar. Gostava de rezar mais, devia rezar mais. Devia agradecer todos os dias por no dia doze de março de dois mil e vinte me ter metido em casa com a Carol, sem fazer ideia de quando iríamos sair. Hoje está sol e é para sair, e descansar. Segunda-feira, lá vamos nós outra vez, down down.

Primeiro de Março

Interrompo o tempo só para dizer: Orange is the New Black (sériezaço), e isto: não sabia que a canção “Sou Tão Feliz“ que a malta da Maternidade canta no seu bonito conjunto de canções “Outras Maneiras” era uma canção antiga (mais precisamente, de 1967), mas faz todo o sentido, porque tem aquela certeza dos clássicos, simples e directa, se bem que esta malta da Maternidade conseguiu uma coisa mesmo fixe, que foi transformá-la um hino de bem e juventude, entre calmas e aceleranços, e fica mesmo bem, sobretudo quando ouvida no primeiro dia do terceiro mês do ano, com todas as muitas coisas que se estão a passar, é bom começar o mês assim, a dizer (a sentir) que sou tão feliz, feliz, feliz, e era isso, vou voltar para o covil, onde “há canções de amor / logo pela manhã”, e inté (está quase, hein? está quase).

6. Carmo (largo do)

Faltavam ovos, fui comprar. No caminho encontrei uma senhora à janela a falar altíssimo, como se a rua fosse a sua sala de estar. No Largo do Carmo estava um senhor com um saco de roupa por lavar em cima da mini-roulote da Leitaria do Carmo. Reparei que não havia guardas na entrada do quartel. Não havia, de facto, muita gente na rua. Desci para o Rossio. O café da esquina que ainda estava aberto na segunda-feira, quando fui correr, fechou. Olhei para o lado, e numa transição de cenário narrativo à la Anna Kavan (o meu livro, já agora, é o Gelo, recomendação muito acertada do “braço” na Brotéria da livraria Snob) é de noite, um dia posterior e chove um pouco; já temos ovos, vou comprar peixe. Está um casal junto à a janela da estação do Rossio, duas sombras escuras contra a luz interior da paragem. Ele afasta-se, ela aproxima-se; depois trocam de movimento, mas nunca se encontram. Continuam nisto quando volto, com dois robalos no saco isotérmico. Fico a vê-los um pouco, até se juntarem e entrarem na estação. Oiço uma grande canção da Lande Hekt enquanto subo as escadas. Mais tarde emociono-me com o final do Gambito de Dama (boa série, sólida), quando (spoiler alert) os russos que jogam na rua reconhecem Liz Harmon. Não me perguntem porquê, achei bonito. Sou uma pessoa sensível. Não sei se alguma vez vos tinha dito isso.

Regresso à pista

Isto não é um documentário, diz Mekas a dado momento, mas é de certeza um documento, e o que é um documento? Uma declaração, um marco, um registo, um artefacto? Será um mito, ou um monumento? No filme de Marker o documento é a história, pequenos fotogramas de pessoas que partilham uma história, que é o mesmo dizer que partilham uma vida, um sonho, e uma morte. A dado momento, Mekas está com Lennon, Jackie, Ono, Warhol, Ginsberg, todos mortos e todos vivos, todos num sonho que é o documento – ou o documento é que nos leva ao sonho? Gosto muito quando a cara dele aparece em Scenes From the Life of Andy Warhol, o autor que fez (fazer de produzir, não de montar e juntar: de criar) um documento de memórias e sentimentos, de lugares e luzes, de tempos e contratempos. Ao contrário de Mekas, Marker nunca aparece, mas está presente em tudo, em todas as caras e palavras de La Jetée, cada grão do corpo de Davos Hanich ou da cara de Hélène Chatelain. A imagem como romance, como poema, como regresso, e como marca e invólucro linguístico de uma comunidade transcendente. E assim, inesperadamente (como em qualquer momento de revelação) volto à pista do cinema, neste início de ano frio e solarengo.

