Ir de viagem

Defini há muito tempo a partida como um ponto fixo no meu calendário existencial. Há um antes e haverá um depois. É difícil que assim não seja quando temos uma viagem ou um período longo fora de casa com regresso marcado. Há sempre um antes e um depois. Nunca sei bem o que será o segundo. Antes das viagens não sinto um entusiasmo ou ansiedade muito declarado, embora saiba que por dentro já tenho o foco no lugar. Quero lá chegar, abrir a porta da nova casa e instalar-me no novo quarto, com as malas no chão e o corpo na cama. Quando fechar os olhos concluo o trajecto de horas e quilómetros que fiz antes e quando acordar já começa tudo ao ritmo imprevisível da novidade do espaço e do tempo. E aí sei que os dias serão o que tiverem de ser. Há ideias, e há projectos — e há planos, alguns mais abertos e outros mais delineados. Veremos como sucedem. Não pensei muito neles nesta última semana, confesso. Aproveitei para dizer os até-jás, para comer o que não vou poder comer durante quatro meses, para estar com quem quero. Para passear onde não vou passear e para festejar o que não vou, pelo menos em pessoa, viver nestes tempos. Quatro meses é pouco dentro do grande esquema das coisas, mas se virmos bem estamos a falar de um terço do ano. Quando voltar será o fim da Primavera e já deverá haver sol e praia, e é a única coisa certa que sei. O resto nem suspeito. Vou de peito aberto e acho que é tudo o que basta. Apetece-me muito sair e estar longe, confesso. É uma óptima maneira para me (des)concentrar. As viagens são as melhores formas de nos tratarmos e mexermos por dentro, com a desculpa de ver coisas novas que nos tocam de alguma forma sublime mas profunda, provocando-nos interiormente  na nossa individualidade. Acho que o mundo é o melhor catalisador existencial que há. De que forma serei provocado, tentado, provado, tocado e sentido? Não sei. Nem faço a mínima ideia. Como no poema quase apostólico de Ruy Belo (adaptado à figura deste que vos escreve) “Está sereno” o viajante, que procura “pôr o rosto do senhor por trás das suas palavras / Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar.” E é isso, e apenas quero ir. O depois, logo se vê. Até já, pessoal. Vemo-nos no Verão.

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Banda sonora invernal

Metro do Rato, sexta-feira: um jurista académico em despedida do inverno lisboeta ouve o guitarrista diletante das nove da manhã, na entrada da estação. Viola americana, sons americanos, aqueles instrumentais simples que são mil paisagens. Tocando de pé, trocam um aceno e obrigados mútuos. O jurista agradece pela música, que lhe embala o pensamento e prevê a viagem seguinte. O músico agradece pelos trocos que o jurista lhe dá. Transações simples e gratificantes, para começar o dia da melhor maneira, numa sexta-feira. Ansiedade de estrada? Nenhuma. Apenas a espera serena de uma partida iminente. Até lá, é aproveitar. Assim.

Saber dizer adeus

O autor sai de casa às quatro da tarde e está um tempo porreiro. Está também uma luz porreira, de final de dia. Parece, na óptica subjectiva do autor, uma luz de Verão. Mas é Inverno, e estes são os últimos dias de Inverno lisboeta que o autor vai viver este ano. Saboreando essa luminosidade, o autor segue o seu caminho urbano, igualmente porreiro. Ao passar na Rua da Bela Vista à Lapa repara na imagem em frente, da rua composta por uma estrada ladeada de prédios, avançando até ao fundo, quando depois do cruzamento se torna na Rua de S. Bernardo. Talvez seja da luz, mas o autor que passa pelo menos duas vezes por dia por esta rua todos acha-a mais engraçada hoje. É uma rua sem graça nenhuma, no resto dos dias, mas hoje a banalidade dá-lhe algum charme. Se calhar é do tempo, ou da luz. O autor já não pensa nisso quando entra no jardim, porque no jardim já está a ouvir as misturas do disco. O autor está a gostar, e muito, das misturas do disco. Tem pena que os seus édefones tenham um dinamismo algo chato que torna as guitarras um pouco estridentes. Mas fora isso o autor segue caminho com as canções nos ouvidos, à caça de um erro ou pormenor ao lado nas faixas. Até agora, até à canção três, tudo parece bem e maneiro. O autor entretanto caminha a passo médio, aproveitando a luz da tarde. Chegado ao outro jardim acaba por se sentar num banco perto do lago. Olha à volta e vê a seguinte imagem. Um casal, e três pessoas singulares, todos espalhados e sentados (excepto uma, que está deitada) perto da margem do lago, virados para o vidro do grande auditório. Atrás, no início da descida para a margem está uma árvore. Em frente está o céu, dourado pelo sol claro que se começa a preparar para desaparecer. Nenhum ouro fica, já dizia Robert Frost, mas enquanto dura é bonito.  O autor imagina um teledisco para a canção que toca agora, composta apenas de uma guitarra e voz, onde o autor repete no refrão a frase — e a verdade — “eu / não sei dizer adeus”. O teledisco é composto do seguinte cenário: um céu dourado com um lado por baixo, e uma série de pessoas sentadas ou deitadas na relva junto à margem. Algumas lêem, outras namoram, outras dormem, outras conversam. Outras estão, apenas, ali. A “câmera” vai se aproximando de cada pessoa, de cada gesto ou cara, por vezes de frente e por vezes por trás. E às vezes a imagem fica focada na placidez da água do lago. A canção continua a tocar até ao último acorde. O autor está a olhar para a água e por um segundo fica assim: parado a olhar para a água, sem mais nada na cabeça. Está, simplesmente. É uma sensação tão pacífica. Como no silêncio que se fez junto às pedras quando alguns patos começaram a descer para a água, alguns momentos depois. É bom ter essa liberdade, de fazer silêncio e deixarmo-nos estar nele. É mesmo bom. O autor aproveita e deita-se, enquanto nos édefones a sua própria voz lhe diz para olhar o céu. Em vez de obedecer a si mesmo repara nos patos que estão a ser alimentados por um casal de idosos. Os patos são bonitos, têm cores e bicos bonitos, e penas cuidadas. Até os patos neste jardim são bonitos, pensa o autor. Alguém deve tratar deles, alguém deve cuidar da sua estética e imagem. Deve ser importante ter patos bonitos neste jardim, para não descurar com o resto. O autor pensa depois o quanto gosta de jardins. É uma constatação recente, esse gosto. Pode ser da idade, pensa o autor. Se calhar está a amolecer. Ou se calhar não. Se calhar está só a saber, mas melhor. Mais tarde, já sem sol e com mais vento, o autor vai sair do jardim e voltar para o metropolitano e seguir. Vai ouvir as misturas mais uma vez, considerar mais uma vez que a faixa número cinco é a melhor música que alguma vez criou, vai comprar uma prenda de anos e depois vai voltar para casa. O autor hoje decidiu sair porque estava um dia de sol. O trabalho podia esperar e era bom despedir-se da cidade nestes dias de sol. É bom (pelo menos, tentar) saber dizer adeus, mesmo quando sabemos que voltamos. Porque nunca voltamos da mesma maneira que saímos, mesmo que no essencial estejamos intactos. É isso que pensa o autor, quando volta a abrir a porta, neste último dia de Janeiro.

