Pela Estrada – Série II

A partir de segunda-feira, cinco minutos por dia / cinco dias por semana (com uma playlist musical para o fim de semana), um podcast sobre uma road trip caseira, sobre palavras e imagens, ações e reflexões, dor e humor, amor, cinema e roque éne role — enfim, sobre a vida, num estado de emergência constitucional. Disponível em todas as plataformas (Apple, Spotify, Google) e em https://soundcloud.com/user-771139576. Primeiro episódio aqui. Venham viajar daí, pela estrada. Até já.

 

Há palavras que são tão geográficas como exóticas, que nos fazem duvidar da sua própria realidade. São tão fantásticas, surreais, sedutoras – verdadeiras palavras-poema. Penso nisso quando me lembro da palavra “Samoa”. Não sei porque é que me lembrei, de repente, no meio de uma quarentena forçada, da palavra “Samoa”, que para além de uma palavra é um local real, ou seja, que existe, no meio de tantos outros, neste planeta. Mas é impossível não sentir que Samoa não é mais do que um sítio ou local, de que a Samoa não é um filme, uma história que clama, como tantas outras, por ser vivida de forma única e especial. Estou a pensar na palavra, no que é e no que representa, enquanto lavo a panela de restos de papas de aveia que ficaram presos depois da confecção. Depois olho para o mapa dos EUA que está afixado numa das paredes cá de casa, que na realidade é um mapa das EUA e do Canadá, e pela mesma ordem existencial que a palavra Samoa se intrometeu na minha experiência pessoal reparo na palavra “Winnipeg”, um ponto no centro-norte do mapa. A palavra Winnipeg podia ser uma canção, tem sabor disso. Não sei nada sobre o Winnipeg, tal como não sei nada sobre a Samoa. Resolvo procurar na internet; a primeira informação que me aparece no Google é de que o Winnipeg “é a capital da província canadense de Manitoba. Seu centro é The Forks, um local histórico na interseção entre os rios Red e Assiniboine, com depósitos transformados em lojas e restaurantes, além da ampla área verde dedicada a festivais, shows e exposições. Perto dali, o Exchange District é conhecido por sua arquitetura bem preservada do início do século 20 e suas várias galerias de arte“. Tantas e bonitas palavras, tantas ficções-reais, tantos filmes e canções. Imaginei-me um dia no Manitoba com a Carol, a passearmos por Winnipeg, observando quadros no Exchange District e, quem sabe, nadando nos Red e Addiniboine, procurando alguns shows para ver antes ou depois do jantar. E de manhã, enquanto nos arranjássemos para sair, aproveitaria para escrever algumas notas no caderno, pequenos postais sobre o sonho que as coisas e os seus nomes, quando vividas e sentidas, são.

Esboço / Decisões

Passei o primeiro dia de isolamento a recuperar de um prazo. Esteve um calor louco, deu para almoçar na varanda e relaxar do movimento dos últimos dias. Ainda se ouve muita coisa lá fora, muitos sons e barulhos, de carros, pessoas, buzinas. Há movimentos que não param, enquanto que outros movimentos – de viagens, mais concretamente – estão completamente fechados: disseram-me os meus vizinhos, que gerem alguns negócios de alojamento. Li um pouco, segui as notícias, escrevi um postal, bebi vitamina C e um comprimido de vitamina D, e fui jantar com a família. Não nos cumprimentámos; foi o último encontro antes de nos isolarmos todos, até uns dos outros. Rimo-nos muito, e depois falámos a séria sobre os dados, as perspectivas, a capacidade de se lidar com isto. Itália veio à baila, e Itália está muito mal, e em Itália já está toda a gente em casa, como se fosse uma guerra. Ao voltar para casa senti algum medo e muita apreensão pela incerteza do que vem aí, não por mim, mas por todos, com tudo o que parou, com tudo o que vai ter de voltar (nalgum momento), e com tanta gente que pode estar em risco. Assusta-me muito que alguém próximo fique numa situação complicada. Entrei em casa e fui-me deitar. Durante a noite sonhei que estava no pátio do meu antigo colégio, num encontro qualquer importante, e depois estava num pontão a ver os Strokes a tocar. O Casablancas a dado momento estava a tocar piano, e noutro momento tinha um baixo nos braços. Acordei com o Bad Decisions na cabeça, e fui tomar o pequeno-almoço para a varanda. Os barulhos continuam, como se fosse uma sexta-feira normal.