Entrada capital

Primeira semana do ano e sinto que o mundo, com os seus factos e artimanhas, já acelerou para uma velocidade absurda. São tantas as ideias, os casos, as imagens – e o frio, o vento. Estou em casa, temos uma nova fotografia na sala e alguns aquecimentos; uma série que já nos pegou (gosto muito dos actores do Gambito, da forma como representam com o olhar) e algumas canções boas para ouvir em shuffle, num passeio de recolha. Tipo esta:

Notas torcidas

Tenho reparado muito no céu, de manhã e à noite. De manhã, o céu está branco de um lado, cortado por nuvens no meio, e ainda laranja no outro. De noite, as nuvens que estão em cima do céu escuro parecem estar a ser puxadas por uma corda invisível. Dou a volta ao tronco para a esquerda enquanto lavo a loiça e sinto-me a torcer por baixo do braço; nunca tinha sentido esta parte de gordura na vida, nem sabia que ela existia, o que me deixa curioso e inquieto ao mesmo tempo. Fui correr à tarde, estava sol – continua a estar frio. Odeio estes janeiros lisboetas, e odeio estes tempos de início de ano sem discos novos para ouvir. Um dos tipos que está a trabalhar no telhado cá de casa tem (reparei hoje, a meio de uma nota de rodapé sobre Jelinek) uma voz igual ao Arnaldo Antunes, profundamente anasalada, como se o nariz estivesse na garganta. Depois do almoço eles tiveram de descer ao terraço e tiraram fotografias, fizeram poses. Fazem umas pinturas muito engraçadas nas paredes, para isolar o prédio das chuvas, enquanto estão pendurados por cordas, como se fossem alpinistas. Tenho medo das alturas. No episódio dois do Gambito de Dama começa-se a perceber o medo da protagonista, de estar a jogar perante alguém mais confiante e não saber como reagir no tabuleiro. Estou a gostar da série; sem ser espetacular é bastante sólida. No Domingo vimos uma parte das Praias de Agnès, de cuja primeira metade eu não me lembrava nada, e fiquei com vontade de ver filmes. Continuo sem grande vontade de ler, mas depois lembro-me que isto é apenas o início. Agora vou correr outra vez.

Palavras, silêncios

Sabes, acredito que não seja fácil. Neste momento, pelo menos. Talvez daqui a uns meses, ou anos, seja melhor: talvez aí possamos sentarmo-nos nalguma cadeira ou sofá, dentro de uma casa e ter consciência de tudo o que foi este ano. Ontem estávamos em casa, no meio de uma temperatura para lá de siberiana, a ver fotografias que tirámos desde janeiro até hoje. Em retrospetiva tudo parece muito (demasiado) e muito cheio. As imagens falam de forma silenciosa mas forte, conseguindo com as suas cores, formas e retratos catapultarmo-nos imediatamente para um lugar, um sentimento, uma pessoa, ou uma família. Tenho a certeza de que se tivesse pegado nos livros de Rachel Cusk, Nathanael West, Richard Brautigan, Hannah Arendt e Rui Manuel Amaral teria acontecido o mesmo, ou praticamente o mesmo. Cansei-me muito durante este ano, e internamente ressenti-me. Não é fácil não saber falar para dentro, tendo muitas vezes de escrever para fora para me começar a aperceber do que se vai passando “no banco de trás do carro” enquanto caminho, cozinho ou adormeço. Contei-te, no início do ano passado, sobre palavras e explosões, sobre como tinha de me cingir aos factos para me agarrar a qualquer coisa segura, e de como muitas vezes os factos se tornam algo mais, verdadeiros movimentos perpétuos de ideias e mundos, e eu tinha de ficar onde estava, na linha entre a realidade, a razão e a emoção, para perceber a verdade. A magia das coisas é inigualável. Sonhei imenso este ano, com explosões e passeios e mortes e o mar e o amor; depois acordava e ia dar aulas ou sentava-me a ler ou a escrever o meu primeiro calhamaço académico. A Bitcoin passou os vinte mil euros e eu passei os oitenta quilos porque correr, que sempre me fez bem, já não era possível, o ritmo existencial tornava-se cada vez mais absorvente e total, como as máscaras que agora servem de nosso hábito necessário, mesmo dentro de casa. Não é, de todo, fácil parar para pensar ou falar sobre o que foi. Mas há uma coisa que tenho de te dizer, sob pena de parecer que não estive aqui – estive sempre, mesmo que apagado ou escondido – que é a seguinte. No dia doze de março a faculdade fechou e a Carol veio cá para casa. Passaram-se nove meses; a casa já não é a mesma, e nós também não. Não nos casámos, deixámos isso para o verão deste ano que vem, seguindo a numerologia corrente e tornando este ano no zero de vida partilhada e no próximo o primeiro de casados (e o último – bate três vezes na madeira – de tese). Crescer é complicado, sobretudo a dois, quando as rotinas e os hábitos e os desejos e as séries entram em jogo conjunto e recíproco. Mas um dia estava na praia, na Aberta Nova, e fui andando a pé, a Carol ao fundo, muitos passos à frente; depois parou, esperando por este amontoado beto lisboeta composto por intelectualismos políticos, realismo jurídico e cultura pop que se arrastava, e eu vi aquela cara e pela vez número oitenta e sete mil duzentos e quarenta e nove desmanchei-me, tal e qual como num carro parado no parque de estacionamento de um Intermaché em Ponte de Lima, sabendo que a vida é difícil, que “tudo passa, tudo passa, só não passa a Graça”, e a Graça, ao contrário do que dizem, é um lugar comum, onde uma pessoa pode ser noutra, e pode ser mais por ser por outra, tornando-se qualquer coisa maior e única com esta, em conjunto. Tinha de te dizer isto (já te tinha dito isto), porque quando olharmos para o ano de dois mil e vinte vamos lembrar-nos por certo de muitas coisas, do Cucavida e do título do Liverpool, do Brexit e do Biden, de guardar peixe dentro do frigorífico de uma autocaravana e de ir nadar no mar às oito da manhã, de este ter sido o penúltimo ano do blog chamado Álbum (hein?! o quê?!) e de ter descoberto as cascatas do Gerês. Mas gostava que não te esquecesses nunca, de que dois mil e vinte foi o ano em que este tonto bem intencionado e completamente desajeitado cresceu, e de uma forma estúpida e inacreditável, no amor. E o amor não é um instante nem um momento, mas um fortíssimo abraço incessante, que abre e potencia o melhor que todos nós temos. As minhas felicidades para vinte vinte e um, ano em que conto estarmos novamente próximos, perseverantes e exigentes, no humor que este mundo caótico nos pede para ter, dia a dia, cara a cara, força a força. Bom ano.