Lisboa

“Lisboa não é boa sem ti por cá. Ando muito à toa, sem ti por cá. E sinto, quando desço ao Rato, que és a única sacana na cidade que me pode aturar.

E Lisboa não é boa sem ti por cá. A baixa não tem coroa sem ti por cá. E eu sinto, quando estou no Chiado, que és a única sacana na cidade que me pode salvar.

E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína, mas por ti, miúda, eu sei que voltaria. E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína. Mas por ti, miúda, eu sei, que voltaria.

Lisboa não é boa sem ti por cá. Ando pelas lonas, sem ti por cá. E eu sinto, quando vou de carro que és a única sacana na cidade que me (a única sacana na cidade que me; que és a única sacana na cidade que me) pode perdoar.

E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína. Mas por ti, miúda, eu sei que voltaria. E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína.

Mas por ti, miúda, eu sei que voltaria.”

Tradução (médio-livre) de “New York” de St. Vincent, do álbum MASSEDUCTION, Loma Vista Recordings, 2017.

A minha casa é (remix de fim de semana)

A minha casa é… não. Não. Outra vez. A minha casa é… Hum. Bem. Se calhar é melhor começar assim. Estou. Isso, assim. Estou na sala de estar de casa a escrever. Não. Já sei. Estou no terminal dois do aeroporto de Lisboa à espera de embarcar para Dublin e reparo que a fila de embarque prioritário da Ryanair tem o dobro do tamanho que a fila não-prioritária e penso que isso subverte de forma algo irónica todo o conceito da ideia de embarque prioritário. Não. Não, desculpem. Não estou aí. Afinal estou sentado num pub em Belfast, Irlanda do Norte, a beber uma pint de cerveja (marca: Nicholson) a meio de uma tarde de quinta-feira, em frente a um hotel que foi bombardeado éne vezes durante a época dos Troubles, ou so it goes. Ironicamente ou não, o hotel chama-se Europa. Não. Não, não, estou num outro pub em Belfast, longe desse hotel e do meu hotel, perto da Catedral de Santa Ana, e estou de pé a beber uma pint (marca: Guiness) e tenho soutiens e cuecas de renda pendurados por cima da minha cabeça. Mas será isso? Ou será que afinal estou em Lisboa, sentado num banco no jardim da Estrela em frente à estátua do actor Taborda, pelas oito da noite, acabado de voltar do ginásio? Ou estou no jardim à mesma, e à mesma de noite, mas agora de pé e à porta, do lado da Basílica da Estrela, observando o senhor africano de casaco twee, camisa vermelha, calças escuras, barba branca e cachimbo fino, sentado num banco e iluminado cinematograficamente por um candeeiro? Ou porque é que não estou num banco de autocarro a viajar pela estrada de Dublin para Belfast e a fazer vídeos das árvores que passam na janela e a rir-me com episódios soltos de Master of None? Se calhar sim, estou numa estação de autocarros — que, ironicamente, se chama Europa — em Glengalle Street, Belfast, protegido do frio graças ao meu mega-casaco polar recentemente adquirido, a escrever um postal sobre Belfast cujo conteúdo vai ser descartado ainda no aeroporto e aproveitado no sábado de manhã, na sala de casa. Sim, porque estou no aeroporto de Dublin na zona de chegadas às três e vinte da manhã a pensar na distância e no silêncio e nas despedidas. Tenho estado a ler sobre o silêncio quando ando de metro, em Lisboa, de manhã ou de tarde, e a pensar nas despedidas e na distância quando estou a deitar-me, de noite, em Lisboa e em Belfast e no aeroporto de Dublin. Estou em Lisboa, isso sim, deitado no sofá da sala num domingo à tarde a ler sobre algoritmos e a espreitar o telemóvel para ver como anda o mercado das criptomoedas, embora de manhã estivesse a corrigir exames e a ler sobre o vigésimo slam de Federer. Mas sem saber ler nem escrever estou a falar sobre o Natal em Lisboa com Gilbert e George (estes) numa sessão de autógrafos no MAC e estou a voltar para casa do Cais do Sodré pela 24 de julho à uma da manhã de uma