Postal para uma festa de aniversário de trinta anos, três meses, e vinte sete dias

“Obrigado” é uma palavra terrivelmente pequena para abarcar o agradecimento, em especial aquele que devemos aos que nos amam, e teimam em continuar a amar, apesar de todos os nossos bons e maus entusiasmos, os nossos desaparecimentos e reencontros, as nossas vaidades e exageros, as nossas fraquezas e desilusões. Diria até que “obrigado” é uma palavra demasiado fácil, demasiado leve ao ponto de tornar o acto de agradecimento a quem nos ilumina um dia somente com a sua história, com a sua presença, enfim, com a sua vida, demasiado preguiçoso. Sim, “obrigado” não, não serve de todo como oferta para uma pessoa com quem partilhamos um amor de anos, feito de tantos momentos e monumentos, ou um amor de momentos que valem por anos de monumentos. Mas no final do dia podemos arriscar acrobacias, conseguir tesouros ou mover montes, que o que nos vai restar é somente a nossa estúpida figura, de pé e pequena, talvez com um chapéu na cabeça para disfarçar o que não dá, uma figura que até pode ser elegante mas está exposta, aberta perante quem nos faz estar de forma boa nesta vida, perante quem nos dá a vida de verdade. E só nos resta sermos o que sabemos que temos de ser, por eles e por nós, todos os dias do calendário, e isso é: os melhores. Sorrindo, e querendo ardentemente o seu bem. A idade não muda nada: continuo a percorrer ruas e estradas, a ler e a escrever, a beber e a dar, “colhendo com unção os dias / conforme os confiam à minha mão” que com eles sei que estou bem, que tenho esperança. Que os que nos amam sejam, assim, como diz o poema: o sol no cimo do seu esplendor. Obrigado por tudo.

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Postal do Beiral

Fui fechar as caves. Eram vinte e uma e trinta e quatro quando olhei para o relógio. O céu estava  azul claro-morno. À minha frente, do outro lado do muro, estavam os montes. O monte da direita era uma sombra escura com uma ligeira luz laranja no topo. O monte da frente, mais distante, estava igualmente escuro, mas mais ainda, devido a um rasgo vermelho de céu que lhe cobria a fronte. As árvores no cume pareciam esculturas de papel, desenhos soltos deixados por algum criativo engenhoso. Fico parado a olhar para tudo isto. Depois olho para o verde que está à minha volta, e deito-me em cima de uma das mesas de madeira que estão na relva do jardim. Fico deitado a olhar para o céu. Reparo que este tem umas manchas muito ligeiras que o esbatem, aqui e ali. Vejo uma estrela mesmo em frente, a começar a arrebitar. Passa um avião muito ao longe, na vertical, e eu olho para o lado porque ouvi um pássaro a bicar na pedra da porta. Quando me volto a virar para o céu o avião está agora na horizontal (é o mesmo? pode ser outro?). Tomo nota dos ruídos. Grilos, um que deve estar mesmo por baixo da minha mesa. Rãs a coaxar (não é tão fixe, a palavra “coaxar”?), cães a ladrar ao fundo. Alguns, poucos motores — um carro, talvez dois, e uma famel. Olho para o monte da esquerda, escuríssimo, com as luzes das casas acesas. Pequenos pontos laranja, como se fossem pirilampos. Toca o sino da Igreja, a dar as vinte e uma e quarenta e cinco. Noto que está tudo ligeiramente mais escuro — o vermelho, o azul, os montes — mas ainda bom, ainda bonito. Lembro-me da primeira linha de um poema de e.e. cummings: somewhere I have never travelled,gladly beyond / any experience,your eyes have their silence. Depois levanto-me, e vou para dentro. Está a começar a ficar frio, e sinto uma ligeira impressão na lombar esquerda. Va savoir.