A noite mais longa de George Smiley

Sempre que penso em John Le Carré vem-me à cabeça a imagem de George Smiley, o príncipe de todos os espiões que o falecido autor inglês projetou. Nessa imagem – que nasceu de uma leitura apaixonada do romance Tinker, Tailor, Soldier, Spy durante umas férias na Indonésia – Smiley está num quarto, numa casa fora de Londres, e creio que está a jantar ou a instalar-se, e de repente passam-lhe tantas coisas pela cabeça, sobre o antigo chefe que ele enterrou e sobre a mulher que perdeu e sobre o rival que o seduz. Há muitos plots e sub-plots na narrativa, muitos espaços onde personagens se perseguem, literal e metaforicamente, escritos com uma precisão e rigor belíssimos. Mas é essa imagem que me fica, o quadro de um homem sério e profissional num momento de dúvida, lutando contra as suas desilusões e frustrações, sabendo que só quando as ultrapassar é que vai chegar ao fim do combate. Não é qualquer romancista que nos consegue apresentar, de forma tão clara e profunda, o remoinho que nos surge em momentos de pausa e isolamento. Farewell John: o “espião” da literatura que sempre nos aqueceu a alma.

20 Canções para 2020

I’m New Here (Gil Scott-Heron e Makaya McCraven) – Olá. Sou novo aqui, sou novo nisto. Nisto de montar uma casa, que é o mesmo que dizer, nisto de viver numa casa, num espaço permanente e contínuo. Estudo o Estado, que é um espaço permanente de co-existência, mas talvez a primeira unidade política deva ser a casa, com as suas janelas e paredes e chãos e tetos. Gosto de estar, e gosto de estar em casa, que é uma forma boa de viver, de crescer. Às vezes ouço umas canções, elas ajudam-me a estar, a perceber que sou parte integrante de algo que me ultrapassa em realidade e potência. Faz-me feliz, a casa, e tudo o que nela se encontra.

Bad Decisions (The Strokes) – Todos nós já estivemos aqui. Jovens, inocentes, desesperados por aquilo que julgávamos ser amor, mas que na realidade era apenas uma sede de qualquer coisa inominável que nos fazia sentir vivos, reais, decisivos. Sem saber bem como, estávamos já a montar a casa, ou pelo menos à sua procura, tomando as decisões que julgávamos certas ou, no mínimo, menos falhadas. No caso do meu próprio combate político, peguei numas guitarras e numa voz blasé e numas letras desorientadas sobre coisas que são difíceis de explicar, e deixei-me conquistar por um estilo que nunca seria o meu, porque era demasiado bom, tanto que treze anos depois consegue ainda ser relevante, com um pouco mais de sabedoria, mas sempre muita desorientação. A casa o que é de casa.