segunda-feira. Estou numa pista de aeroporto em Dublin às cinco da manhã a apanhar chuva, a caminho do avião, passando pelo meio de outros aviões e carros com malas e pessoas com fatos fluorescentes e estou a cantar em voz minimamente alta a Deus para que me dê a “voz do Frank Ocean” e a “ginga do James Brown” e a imaginar um musical no aeroporto com os fatos fluorescentes a bradarem as luzes e os passageiros a dançar por debaixo dos aviões esta malhona do Will Toledo e companhia. Que parvoíce. Estou mas é a curtir o sol que me bate na cara com um casal amigo, sentados num restaurante moçambicano na Mouraria, a comer camarão com quiabos e a beber cerveja local. E é bem bom, mas depois ou antes ou o que foi já estou a subir a Álvares Cabral com o Madeline na cabeça, o que significa que estou já a fazer versões do Madeline na minha cabeça, nas quais acentuo o som nasal no ‘ê’, do género “Madalena / não vale a pena / Madalena / qual é a cena”. Entretanto passo a rua com o semáforo vermelho. E estou no pub The Crown Jewel outra vez — em frente ao hotel das bombas, lembram-se? — mas desta vez a beber um copo de vinho branco ao balcão e a olhar-me ao espelho. Faço um brinde, e fico a pensar na morte da bezerra durante uma hora e tal. Depois de duas horas e tal de avião estou no metro de Lisboa outra vez, com um mega-casaco polar que é exagerado para o tempo presente e são dez da manhã de sábado. Estou com ar de quem dormiu três horas e meia, divididas irmamente entre um autocarro, um aeroporto (chegadas e partidas) e um avião. Não mudo de roupa há vinte e seis horas e pouco. Mas estou a comer uma bola de berlim na pastelaria Pão Doce com um amigo e a sair do metro no Rato com o Cute Thing dos Car Seat Headrest aos berros nos édefones e é como se nada fosse e paro de andar sempre que há um “tudududududu” e depois recomeço quando as guitarras entram. Que parvoeira, eu sei. Mas estou agora e ali e acolá e neste fim-de-semana a sentir o mesmo conforto que senti quando, na estação Europa, peguei na mochila e levei-a só com uma pega posta até ao autocarro. Um conforto “‘bora lá”, “siga”, “tranquilo”, se é que (não) me entendem. Uma sensação de invencibilidade e força, algo ridícula e sem uma justificação aparente ou pelo menos imediata, mas bem real — acreditem. Estou, basicamente, num sítio, e depois a caminhar. E sempre a aproveitar quer o sítio, quer o caminho. Parece fácil, ou pelo menos simples, mas é só bom. É bom como estar em casa. E é isso. Voltando ao princípio — ainda se lembram? — diria: a minha casa é um jardim lisboeta, ou um livro lido no metro, uma viagem de autocarro pela Irlanda ou uma viagem de avião continental, uma série de comédia ou um filme surrealista ou uma ou duas ou mil canções americanas, um livro de filosofia manhosa, um simples passeio numa rua da minha cidade ou uma viagem relâmpago ao Reino Unido, uma infinitude de caminhos e viagens ou, por fim, como escreve de forma certeira Ben Lerner (nota: senão leram ainda vão já a uma livraria pegar nesse assombro de livro que é 10:04) a minha casa é “an actual present alive with multiple futures”. E é isso. Só?

Pequena coleção de frases murais de Lisboa, transcritas literalmente e em jeito de cadáver esquisito

“Olá”

“Amo ninguém”

“… E o Estado social, pá?”

“Fraco.”

“Servicismo turístico é pra burros

“Vida dura…!”

“Squat”

“Cada eu que digo é outro.”

“Stop nasty laws”

“Foice o tempo / PRÉDIO”

“Se eu fosse você o outro era quem?”

“Sopa”

“Baco = Snitch”

“RIP Motel”

“Medina / Madonna”

“Se só pensas em dinheiro, procura outra casa de banho! Esta está ocupada!”

“Que se foda a musa.”

“haverá sempre am<3r na sala”

“há mais vida que isto!”

“Turismo o caralho!”

“Be where? Be rave!”

“e o Estado independente kaloteiro?”

“Foda-se, cala-te caralho!”

“Eles cortaram o queijo com a máquina do fiambre”

“Dá fruta”

“Chop suey”

“She left him / know she shags a kiwi guy and luvs it!”