They call it “June” around here

Costumavam chamar-lhe Junho, a este período de trinta dias, que corridos equivalem à definição legal da categoria temporal “mês”. E parece que é em Junho que estou, quer dizer, que estamos — perdão —, pelo menos do ponto de vista legal, e temporal. Talvez não tanto do ponto de vista sentimental ou existencial, tal o caudal cinzento que se alastra pelo céu, pela água miúda e chata que cai do céu, tal como tenho oportunidade de sentir, em primeira mão, ao sair de casa. É quarta-feira e confesso que alguma da ressaca de chegada já parece estar a passar, e sinto uma vontade repentina de passar por “sítios antigos”, que é a definição legal de “sítios por onde costumava passar” ou “sítios por onde passei, durante muito tempo, de forma repetida e regular”. E então aproveito estar de caminho e passo pelas Flores, e pela outra casa, a outra casa que por fora ainda parece como dantes, como a casa antiga, mas sem garagem, e que tem umas manchas de cores na parede da frente. Admito que o exercício cromático possa ser um ensaio, mas é um ensaio tão neutro que, tal como o tempo no céu, só pede melancolia. Eu até gosto de cores cinzentas, não me levem a mal, mas aquela rua minúscula precisava de mais cor, não de menos. Mas que devo eu a esta rua, hoje em dia. Niente, parti. E antes de partir de volta para o caminho toco na parede exterior, não por melancolia, mas não sei porquê, por saudade? Talvez saudade seja melancolia, ou talvez não, nada a ver. Não interessa, não penso nisso quando subo a Travessa do Jasmim, que está na mesma, com o mesmo cheiro a cócó de cão. Tal como a outra Travessa, a de S. Pedro, que continua a cheirar a mijo (este cem por cento origem humana) como a amiga Sousa faz e bem notar. A amiga Sousa, com quem fui dar um cheirinho aos arraiais, neste caso o de Santa Catarina. Foi um bom balanço: das quatro sardinhas comidas só uma é que estava totalmente seca, e o pimento da salada sabia impec (que não preciso de dar a definição legal, acho eu). A dupla que animava o arraial, os G-Sport (como é que dois adultos chegam à ideia de nomear um duo de karaoke de festivais como “G-Sport”? Se calhar não quero fazer essa pergunta, ou quero?) deram bailarico, deram kizomba, deram hard-rock, deram  brasileirada, deram Xutos, e a amiga Sousa fez-me pensar, graças a uma conversa, sobre o Purple Rain do Prince, de como o Purple Rain do Prince é, para além de uma grande canção, qualquer coisa que podia ter outro significado, na minha vida. E não sei do que foi, se da segunda corrida semanal que mandei antes de sair de casa para o caminho, se do humor e amizade da amiga Sousa, se dos copos, se das sardinhas ou do arraial, se ou de tudo junto e mais alguma coisa, mas na quinta-feira acordo bem, e estou bem, sinto-me bem. Acordo e penso em coisas boas, bonitas, românticas, provavelmente muito difíceis, mas boas, e passo o dia bem, a chilar e estar bem, e reparo que faz uma semana que voltei dos USA, e estou nice, e preguiço um pouco e almoço um prato daqueles de meter o coninhas saudável do meu amigo francês Mathis Batoul cheio de fome, que é: massa integral, frango grelhado, bróculos, azeite, e um copo de tinto (tuga, não vá o francês puxar dos galões). E ouço discos, como o último da Courtney Barnett que é “muita” bom, e tem uma música me’mo fixe chamada City Looks Pretty. E Lisboa, apesar de cinzenta, looks very pretty, as always, e talvez até tenha sido bom chegar com tempo cinzento, para acalmar, não me armar aos cucos, precisava de paz e sossego para não me entusiasmar logo. Como agora, enquanto escrevo isto, depois de ter ido jantar a casa da minha amiga Maria Ana (escreves, acontece) e depois de ter ido à apresentação do novo livro do Jacinto, A Gargalhada de Augusto Reis, um livro que vocês deviam ler, não só porque o Jacinto é um grande escritor, não obstante o facto de ser também meu irmão, mas porque este livro é especialmente fixe. Digo-o porque comecei a ler no metro, quando ia para o jantar — eu, no metro, com calças de ganga e sapatos escuros, casaco de chuva de plástico Decathlon azul-forte, chapéu de cowboy “bought in New Orleans” e a ler JLP — e estou a gostar muito, tanto que acho que vou gravar uma leitura do capítulo dois, porque o capítulo dois está mesmo espetacular, a escrita, a voz, os acontecimentos. Escreves, acontece? A sério, deviam ler o livro, não só porque este tipo, actualmente a terminar a fase “menino da Lapa” e prestes a ir para a fase “ermita minhoto” antes de ficar em definitivo (até ver) como “cowboy do Chiado” vos diz que é fixe, mas porque ameaça provocar-vos coisas. E livros que nos provocam coisas devem ser lidos. A mim provocou-me, e enquanto voltava para casa, com as mãos nos bolsos do meu casaco preto de motoqueiro japonês, pensava na liberdade de podermos dizer o que sentimos, na dificuldade de tentarmos expressar o que vemos, e no descaramento de, com algum humor, vivermos como achamos bem. Está chuva, e frio, a definição legal de “um tempo de merda”, mas pelo menos vai-se sentindo, aos poucos, um ritmo. Não sei qual o ritmo, mas é um, e basta. Ontem quando vinha do arraial pensava nisso, que é preciso só um ritmo. E hoje, depois de almoço pensava: mas e se não sentes a falta, e tu sim? E agora ainda não pensei em nada, mas sabem que mais? Acho que é deixar o ritmo seguir, seguir, seguir. E agora vou dormir. Inté.