The Steps (Haim) -Nunca fui a L.A.. Ainda não fui capaz de dar esse passo, de ir ao reino do oeste sentir o sol, conduzir por grandes avenidas, e sentir uma outra versão do plano. Vivo na capital do oeste do leste, num sítio que é tanto Europa como mundo, que é tanto mar como terra, tanta pedra como céu. Às vezes é difícil: difícil perceber o que é, o que há, o que se é e o que se tem. Mas outras vezes corro, vou correr – por cima de pedra, junto ao mar, sob o céu – e canto, abanando os dedos e abrindo os braços, com suor a cair por todo o lado, livre e total, e não percebo porque é que às vezes não me percebo, mas é como Wittgenstein podia ter dito, se em vez da linguagem tivesse olhado para a existência: sê, e faz favor de curtir esse som.

Kashmir (Filipe da Graça e João Gambino) – Soube muito bem ouvir o Filipe de novo, depois de tanto tempo londrino pelo meio, com cinco pequenas canções de de folque-roque com o amigo Gambino. Imediato, elegante, e aconchegante para chuchu.

Velodrome (2nd Grade) – O mundo complica-se, mas há quem se mantenha simples. Não é nada de segunda classe, o roque destes meninos: canções pequenas e simples mas com intenções claras, feitas só com refrões. Velodrome foi o grito de manifestação que abraçou o desconfinamento veranil – não soube tão bem? – quando o sol veio e pudemos voltar à luta.

Karen O (Sun June) – Eu estive em Brooklyn, sim, há muito tempo atrás. Não vi a Karen O, mas dormi num apartamento. De noite sonho, e nos meus sonhos vou a muitos sítios, mas nunca a apartamentos. Sou mais de hotéis, aeroportos, casas de praia, campos, e estradas. Nos meus sonhos é sempre de dia, ou há sempre luz, não sei bem: estou sempre a mexer-me, em movimento contínuo. Encontro imensa gente, gente tão diferente e tão nada-a-ver, e eventualmente acordo e nem sei bem de onde vim, e o que estou a fazer, e por isso acuso alguma lentidão e cansaço. Mas fico sempre feliz por saber que estou aqui, no teu apartamento, que soube voltar para o teu apartamento, no meio de todo o movimento.

Hungry Heart (Bruce Springsteen) – No último capítulo do romance que nunca vou escrever as personagens encontram-se todas num bar (na minha cabeça é o Roterdão, mas no romance não sei, pode ser uma versão do Roterdão). Encontravam-se pouco resolvidas, no início da história, e não é claro se estão mais ou menos resolvidas agora, no fim. O que é certo é que estão ali – algumas como espectros, outras como corpos, umas no passado e outras no futuro – e que estão todas livres, soltas e totais na pista de dança, sob as luzes vermelhas, no meio de tantas outras figuras, a cantar e a sorrir, porque todas têm um coração, todas têm um coração, todas querem dançar e dar a mão, e eu espero que não falte muito para que possamos todos voltar a fazer isso, porque faz falta, faz mesmo muita falta.

I Contain Multitudes (Bob Dylan) – O Bob Dylan entrou em dois mil e vinte para nos dar um dos maiores mic drops da história, e boy como soube bem ouvi-lo, oh se soube.

Tou na Moda (Conjunto Cuca Monga) – Foi o disco que mais ouvi e a que mais voltei neste ano. Nesta festa de e entre amigos é impossível não curtir o groove e as graças, os exotismos e as idiossincrasias, o talento e a diversão que por ali abundam. Talvez por isso seja difícil escolher uma canção entre muitas, mas talvez por isso é que escolho, sem razão, esta, com beijoca e passou-bem.

Retorno a Casa (Te Voy a Matar) – O Silas é o maior e deu-nos a banda sonora da rentrée, numa aventura cósmica de proporções bíblicas (pun not intended) com surpresas a cada canto. Adoro bons discos instrumentais, que mais do que serem bons para ocupar o espaço nos puxem para dentro, para as suas curvas e contracurvas e todas as provocações que daí advém.

Time (You and I) (Khruangbin) – O segredo de uma vida feliz está no refogado, na quantidade certa de tempo, azeite, cebola e alho que conseguimos misturar. Depois desta canção, nenhum refogado será o mesmo, garanto-vos.