“Ana Carina”

“Love is possible”

“portugal o mesmo monárco-fáxo avarento / é só luxúria-boémia-wars (…)”

“O Vítor Kiala é guy!”

“USA nazi nuclear”

“ÁCIDOÁCIDOÁCIDOÁCIDO”

“A saudade faz o que foi melhor do que era”

“What was that about a black marker??”

“1 é pouco / 2 é bom / 3 é demais”

“Vidas.”

“Amo… você”

Regressar do cinema

O carro continua a andar e a canção volta a subir de volume. O ecrã fica escuro e entram os créditos finais. A canção ainda toca. É muito bonita, muito pretty. “Pretty songs and pretty places / Places that I’ve never seen / Pretty songs and pretty faces / Tell me what their laughter means”. Está calor de repente, ou se calhar sou só eu. Se calhar é do filme e do que ele provoca. É um filme sobre a redenção, e sobre saber dizer adeus ao que foi. Ou é outro? Agora a sala está algo fria, mas não tem que ver comigo. No ecrã está a cara do actor face à lareira, com outra canção a tocar. É uma canção de despedida, também bonita, mas menos. O filme também é, em parte, sobre isso: saber dizer adeus. Quer num quer noutro final saio da sala ainda às escuras para a luz do lobby, das escadas, da entrada do centro comercial. É tarde e devia apanhar o metro, mas não me apetece. Apetece-me andar, e apetece-me a gravidade silenciosa que só um passeio traz. Já fiz este caminho tantas vezes. Há anos que o faço. Fi-lo depois de vários momentos, mais alegres e mais difíceis. E agora estou a fazê-lo, por duas vezes. Passo por uma Zara, duas vezes. Passo por uma loja de lingerie, duas vezes. Passo por um café-barra-restaurante onde costumava ver jogos de futebol quando tinha quinze anos e por um prédio em obras cujos cálculos das estruturas foram feitos em parte por um amigo meu. Duas vezes. Ainda apanho frases escritas nas paredes na primeira — na segunda nem olho. Penso nos filmes, nos seus finais, mastigando o impacto. Deixo a canção sussurrar-me na cabeça o refrão. “Pretty songs and pretty faces / Tell me what their laughter means”. E deixo-me ficar assim a andar, pelo meio da noite.

Angola street blues

Estás a andar de manhã a pé pela Pascoal de Melo, fotografando de forma descarada frases desenhadas ou coladas nas paredes, portas ou caixotes da rua, porque desde há uma semana que a tua atenção tem capturado pequenos escritos e pensas se isto é uma cidade de poetas ou se é a cidade em si que é um poema imenso, e enquanto desces a Almirante Reis olhas para muitas coisas porque é de manhã e é sábado e estás com poucas horas de sono mas sempre atento, e olhas para multibancos que estão colados a lojas de indianos e pensas numa história em que há um tipo que anda de manhã na rua e olha para uma caixa de multibanco colada a uma loja de indianos e que tem um amigo que cria uma teoria da conspiração absurda e racista sobre como estas máquinas sugam-te o dinheiro e os dados que os dados hoje em dia são como o dinheiro, e pensas que um dia devias apontar estas ideias para escrever, no meio de tudo o que já escreves, um livro de contos ou micro-contos absurdos sobre todas estas personagens que queres inventar, como aquela personagem que era uma telefonista nos serviços centrais do Estado e que escolhia a música que soava quando um telefonema estava em espera nas conservatórias, ou no fisco, ou na segurança social, enfim, uma daquelas ideias que tinhas quando ficavas no escritório horas a fio a ligar para o fisco, para a segurança social, para as conservatórias e ouvias tanta música ao telefone, coisas lentas e rápidas e pensavas quem é que escolhia estes sons, será que alguém escolhe estes sons, será que dá para alguém escolher estes sons, e depois viras para a Rua de Angola e vês um cartaz colado com fita-cola numa caixa de electricidade e que anuncia uma festa rock no Cais do Sodré e pensas sobre quando é que foi a ultima vez que foste a uma discoteca a uma festa assumidamente rock e pensas se foi em Edimburgo, no Liquid Room, que era um espaço horrível mas com sextas-feiras incríveis, em que numa noite fechaste a pista e o dê-jota pôs a tocar o The boy with the Arab strap dos Belle and Sebastian e tu estavas conquistado e bêbado e havia uma miúda a dançar com o namorado e puxava a saia de um lado para o outro na pista, e agora passas por algumas miúdas altamente arranjadas, com roupas novas e sapatos bonitos e maquilhagem segura, e são nove e tal da manhã e elas estão já assim enquanto tu estás de calças de fato treino e camisola vermelha e óculos escuros pintas e com um cabelo que denuncia que acabaste de sair da cama e estás no cruzamento da rua de Angola com a rua do Zaire e pensas que gotta love these streets of Anjos e os seus nomes, e gotta love these streets of Anjos e Intendente onde parece que descobres sempre coisas novas como uma festa escondida num bar soturno ou salas de café estabelecidas em casas abandonadas e pensas como é que vais jogar squash hoje, squash que é um desporto posh — “squash é posh” era uma boa frase para escrever na parede — e destrutivo e que já não jogas há eras, mas vais, disseste que ias e chegaste à rua de Angola para apanhar boleia e vais, e jogas, e apanhas uma coça e ganhas três jogos em tipo mil (ou vinte, já não me lembro da conta) e na boleia de volta ouves Prince — na ida ouviste Springsteen porque quem sabe sabe — e está um grande dia de sol mas tu queres casa e vais para casa, vais para o metro e lês no metro, e reparas que o balão dourado do canal Panda que está há uma semana no tecto do metro do Rato ainda não saiu, e que até não combina mal com o mural da Vieira da Silva, mas são gostos e são os teus e sobes para o jardim da Estrela e apanhas mais umas frases na Álvares Cabral e pensas no postal que vais fazer com as mesmas, e que escreveste enquanto esperavas entre derrotas de squash, e pensas na poesia de algumas frases e não é que ao chegares a casa apanhas uma poeta com óculos à Dylan e dizes-lhe um “oi” e bom fim-de-semana e depois cais em casa e tens a tarde para ti e vês dois episódios de uma série indie-lamechas que malta que tu achas que sabe sabe adora e tu pensas “como é que é possível que esta malta que sabe sabe adore esta lamecheira” e vais dar a oportunidade até ao fim só porque dás a oportunidade aos teus amigos e, por fim, ficas sentado no sofá a ler e a deixar que tudo venha à cabeça sem grande controlo, porque olha, hoje podes tê-lo todo, o descanso, a pausa, as dúvidas, tudo tudo, podes tê-lo tudo. A vida segue.

