Corri vinte minutos

Corri vinte minutos e achei as coisas bem, cheias de sol. Apontei o dedo para casa, para aquelas duas bochechas muito bonitas e sorridentes, e pensei no realismo jurídico e mágico da vida, e cantei o verso, contigo sou agradecido, contigo sou sempre agradecido, e continuei.

Sobre o mar

Abrimos a janela e a noite estava boa, nada fria. Algumas nuvens, um barco com as luzes todas ligadas, um autocarro a passar o Rossio, ninguém à vista em lado nenhum (rua, janelas, nada). Ouvi o avião, e espantei-me, porque há tanto tempo que não reparava em aviões, e ainda para mais estamos em recolhimento, quem é que voa quando o país está em recolhimento? Mas não pensei muito nisso, e virei-me para ver o avião, seguindo-o com os olhos, e o avião subiu e virou, entrando em cheio nas nuvens, desaparecendo no meio delas, muito lentamente, como num filme. Depois voltou a ficar tudo calmo, as pessoas continuaram recolhidas, a Carol tirava fotografias e o céu estava aberto e limpo, sobre o mar.

Re / colher obrigatório

No primeiro dia / de recolher obrigatório/ eu estava na rua / quando começou / o recolher / obrigatório / não era o único / na rua / existiam / outros / músicos, atores, estrangeiros, professores / mendigos / e um casal / na varanda / com uma vela / na mesa / a / cesa / estariam eles / a violar / o recolher / obrigatório? / Acabei por entrar em casa / quinze minutos atrasados / um quarto de hora académico / depois / do re/ colher / obrigatório.

Pensilvânia, céu

Tirei esta fotografia, segundo os registos, no dia 7 de abril de 2018, às 9:40. Estava em Scranton, onde nasceu Joe Biden, embora eu não soubesse isso nessa altura. Na realidade, eu não sabia nada sobre Scranton (nem sequer que o The Office americano se passava ali). Vim de Wilkes-Barre, onde assisti a um stand-up de Jerry Seinfeld, seguindo a sugestão do Road Foods, o melhor guia que podem usar para conhecer os EUA. Cheguei ao Glider Diner e o Glider Diner era o diner americano que eu sempre quis conhecer: bancos vermelhos, refill de café, e um pequeno almoço que é capaz de matar de ataque cardíaco qualquer pessoa normal. Não me matou, felizmente, e saí e fiz-me à vida, a caminho do norte. Antes, tirei esta fotografia, segundo os registos. Lembrei-me dela hoje, ao ver a vitória de Biden. A América continua muito dividida, continua muito diferente, continua muito tensa, e esta eleição. Mas, talvez agora, possamos começar a olhar para o céu, novamente, com outro ar.

A América

A América é uma ideia que é real. É mesmo, mesmo muito real. Aquelas casas de madeira, com os alpendres e os jardins, as casas todas iguais por dentro e por fora, com pessoas completamente vivas e fodidas, por dentro e por fora, isso tudo que tu vês na televisão e no cinema? A América é assim. É exatamente assim. Mas real. Podes tocar na América, podes beber um copo nos bares da América e andar de carro pelas estradas da América, que é tudo tão, mas tão tão maior que a ideia que tens dela. O céu é mais América, a estrada é mais América, o café (porra, o café) é América-máximo. E sim, é tudo bom, e é tudo mau, e é tudo o que é, bom e mau, médio e normal, é a América. Há racismo na América, e dói. Há violência na América, e dói. Mas há amor e amizade na América, e é bom. Há sonho, há esperança, há luta na América. Há fé, e é complicado, mas há muita fé na América. E nós estamos aqui e eles por lá, um país que é uma ideia, e uma piada, e uma série e um filme e milhões de discos. Milhões de livros. A América é lixada, e é entusiasmante, e é dreamy, é muita coisa. Eu gosto muito da América, e odeio muita coisa da América. Gosto de small towns. Gosto de Bruce Springsteen. Gosto de guiar pelo Texas. Gosto do Arizona. Gosto muito de Ann Arbor, que é uma América entre mil. It may be a long while before the highway / decides to finally set me free. Hoje é o dia em que a América elege o seu presidente. Vou estar atento, a ver o que se passa, na América. A América. Que cena.

Sonhos de ouro

No sonho de ontem estava numa floresta, numa casa (num hotel?) na floresta, e havia bruxas e pessoas com poderes especiais, fenómenos luminosos e místicos, e pessoas que fugiam umas das outras, que não se queriam encontrar. Mas eu encontrava todos, debaixo de uma vindima; estava fresco, matinal, apesar de escuro. Depois estava num aeroporto, num quarto de hotel dentro de um aeroporto, a caminho de um avião que parecia estacionado junto a uma bomba de gasolina de berma de estrada. Depois outra vez o ar, a natureza, o mar ao fundo, qualquer coisa de terra. Por fim, uma sala de concertos, de exibições, de filmes, com muita gente à porta. Sem canções: nunca se canta, nos meus sonhos.

Romance académico, número Uber

Chamava-se Giuseppe e era romano. Tinha 72 anos, e estava divorciado; a ex-mulher tinha ficado a viver no Brasil. Falou muito do seu filho Alessandro, que tinha sido advogado, e agora estava a estudar para ser juiz. Alessandro fala seis línguas e faz três anos que está a preparar-se para os exames, aproveitando para ler sobre outras constituições. “A Constituição italiana”, disse Giuseppe, “diz que Itália é fundada no trabalho”. Eu disse-lhe que as constituições são exemplos de uma promessa, de uma ideia, até da alma de um país. Ele riu-se. Não lhe disse o que fazia, nem que era o meu dia de anos. Não lhe interessava para nada.

Draft note, número 761

I like this house, I really do. During the morning I feel like I’m on the beach. In the afternoon I feel like I’m on the street. At night, I’m wherever the song takes me to. I’m in one of those restaurants that still exists in this town, where the food is good and comfortable, the wine is a joy, and the owners are the best people you’re never going to be friends with (so that you know, I’ve counted three of these gems so far, resisting as they can in post-crisis Lisbon: Batata Doce, Raízes, and A Camponesa). I’m singing a Mountain Goats song while the machine washes the dishes. I’m drinking a decaf while resisting to watch season something of show x, y, z. I have seven articles / chapters about the EU’s economic and monetary union open on my desktop. I also have memories, feelings, a bottle of water, and some books. And Carol, thank God. I’m singing out of my head, and I don’t want to put any real music in here. It’s quiet, and at the same time, full. I like it. I really do.