Sobre um encontro fortuito com José Tolentino Mendonça no Jardim da Estrela

Estava a subir a Avenida Álvares Cabral. Tinha uma mochila às costas e alguns metros (talvez dois, ou até três quilómetros) nas pernas, frutos de um “pequeno” passeio até à Avenida de Roma para ver o meu melhor amigo, a sua mulher, e o meu afilhado — que, já agora, é seu filho. Pelo caminho tinha encontrado o meu irmão Simão no trânsito, tinha lanchado numa Padaria Portuguesa no Monumental, e tinha reparado como alguns prédios no caminho já estavam recuperados, ou então em obras, ou então iguais ao que estavam quando me fui, há quatro meses atrás, somente. No caminho de regresso virei na Barbosa do Bocage, reparei que a Pastelaria Namur está com um décor mais chique que antigamente, e enquanto subia a Defensores de Chaves reparei numa mulher, de gabardine bege e calças escuras, com sabrinas pretas e cabelo preso, e pensei que podia ser a minha amiga Maria Ana, cujos pais moravam na Elias Garcia, ali ao lado. Avancei levemente para lhe pregar um susto, mas apercebi-me — e a tempo — que a mulher era uma desconhecida. A minha amiga Maria Ana (de casaco preto, calças vermelhas, cabelo preso e sabrinas pretas) acabaria por se cruzar comigo uns metros mais à frente — true story — e acompanhei-a a casa, agora sua casa e do seu marido e dos seus dois filhos. Talvez vá lá jantar amanhã. Mas isto tudo começa depois, muito depois, depois dos muitos metros feitos a pé sob um céu meio cinzento, que ainda assim não impediu os muitos yuppies do Saldanha de irem tomar copos a esplanadas, como se estivéssemos em Junho e o Verão estivesse à porta, né? (lol). Começa muito depois daquele cruzamento com um sócio de mercado de capitais da sociedade de advogados PLMJ, ou pelo menos com um tipo muito semelhante a este sócio, perto da entrada da Feira do Livro no Marquês de Pombal, enquanto pensava aluadamente sobre tanta coisa e sobre os livros que tenho de ir lá comprar antes daquilo fechar. Same old story, os livros e eu, falhar descontos e eu, mas tudo isto começa de outra forma. Começa comigo a subir a Álvares Cabral, de mochila às costas — acho que já disse isso — e a virar para a rotunda do Pedro Nunes, e a entrar no jardim da Estrela, e a olhar para a direita e ver a figura dele, um bocadinho mais cheia do que da última vez que nos vimos, mas não muito, de fato sem gravata, mãos nos bolsos, como se fosse um qualquer trabalhador do mundo, mas não, era ele, e avancei para o cumprimentar, igualando a lentidão do seu passo, e acho que ele demorou a reconhecer-me quando se apercebeu da minha aproximação, mas eu percebo, já não tenho barba, e o cabelo está muito, muito grande. Ele já me viu assim, muitas vezes, há anos atrás, quando eu era mais adolescente do que sou hoje em dia. Agora apanhou-me, e abraçámo-nos. Falámos intimamente, como dois bons amigos, e confessei-lhe o meu estado de espírito. Porque está a ser difícil regressar de um sítio onde se viveu muito, e se calhar é sempre difícil chegar e recomeçar, re-engatar a máquina e o movimento dos dias, dos desafios, das viagens (que continuam, os três, a ser muitos). E é difícil ser eu, ponto. Disse-lhe: é difícil ser eu, mas acho que já aprendi a viver assim. Talvez tenha, sinto que é verdade. Porque sinto, no fundo no fundo, uma paz e aceitação pelo que é, mesmo que à superfície ainda apareça alguma ansiedade afectiva. Porque, é assim, não é? Disse-lhe: estava a subir a Álvares Cabral e sabes no que estava a pensar? Estava a pensar na frase que um amigo meu, o Quica, que tu também conheces, diz muito, que é: Love is a long road, ou “o amor é uma estrada longa”. E o Tolentino acenou e disse que era verdade, que a frase era verdade. Eu também acho que sim, que é. Depois eu disse mais umas coisas, e o Tolentino outras, como “os milagres acontecem”, ou “é preciso confiar”, e eu confio, até demais, e depois ele pegou-me nas mãos e apertou-mas, e depois despedimo-nos, serenamente, cada um virando-se de costas para o outro e distanciando-se. Estava, antes de o encontrar, a ouvir na minha cabeça a canção “No banco de trás do carro”, que é a versão que fiz da canção “Drunk Drivers / Killer Whales” dos Car Seat Headrest, que estava a passar nos meus édefones. E depois de o encontrar voltei a pôr a canção a tocar, enquanto saía do jardim e pensava no quão grande o meu afilhado está, nos livros que tenho de comprar na feira do livro, no postal que vou escrever quando chegar a casa chamado “Sobre um encontro com José Tolentino Mendonça”. Penso em chegadas, penso em canções, penso em trabalhos e projectos, e sinto-me consolado. Não sei se ele fez qualquer coisa quando me apertou as mãos, ou se simplesmente aconteceu, mas sinto-me. Filmo no telemóvel uma imagem do rio Tejo, ao longe, visto do cimo de uma rua na Lapa. E depois paro a música que toca, chamado “At your best (you are love)” do Frank Ocean (na realidade, é uma versão do Frank Ocean de uma canção da Aaliyah), e fico a pensar, porque fico sempre a pensar, e depois ponho o telefone no bolso e vou para casa. Estou com fome, e apetece-me beber um copo de tinto, antes de começar a escrever. E é isso.