Rua da Lapa blues

Subo a Borges Carneiro pelo lado esquerdo. A passada é rápida, como de costume. Está frio e vão circulando músicas pela cabeça. Passa o Linger dos Cranberries, derivado da notícia do falecimento da vocalista. Passa o início do Everyday dos Yo La Tengo, derivado concerteza da notícia da sua vinda ao Nos Alive! em Julho. Passa esta e de repente apetece-me ouvir o And Then Nothing Turned Itself Inside Out outra vez, como quando punha o disco a tocar sobre tudo o que estava a fazer. Não sei se é da noite, do frio, dos candeeiros amarelados da rua. Estou a entrar na rua da Lapa e não se vê vivalma. É relativamente tarde, mas nada de mais. É segunda-feira, mas nada de mais. Quando começo a descer a rua desacelero e começo a andar mais devagar. É um esforço progressivo e natural. Sinto-me confortável e aquecido com a lentidão adoptada. Olho para as casas à esquerda, para a textura da pintura de uma casa à esquerda. É um verde-água engraçado. Não passam carros, não há pessoas. Depois paro em frente à minha rua e antes de começar a descer olho para o fundo de tudo. Aquela vista do rio e etc, do céu e etc, da outra margem e das luzes e das luzes dos barcos e reflexos na água e etc é o que é. Falei duas vezes hoje, em conversas distintas, sobre clichês que são verdades evidentes e imperturbáveis. Esta vista — ou melhor, o valor desta vista — é claramente um desses clichês. Desarma-me cada vez que a vejo. Mas hoje está diferente. O céu está claro, salvo alguns traços de nuvens ao longe. Parece um céu de Verão, ou pelo menos dá-me essa sensação. Aquela sensação de final de dia de Verão, quando estamos abraçados por uma felicidade cheia e despreocupada. Como se aquele céu e Verão e sensação fossem eternos, um espaço de calor e amor e verdade e vida e alegria e entusiasmo que nunca, nunca vai acabar. Não sei se a sensação me vem pelo céu ou pela lentidão ou pelo silêncio. Jon Fosse fala da majestade do silêncio, semelhante à de um oceano. É tarde mas não me sinto cansado. Devia, porque tenho de acordar cedo, mas não. Nada mesmo. Começo a descer a rua e paro outra vez. Fico parado e gravo uma nota no telemóvel sobre o que estou a sentir. Sinto uma calma e uma paz. Se pudesse ficava aqui toda a noite, assim. Nem sequer me apetece falar — a voz sai-me (e confirmo de manhã, enquanto escrevo) esparsa e sussurrada. É uma coisa bonita, sussurro para a nota do telemóvel. É possível que daqui a uns meses, anos, sei lá, quando voltar a passar aqui de noite depois de me mudar volte a pensar nisto e nesta imagem e do quanto ela me preenche. Vou ter algumas saudades, sussurro para a nota do telemóvel, é uma rua bonita. De repente ouve-se o som de uma bicicleta a travar. Continuo a descer para casa, e lembro-me do que me disseram hoje, sobre como é um luxo poder ter espaço para receber estes momentos. Ainda não estou cansado. Fecho a porta e a rua fica, majestosa, lá fora. O disco volta a tocar.