There Must Be More Than Blood (Car Seat Headrest) – Interessam-me zero os sonhos de grandeza, prefiro antes uma boa malha que corte direto para o que interessa. Will Toledo talvez esteja mais preocupado na marca do que no conteúdo, a julgar pelo seu último disco, com a exceção deste grande som, em que mostra que sabe bem o que é jogar com os grandes e fazer um refrão que fique.

Desilusão (Primeira Dama) – Manelito, não sei se algum dia serás star, ou sequer super. Mas fizeste uma canção muito sentida e que bateu de maneira muito forte no ano deste rapaz que aqui te escreve, um rapaz que também adora os Strokes, e que também fica a arder no inverno. Não sei se era este o plano, mas olha, estás lá, estás mesmo lá.

Coinstar Song (Juiceboxxx) – A canção do ano, presente em todas as corridas, em todos os momentos de festa, em todas as vezes que era preciso abanar o capacete e sentir-me como um adolescente de dezassete anos a curtir a vida no quarto, como se estivesse standing in the middle of a punk rock show.

Tudo bem (Os Morangos Estão Lá) (Jorge Palma) – O Silas é o maior (outra vez) porque numa lista de canções que partilhou nas redes a dado momento tinha lá esta pérola. O registo é clássico Jorge Palma, a letra é de resignação e ironia, de despedida e de aceitação, e aquele riff de guitarra antes do verso – Mas tudo bem, – é só incrível.

Photograph (Nickelback) – Foi um ano difícil, percebem?

Brainwashed (Stephen Malkmus) – Houve uma altura, no confinamento, em que acordávamos e íamos para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Fazíamos café de cafeteira, papas de aveia, e comíamos alguns frutos vermelhos. Depois íamos para o sofá. O sol batia do outro lado da janela; à nossa frente, na televisão, estava a nossa imagem refletida. Naqueles quinze minutos em que estávamos sentados, antes de nos lançarmos aos afazeres de montar uma casa, uma rotina, uma vida a dois, sabia bem a calma, a luz, o acordar. Sabia mesmo, mesmo muito bem poder parar e olhar para a cara da Carol, para as doces bochechas da Carol, e sentir a alegria de viver esse dia (e os outros todos) com ela.

Ronaldo (Chico da Tina) – Não faço a mínima ideia se este tipo dura para lá do próximo disco, mas também não me interessa. Tem sons muito engraçados, e arriscaria dizer, sentidos. Este é completamente uma victory lap, um ponto alto indiscutível, que ainda não saiu da minha cabeça.

Serviço de Despertar (Benjamim) – Estou num uber a voltar para casa, e está a chover lá fora. O carro segue entre outros, não meto conversa com o condutor. Estou cansado, porque este ano trabalhei muito mais do que noutros anos. Aproveito a viagem para me desligar, para tentar sonhar com outra coisa que não o que tenho para fazer. Passo pela Praça de Espanha, e depois pelo Corte Inglês. As pessoas andam de máscara na rua, os restaurantes vão ter de fechar pelas dez e meia. Lembro-me da Brotéria, do bom que é almoçar ao sol na Brotéria. Agora é de noite, e o carro está a chegar. Subo as escadas do prédio e apetece-me, mal abro a porta, pegar na Carol e dançar ao som deste refrão lento, calmo e seguro com ela, antes de nos deixarmos estar a retomar a rotina deste primeiro ano a dois.

Ode to the Mets (The Strokes) – Todos nós já aqui estivemos. Trinta e dois anos, a acabar uma tese no ano do casamento e no meio de uma pandemia global. A preferir ver séries em vez de filmes, a ler mais livros de direito do que ficção, a deitarmo-nos no sofá para tirar notas à vida e a acabarmos a olhar para a planta que comprámos para casa, uma planta a quem demos um nome e que tratamos pelo mesmo, com carinho. Parece estranho, mas é bom. A dado momento a canção começa a tocar, e rio-me porque o riff inicial é parecido ao do Is This It. Todos nós já aqui estivemos, neste exato momento, em que o tempo nos colocou, a sentirmos que a nossa vida, por mais caricata que seja, tem algum sentido. Agora, se não se importam, vou só ali fazer o jantar, porque já se faz tarde. Mas se quiserem ouvir alguma coisa, fiz uma lista, e está aqui em baixo. É só escutar. Tchidles.