Esboço / Infante Santo

Saí do autocarro de volta (quando era de noite) e olhei para os prédios à minha frente, para o parque de estacionamento, para os prédios à esquerda, para a estrada a descer, e para a paragem do outro lado da Avenida, em frente aos azulejos de Eduardo Nery, naquela encosta feita de escadas, de pedra, de árvores e de verde, onde algumas horas antes tinha apanhado o autocarro de ida (quando era de dia). Pareceu-me um cenário muito bem pensado e desenhado para uma narrativa urbana e emocional. A Infante Santo é muito dreamy. Na peça ou filme ou vida que imagino passar-se ali há um personagem que espera o autocarro todos os dias, lendo o mesmo livro todos os dias, sobre uma rapariga que ouve canções italianas cantadas por um músico norueguês enquanto dispara pensamentos sobre as coisas simples que vai sentindo. E o personagem acha – as histórias, os pensamentos, as coisas simples – tudo muito real e fictício ao mesmo tempo, tudo muito, lá está, dreamy, tal e qual como aquela paragem onde se encontra, quando é de dia / quando é de noite. Abri o telemóvel e li as notícias sobre o progresso da situação do coronavírus. Lembrei-me da frase de Rachel Cusk: sem estrutura os acontecimentos são irreais. Fui-me embora; no dia seguinte começou o isolamento.

(parágrafo)

Já os noto mais, junto à testa. É impressionante como se multiplicaram, desde aquele momento na casa de banho em Hill Street, acabadinho de escrever um postal nunca publicado sobre nomes que nunca se dizem, em que reparei em dois ou três, no bigode e nas patilhas. Ouvi hoje uma nova música dos Strokes e emocionei-me, não por nenhuma “bad decision” presente ou passada, mas pelo facto dos Strokes ainda conseguirem fazer grandes canções, quase 20 anos depois das primeiras. Também me emocionei nas primeiras seis canções do concerto dos Big Thief, com uma banda que é américa, que tem aquele sentimento de américa, com aquela mitologia bela, não sei explicar. Sei que odeio ver pessoas exploradas e a sofrer, que o sol ainda é de inverno e portanto falso amigo, que estou viciado no Duolingo, e que em vez de lermos mais Sapiens devíamos ouvir mais John Moreland, pois “what good’s a letter in a language you can’t read”? A luz entra pela janela e projecta-me na parede, uma sombra de mãos caídas, e eu / sonho.

Ensaio, número dois

Antes de anoitecer abri a janela para sentir o vento. Nos cerca de doze segundos em que estive lá fora vi dois pássaros. Não eram nem gaivotas, nem pombos. Desejei ter em mim todas as palavras do mundo. Depois fechei a janela. Escrevi mais do relatório, e tive fome. Não me apeteceu sair, fiz umas papas de aveia com leite de amêndoa, e vi um episódio de Rick and Morty enquanto comia. Agora estou a escrever outra vez, e oiço sirenes lá fora. Tive amigos que cancelaram um jantar com medo de não conseguir voltar para a outra margem. Tenho a noite, o relatório e a tempestade por minha conta. As sirenes aumentam de volume. Olhei pela janela para ver se conseguia ver alguém na rua, porque pensei, quem é que estará na rua por esta , com estas condições? Estou num último andar com o telhado por cima e parece que o vento, a intensidade do vento está a ficar mais forte. Reparo que a persiana exterior da claraboia da sala já foi à vida. No meio disto tudo, tenho na minha cabeça uma música dos Big Thief. Va savoir.

Ensaio

Estou em minha casa a acabar um relatório. O vento bate com força contra as janelas e as paredes; sinto que estou no meio de uma violenta tempestade. Encomendei almoço e fiz café. Sentei-me no sofá a comer um shawarma de frango, que agora que penso bem no assunto foi sem dúvida pedida devido à influência inconsciente da série Russian Doll (vi três episódios ontem). Reparei que fiquei sem internet em casa, provavelmente devido ao mau tempo. É melhor assim, é da forma que me concentro mais. Este ano foi duro em prazos, mas o bom é que está a acabar.  Quando acabei de beber o café olhei pela janela, para a cidade: vi uma gaivota solitária a voar, sem aparentemente sofrer com a velocidade do vento, até que passou por cima de uma grua e entrou numa nuvem muito cinzenta e carregada. Nunca mais a vi. Agora estava a beber água e a descrever uma aula que dei em Novembro, quando me lembrei que não tinha dito nada aqui sobre o Natal e sobre o ano novo. Haverá muita coisa para dizer no próximo ano, mas vão ficar a saber disso a seu devido momento (como sempre, aliás). Agora espero que estejam bem, a fechar o vosso ano e a prepararem o vosso advento. Mal posso esperar pelo meu. Um Santo Natal, e até dois mil e vinte. Kiss.