Romance académico

Contaram-me uma história. A história é a seguinte. Um rapaz está numa faculdade de direito a fazer um exame escrito. Vamos chamar-lhe “o aluno”. O aluno é estrangeiro, mas percebe, fala e consegue escrever em português. O aluno está nervoso porque é um aluno aplicado que costuma ficar nervoso quando faz exames. O exame versa sobre teoria do crime. No enunciado está descrito um caso prático. É dito que o crime em questão, no caso prático, foi cometido “por amor”. O aluno olha para o caso prático. Lê muito bem o caso e os problemas que ele implica. Depois rabisca algo na folha de rascunho. Abre o código penal, leva a mão ao queixo, pensa. Depois pousa a caneta e a folha e o código e fica só a olhar para o enunciado. Pensa, pensa e sua. Está nervoso porque é aplicado e porque há algo no caso que o põe nervoso. De repente levanta o braço. Um dos assistentes que vigia a prova vê o braço levantado e desloca-se até ao aluno. Pergunta-lhe, em voz baixa, “Sim?” E o aluno, falando de forma suave e com um sotaque subtil diz: “Tenho uma dúvida”. “Diga”, responde o assistente. O aluno olha para o enunciado e depois olha para o assistente. Olha para o rabisco, para a caneta, para o chão, e depois para o assistente. Está nervoso e a ganhar coragem. O aluno está mesmo muito nervoso, porque é muito aplicado e tímido e sem grande jeito para assumir fraquezas ou dúvidas. O assistente olha para ele. O assistente não é desta área científica. Só sabe o básico de crimes e pouco mais. No entanto, já tem alguma experiência a vigiar exames. Consegue perceber que o aluno está algo nervoso. Já viu isto várias vezes, antes. Consegue perceber que vem aí uma grande dúvida. Já viu isto várias vezes, antes. Já sabe o que vai responder porque já respondeu várias vezes. “Não sou da área. Não sei. Leia outra vez. Pense. Respire fundo. O regente já vem aí. Responda à próxima e deixe essa para o fim. Tem x tempo ainda. Não posso responder a isso”. Etc e etc. Entretanto o aluno respira fundo. Olha para o enunciado, para o chão e para o assistente e repete a sequência mais duas vezes. Até que, finalmente, diz: “Estou muito confuso com um elemento do caso prático. É o seguinte”. O assistente chega-se mais perto para ouvir. O aluno respira fundo. E depois diz.

“Eu sei o que é a paixão. Mas o que é o amor?”

O assistente olha para o aluno. O aluno olha para o assistente. O aluno está mesmo muito nervoso e confuso e se lhe gritassem “BU!” nesse momento ele iria cair ao chão com uma paragem cardíaca. O assistente olha para ele da forma com que os assistentes olham quando os alunos lhes colocam dúvidas — com um olhar muito fixo e seguro para esconder o que quer que se esteja a passar na sua cabeça nesse momento. Depois o assistente olha para a mesa e depois para a janela. Está um dia de sol lá fora. Depois vira-se para o aluno. “Vou chamar o regente”. E foi. Fim.

Sobre resoluções espontâneas

As resoluções fazem parte de um novo ciclo. Sempre. A seguir, no ciclo, vêm as desilusões. Sempre. São como irmãs. Ora dança uma, ora dança a outra. Ainda assim acreditamos nas resoluções, e damos sempre nova oportunidade às mesmas. Ou porque queremos ou porque ok, não conseguimos dar a volta (talvez porque aprendemos, com os anos, a dançar melhor com as desilusões, mas isso é outra história). E então resolvemos fazer as resoluções, em particular no ano novo. Porque há uma vida nova, supostamente, à espreita. É uma oportunidade e aproveitamos. Escrevemo-las, rezamo-las, tudo isso. E às vezes, quando menos esperamos, já o ano começou e elas aparecem-nos como uma ideia, assim do nada. E assim do nada resolvemos fazê-las, às que surgem inesperadamente e de forma espontânea. Foi o que me aconteceu recentemente, mais concretamente ontem. Estava no meio de uma série de doze elevações no ginásio e estava a ouvir um episódio da New Yorker Radio Hour em que David Remnick entrevista Leonard Cohen. Já tinha lido o artigo numa das edições do ano passado — vale muito a pena — mas ouvir Cohen a falar é outra coisa. Dá para sentir a gravitas particular do canadiano. Aquele estilo, aquela sacanagem, aquele humor, aquela fraqueza. Tudo à mostra, com uma elegância ímpar. A dado momento Cohen, falando do seu ritmo de trabalho avassalador nos últimos tempos, mesmo sabendo que está já mais para lá do que para cá neste mundo, justifica-se dizendo “At a certain point, if you still have your marbles and are not faced with serious financial challenges, you have a chance to put your house in order. It’s a cliché, but it’s underestimated as an analgesic on all levels. Putting your house in order, if you can do it, is one of the most comforting activities, and the benefits of it are incalculable“. Tive de me controlar no levantamento de um peso. É uma lição bonita e acertada. Já no Natal o J tinha cantado uma versão incrível do I’m Your Man (o J tem um hábito de fazer versões incríveis e despojadas de grandes canções à guitarra — bastante fiéis e nada aparvalhadas como as minhas — e que acabam por soar melhores do que os originais. Há uma música do Damien Jurado, por exemplo, que ele canta e é a-rra-sa-do-ra). E isso tinha-me posto a pensar. Conheço os clássicos do Cohen. Desmancho-me com muitos clássicos do Cohen. Mas conhecer o Cohen? A obra, mesmo? Sempre fui mais Bob Dylan. Se calhar era da juventude. Mas agora, neste ano, em que se aproxima a passos vistos o evento do fim do meu cartão jovem, por razões externas ligadas ao efeito normativo da passagem do tempo, fiz uma resolução. Estava suado, com os ombros a doer, mas fiz. Este ano vou entrar na obra de Leonard Cohen. A fundo. A ver se aprendo alguma coisa, se tiro alguma elegância e estilo. Ou, pelo menos, cultura. Só pela capa deste disco, parece-me a escolha acertada. Não?