Pela Estrada, episódio 30: Ann Arbor, parte II (final)

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Highway

Glow of ice in the dark maples,

shape of a blue fish in the clouds,

hum of tires, stutter of the car radio.

You know the highway is kindly,

the curve of it, your family at the end of it,

the lull of the wheels, the sudden view

of a mill town dropped among trees

this as eyelashes, and the buildings,

small heaving chests with breaths

of smoke. And a sudden tenderness

fills you for the idea of people,

their wills an habits, the machinery

of their kindness, the way meals are

served with salt and with a spoon.

And you think of them as birds

driven by some wind, and such mercy

passes that it makes you weep for it

and soon you can’t see the road

for the awful kindness of it, and

the idea of you, your name vanishes

leaving you so alone that you must reclaim

it fast as you can in thought,

that dark bird circling over

the road until you are lost, or found

again in its wide wings lacing the blue

moving sky, the car now in motion

past the flash of sun again on an icy branch,

the self safely wrapped back inside its body,

which is your own driving a car, yours.

(Gene Zeiger)

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AA best:

https://embed.music.apple.com/pt/playlist/aa-best/pl.u-GgA55mZUAy86Y

Frank Ocean, White Ferrari

Amy Annelle, Buckskin Stallion Blues

Stephen Malkmus and the Jicks, Middle America

Johnny Greenwood, For the Hungry Boy

Father John Misty, Leaving LA

Sufjan Stevens, Tonya Harding (in D major)

Yo La Tengo, For You Too

Ry Cooder, I Knew These People

Titus Andronicus, Above the Bodega (Local Business)

Lucy Dacus, Night Shift

Natalie Prass,  Short Court Style

Leonard Cohen, Chelsea Hotel n.2

Yo La Tengo, Fourth Time Around

John Cougar Mellencamp, Small Town