 

Listening in the shower of saturday morning

Estou no chuveiro, e é sábado de manhã. Li algures que Tom Waits celebra hoje os seus setenta anos. Daqui a pouco vou a um casamento. Está um dia frio, mas com sol. O café soube bem, a água podia estar mais quente, mas o feeling é bom. Penso, enquanto a água corre, de que gostava de ouvir Tom Waits na manhã do dia do meu casamento, embalando com o meu coração antes da alegria de sábado à noite.

This place is full of warehouses

He’s thirty minutes earlier for the show. He thinks it’s wiser to eat something before; after all, he hasn’t dined yet. He parks the car in front of a social service office. Although it’s Sunday, he questions himself if he can do this, to stop the car in this place. He eventually shrugs and ditches the issue, and goes across the street to the craft beer shop. He enters the shop and counts two waiters standing next to the kitchen, a couple sitting at the bar, and three forty-something-year old people sitting at a table. He goes to the bar and asks for a stout beer and something to eat. The only food they have is pie, chicken or meat. He chooses chicken. He drinks the beer smoothly, he enjoys its round flavor. When the pie arrives he proceeds to eat it slowly. He takes note of the couple. The couple is arguing about her life. She wants out, out of her job, out of her house, out of here. She wants to go soul searching, and he, well, he thinks that the guy that’s with her is being too polite in answering, maybe because he wants to have something to do with her later on. Our man at the bar, drinking stout and eating pie just thinking, from the top of his laughable wisdom, that she should just go. Go, do something, and then come back, with or without the guy. But nobody is asking his opinion, and even if he said something nobody would care. He finishes eating, drinks the last sip of beer, pays and leaves. He thinks the pie was too expensive for what its quality. It’s now raining outside. He hasn’t got an umbrella, nor a hoodie. He puts his hands on the side-pockets of his jacket and thinks he’s a cowboy leaving the saloon, into the soaking rain. This place is full of warehouses, could be a western scenario, he says to himself. In more or less fifteen minutes he’ll be in one of the warehouses, in the concert hall, and the space will make him remember that concert hall in Chicago, next to the Mexican neighborhood, where he once saw his favorite all-time band. He will listen to the trio of women playing string instruments and singing their cute form of neo-country while joking about Tinder and dates in between songs. He will repeat in his mind the names of the instruments – bass, violin, cello – and he think that this, all of this is so fucking america, like all the references that he has in his head and in his heart. He fucking loves an idea of america that is made of these sounds, of these lyrics that talk about prairies, and ashes, and California. Then he will go next to his brother, sister-and-law and nephew, and they will all listen together to the show that brought them here in the first place, on a rainy Lisbon Sunday. And they will sing, they will laugh, they will jump, they will admire the passion and energy that the singer-songwriter puts into all those songs, and he will think that this love is not for the songs themselves, but for the characters of the songs, some real and some fake, all fucked up, but all alive, all very much alive, all alive in tones of e, g, and d, and played in two to three minute takes. Chorus are cathartic affairs, and this singer knows it all too well. It’s beautiful, and violent, or maybe violent because it’s so beautiful, or maybe beautiful because it’s so violent. Gee, I don’t know. I only know that he will leave the concert hall at the end of the show and go straight to his car, parked on the sidewalk, and he’ll spend the return trip trying to recite the lyric from that song that he didn’t know before, the one about calendars and Illinois.

Coisas bonitas

A meio do caminho imaginei uma história, de um homem que habitava por essa zona, na Pensão Elegante, ali no Largo da Oliveirinha – que, segundo o Google Maps, termina no Largo do Oliveirinha – junto à Travessa do Fala-só. O seu nome poderia ser Gustavo, um tipo sério e justo, mesmo que mais ou menos perdido. Gustavo passaria os dias ali, naquele trecho composto por casas em obras, lojas de mosaicos, hostels com nomes ordinários e uma mercearia. Trabalharia como advogado em casos pequenos mas recorrentes, e almoçaria e jantaria na Praça da Alegria, no café Brooklyn, onde passaria horas a ler romances em inglês sobre a América. Tomaria nota, num caderno que traria sempre consigo, no bolso interior do casaco, de todas as coisas bonitas que encontrasse, como os regadores azuis que estavam hoje colocados nas várias varandas do palácio. Coisas assim, simples.