Postal de ano novo

Sais de casa. Olhas para a esquerda e segues pela esquerda. Desces a rua, escolhes a lista de canções que fizeste há cerca de dez minutos. Tudo clássicos. Olhas para a frente. O céu está coberto por nuvens. Desces e uma vez chegado ao largo começas. Um, dois, três na tua aplicação de telemóvel e lá vais tu. A música que começa é curiosamente a música que tinhas na cabeça enquanto descias a rua. Aquela viola acústica, com aquele padrão bem ritmado e a letra bonita. Passas a rua e a linha de comboio e entras na marginal. Estás a correr, já agora, para que se saiba. Estás a correr e fazes a corrida do costume, hoje um pouco mais longa. Porque é o primeiro dia do mês e no primeiro dia do mês tens de dar algum ritmo às coisas. A tua primeira resolução foi aguentar uma ressaca. A tua segunda foi renovar a amizade com o sofá da sala. A tua terceira foi começar a cumprir o que tinhas escrito na agenda. Foste partir a cabeça com estudos sobre encriptação em cadeia. Não sei se há melhor cura de ressaca, mas de certeza que há outras menos pesadas. Como, por exemplo, ler. Ou só estar no sofá. Ver um jogo da Premier League e pensares que pelo menos há uma equipa de vermelho que ainda te consegue alegrar este ano. Mas agora estás a correr. Final da tarde. Tudo normal. Passas por muitos turistas e alguns corredores. Os édefones novos são dinâmicos, mas algo estridentes. É o que dá pagares menos de quinze euros por uns édefones. Mas servem. Corres e chegada à meia-hora e, portanto’s, o meio-caminho, dás a volta. Estás agora com a ponte de frente. Estás agora com a lua cheia e imponente em frente, clarificando os espaços de céu nocturno que não estão cobertos por uma ou outra nuvem marota que por ali anda. E estás a passar em frente ao Padrão dos Descobrimentos. Nunca tinhas reparado que as estátuas eram tão grandes. E depois olhas para a esquerda e vês esta imagem. O Mosteiro dos Jerónimos, com o céu já descrito por cima. Está iluminado na fachada por algumas luzes alaranjadas. Atrás está o estádio daquela equipa azul com que tu gostas tanto de gozar, com as luzes ligadas. É um cenário bonito, e percebes que vais ter de escrever no blog por causa disso. Depois continuas a correr. Entra uma canção que te acelera o ritmo, que de si já é bom para esta altura. Não te lembras qual é. Por acaso, agora que falas nisso, eu acho que me lembro. Não interessa. O que interessa é que tu lembras-te de estar mais à frente, junto ao Museu da Eletricidade, e de entrar a outra música e de estares de novo vidrado na imagem da ponte, da lua, do céu, tudo aquilo que está no teu caminho. Sentes-te como o Boss canta, a “dançar no escuro”. “Não podes começar um fogo sem uma faísca”, e talvez tenha sido isso, aquela imagem do Mosteiro, apanhada num momento de esforço em que já tinhas libertado bastantes endorfinas para te sentires inspirado que te acordou o espírito. Ou então foi outra coisa. O entusiasmo do ano, das aventuras que tens planeadas. Das “experiências incríveis”, parafraseando uma mensagem que me enviaram. Dos desafios que vêm aí. O ano como um longo caminho de trajectórias inesperadas. Pensas que vais escrever sobre isso tudo, aqui. Pensas que tens um blog novo, que inauguraste de forma não-oficial antes do tempo (porque não consegues, simplesmente, estar calado). Mas que coisas novas terá esse blog? No que é que difere dos outros, para além do nome? Qual é a ideia, a motivação, etc? Já disseste uma vez porque escreves. O Boss ajuda-te (outra vez, mais uma vez) a responder ao resto. Então. Toca agora outra canção, no preciso momento em que topas um barco à vela ao teu lado e apetece-te competir. Homem contra embarcação, o duelo possível neste início de noite de dia um de janeiro do ano de dois mil e dezoito. A canção chama-se (tradução) “Nascido para correr”. Era um dos nomes que querias ter dado ao teu blog antigo, há um ano atrás. Agora estás a correr e depois de muito que se passou percebes que a frase é essa. És, como diz a canção, um “vagabundo”, um daqueles tipos que anda sempre metido em mil coisas e a caminho de outros tantos sítios. Por dever, por querer, não interessa. Estás sempre a caminhar, estás sempre a correr. Estás sempre nessa adrenalina muito especial que é a existência e a sua riqueza. E como tu gostas de a capturar, à existência, como se fosse uma imagem. Daí seres um gajo do cinema, da vida em movimento: tu adoras a vida em movimento. O que é que podes prometer com este blog? Que é assumidamente pessoal. Não é sobre coisas que gostasses que acontecessem ou sobre expectativas ou sonhos ou o camandro. É sobre o que se passa, o que acontece. O que se vive, o que se sente, o que se pensa. Com humor, com alguma dor talvez, mas com sentido. Porque só se escreve se fizer sentido. São regras senhores, são regras. E aqui estás tu, com o álcool que tinhas no corpo a sair com cada passo que dás, a correr para a lua, a passar por baixo da ponte, a cantar a canção que estás a ouvir agora. Trata-se das partes dois e três da outra canção que abriu esta corrida, e dizes que sim, que amas, e quando a bateria entra e acelera tu saltas no meio da corrida como se estivesses num qualquer mosh pit, e sabes que vais chegar a casa e escrever isto tal e qual. A saltar como um miúdo entusiasmado, mas que o adulto que és (a um mês e pouco dos trinta) sabe que tem de ser assim, de vez em quando. E corres, e corres, e ouves tantas outras músicas, desde o Abel até àquela óbvia bicicleta. Despedes-te da corrida despedindo-te do Tony Orlando, uma malha que achas que poderia soar bem no meio de um set de discoteca – nota: de um set muito arriscado mas fixe de discoteca. E vais para casa, dez quilómetros depois. E o ano já começou, “como uma porta que se abriu”. Dois mil e dezassete acabou em blues. Dois mil e dezoito começa com uma corrida. E o que vier, tentarás descrever neste espaço. Ahora sácalo, bébé (Quanto a vocês, fiquem para ler. Sigam por e-mail seguindo as instruções no botão de cima, adicionem no feedly, vão pelo instagramo ou twits, hipóteses não faltam. Prometo entreter, de forma honesta e mais ou menos profunda.) Bem-vindos, e bom ano.

