(parágrafo)

Já os noto mais, junto à testa. É impressionante como se multiplicaram, desde aquele momento na casa de banho em Hill Street, acabadinho de escrever um postal nunca publicado sobre nomes que nunca se dizem, em que reparei em dois ou três, no bigode e nas patilhas. Ouvi hoje uma nova música dos Strokes e emocionei-me, não por nenhuma “bad decision” presente ou passada, mas pelo facto dos Strokes ainda conseguirem fazer grandes canções, quase 20 anos depois das primeiras. Também me emocionei nas primeiras seis canções do concerto dos Big Thief, com uma banda que é américa, que tem aquele sentimento de américa, com aquela mitologia bela, não sei explicar. Sei que odeio ver pessoas exploradas e a sofrer, que o sol ainda é de inverno e portanto falso amigo, que estou viciado no Duolingo, e que em vez de lermos mais Sapiens devíamos ouvir mais John Moreland, pois “what good’s a letter in a language you can’t read”? A luz entra pela janela e projecta-me na parede, uma sombra de mãos caídas, e eu / sonho.

Ensaio, número dois

Antes de anoitecer abri a janela para sentir o vento. Nos cerca de doze segundos em que estive lá fora vi dois pássaros. Não eram nem gaivotas, nem pombos. Desejei ter em mim todas as palavras do mundo. Depois fechei a janela. Escrevi mais do relatório, e tive fome. Não me apeteceu sair, fiz umas papas de aveia com leite de amêndoa, e vi um episódio de Rick and Morty enquanto comia. Agora estou a escrever outra vez, e oiço sirenes lá fora. Tive amigos que cancelaram um jantar com medo de não conseguir voltar para a outra margem. Tenho a noite, o relatório e a tempestade por minha conta. As sirenes aumentam de volume. Olhei pela janela para ver se conseguia ver alguém na rua, porque pensei, quem é que estará na rua por esta , com estas condições? Estou num último andar com o telhado por cima e parece que o vento, a intensidade do vento está a ficar mais forte. Reparo que a persiana exterior da claraboia da sala já foi à vida. No meio disto tudo, tenho na minha cabeça uma música dos Big Thief. Va savoir.

Ensaio

Estou em minha casa a acabar um relatório. O vento bate com força contra as janelas e as paredes; sinto que estou no meio de uma violenta tempestade. Encomendei almoço e fiz café. Sentei-me no sofá a comer um shawarma de frango, que agora que penso bem no assunto foi sem dúvida pedida devido à influência inconsciente da série Russian Doll (vi três episódios ontem). Reparei que fiquei sem internet em casa, provavelmente devido ao mau tempo. É melhor assim, é da forma que me concentro mais. Este ano foi duro em prazos, mas o bom é que está a acabar.  Quando acabei de beber o café olhei pela janela, para a cidade: vi uma gaivota solitária a voar, sem aparentemente sofrer com a velocidade do vento, até que passou por cima de uma grua e entrou numa nuvem muito cinzenta e carregada. Nunca mais a vi. Agora estava a beber água e a descrever uma aula que dei em Novembro, quando me lembrei que não tinha dito nada aqui sobre o Natal e sobre o ano novo. Haverá muita coisa para dizer no próximo ano, mas vão ficar a saber disso a seu devido momento (como sempre, aliás). Agora espero que estejam bem, a fechar o vosso ano e a prepararem o vosso advento. Mal posso esperar pelo meu. Um Santo Natal, e até dois mil e vinte. Kiss.

 

Listening in the shower of saturday morning

Estou no chuveiro, e é sábado de manhã. Li algures que Tom Waits celebra hoje os seus setenta anos. Daqui a pouco vou a um casamento. Está um dia frio, mas com sol. O café soube bem, a água podia estar mais quente, mas o feeling é bom. Penso, enquanto a água corre, de que gostava de ouvir Tom Waits na manhã do dia do meu casamento, embalando com o meu coração antes da alegria de sábado à noite.