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Fim de ano blues

Abres a porta do prédio e olhas para a esquerda. Tomas consciência, no instante em que fazes o movimento, que isto é algo que costuma acontecer de forma regular. Isto é. Quando abres a porta do prédio costumas olhar sempre para a esquerda. Olhas para a rua a descer. Olhas para o número de carros que está estacionado na rua. Olhas para o rio lá ao fundo, para os barcos que lá estão, e para o céu. Às vezes consegues ver a serra ao longe. Outras vezes não. Outras vezes nem tentas. Vês os barcos, o rio, e é tudo. Mas fazes isto, esse é que é o facto. Como hoje. Hoje ouvem-se pássaros e não há pessoas na rua. Só há carros estacionados. Sais, e vais dar a volta que tens de dar. Passo lento, mãos atrás das costas. Passar pela Rua da Lapa e etc. Passar pelo jardim da Estrela e etc. Metro, sair, visitar, voltar, e etc. Ler no metro e etc. Missa, casa, e tal. E é domingo, é o último dia do ano. É uma boa junção, que o último dia do ano seja o último dia da semana. Significa que há coisas que podes fechar e outras que podes começar a abrir no curto e no longo prazo. Micro e macro-gestão, juntas num só momento. É o sonho de todos os geeks de organização existencial. Como tu. Mas não consideras nada durante o dia. Já fizeste isso antes. Hoje só vives, como se fosse domingo. Exercitas-te, visitas a tua afilhada que faz anos, cozinhas, arrumas a casa, escreves, procrastinas, e descansas. Depois vais passar o ano. Estás com amigos. Pensas em pessoas que não estão ali. Pensas em muitas coisas, como de costume. Também sentes muitas coisas, como de costume, mas ao contrário do que era costume agora assumes tudo o que sentes. Bom, mau, péssimo, incrível. E estás. Estás com uma camisa nova, azul-escura, que compraste nos saldos. Com uma camisola verde e com umas calças bege e uns sapatos de trabalho. Sério, ma non troppo. Jovem, ma non troppo. Tu, totale. Tens desejos. Escreveste-os. Estão no bolso, para te lembrares à meia-noite. És ambicioso, e assumes isso. És fraco, e assumes isso também. E amas. Amas tanto. Amas tanto estes gajos que estão à tua volta cheios de copos e vinho e cerveja e alegria. Amas tanto as pessoas que te mandam mensagens de bom ano. Amas tanto as pessoas a quem mandas mensagens de bom ano. Estás animado. Há algumas razões para isso. Estás com amigos. Tens uma agenda nova, toda estilosa. Conseguiste correr depois de recuperar de uma lesão de caminhada. Estás a beber. Mas estás também convicto de que 2018 vai ser um grande ano. É uma convicção assente no teu interior. Não podes fazer nada contra ela. Não é que te entusiasme ou excite ou te faça querer bradar aos altos berros e saltar para uma pista de dança e soltar a franga. É simplesmente o que sentes. Por isso apenas sorris. Apenas estás. E é isso. Mandas piadas. Contas histórias, e ouves histórias. Ris-te e emprestas livros. Andas na rua e tiras fotografias que achas que são giras para publicar numa rede social de imagens partilhadas. Estás com uma música tua na cabeça. Chama-se “Fim de ano / Ano novo blues”. Estás com o ritmo, sobretudo. Balançado, lento. O refrão fica-te na cabeça. “Tanto que foi e veio / como num carro pela A1 / um passeio na cidade / com o céu já meio-escuro / Tanto que foi e veio / como deve ser o futuro? / Não fico parado, acelero e prego a fundo”. A última frase é um slogan ou intenção para o ano que vem? Não sabes. Também não sei, confesso. A passagem de ano é uma coisa engraçada. É um evento que, na prática, dura um segundo. Num momento, 2017; no seguinte, 2018. E pronto. O resto somos nós que fazemos. A festa, a alegria, a merda, e a vida. O ano que vem será o que tiver de ser. Nós seguimos. E é isso. Bom ano para todos.

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