Seminário

No caminho estavam dois sapatos de senhora. Vermelhos, género sabrinas, um pouco gastos e molhados, impecavelmente arrumados num canto de um lugar de estacionamento junto ao passeio. Lembrei-me do Feiticeiro de Oz: a que Bruxa ou a que Dorothy terão pertencido? Na terça-feira ainda por lá andavam, agora desarrumados, com o esquerdo no lugar do direito e o direito no lugar do esquerdo. Na quarta-feira já não, já não estavam por lá. Imaginei quem os tivesse calçado, que aventura é que estaria a viver, neste momento. Reparei também, no intervalo antes de ir dar a primeira aula do seminário, num pequeno globo encostado junto à janela do bar da faculdade. Vivemos num grande mundo, cheio de selvas e florestas, cheio de vidas e de histórias. Vimos uma ontem, no teatro, na sala estúdio, sobre o mundo do trabalho e os seus excessos. Era mais uma história de ideias do que uma história de pessoas, e nem sempre bem conseguida, mas o cenário – feito de papel de alumínio – era muito engraçado. Às vezes acendiam e desligavam as luzes e víamos as paredes com marcas e elevações, como se fossem montanhas ou pedras, ou até raízes (o que é irónico, tendo em conta o que se passa no fim da peça). A vida agora é um concerto de Beethoven tocado pela Royal Philarmonic Orchestra no leitor de vinis cá de casa. O sol entra pela janela, está um céu fabuloso, e há algum trabalho para acabar – entre os andamentos ouvem-se as teclas de dois computadores. Antes disto fui correr e apanhei com sol na cara. Estava a arder no fim da corrida, era possível que estivesse com a cara encarnada. Estreei os meus novos ténis de corrida, que, coincidência das coincidências, são vermelhos. São muito confortáveis.

You

eat the quinoa bread in the kitchen

and drink the lungo coffee

before doing the NYT’s daily crossword

in the living room

(how

intelectual-millennial

are you?)

and your heart dreams

you believe in her, in others, in life

you feel that, you say that, you smile, you hold the hand strongly and you

say go

and your heart dreams

you look at yourself

a dark image of yourself

reflected in the water

amongst the cars and the people and the rain

you think of green

and your heart dreams

you follow the cyclist

who has his backpack open

and is heroically fighting the wind while climbing

a very steep and wet street

and your heart dreams

you listen to Bruce Springsteen’s Thunderroad

heavenly sent through your cellphone’s shuffle

and played on your car’s stereo

you cry while you sing or

you sing while you cry

doesn’t matter

your heart

dreams

you arrive at the law school and

remember three times the structure of the class

you think about

all the legal things surrounding crypto-assets and tokens

and then you park the car

the sky opens slightly

it still rains

your remember you have

to pray

and your heart dreams

your heart dreams

your heart dreams

Notas soltas – Ann Arbor, 2018

Ao ler as cartas de Vonnegut lembrou-se da senhora da biblioteca que lhe disse que tinha conhecido o neto de Vonnegut que andava na faculdade onde ele se encontrava atualmente, em intercâmbio. Ao chegar à faculdade no dia seguinte cruzou-se com a senhora da biblioteca. Disse-lhe: Ontem lembrei-me de si, estive a ler umas cartas de Vonnegut. Ela levou as mãos ao peito e virou os olhos para cima, como se se estivesse a recordar nesse momento de uma velha mas potente paixão de liceu, e suspirou: Oh, Vonnegut, Vonnegut. Ele riu-se, e ela disse-lhe: Sabe, há algo que não lhe contei da outra vez, é que o neto era igual a ele. Fisicamente falando, era idêntico, uns anos mais novo, claro, mas tirando isso era a cara chapada do avô. E isso é que tornava tudo ainda mais impressionante, porque era como se estivesse o próprio Vonnegut à minha frente, e ele fosse um aluno, a requisitar um manual muito conhecido de fusões e aquisições. Ouvi dizer que agora está em Nova Iorque, a trabalhar no mundo financeiro. Consegue imaginar isso? E ele momento não vira os olhos mas imagina um neto de Kurt Vonnegut que é igual a Kurt Vonnegut e que estuda direito e que requisita manuais de fusões e aquisições e que depois vai para Nova Iorque e que hoje é um financeiro bem-sucedido e pensa que isso é uma história tão Vonnegutiana que o próprio Vonnegut podia ter escrito um livro sobre isso, sobre como ele Vonnegut se tornava no seu próprio neto e depois ia ser um financeiro para Nova Iorque. Ou so it goes.

A casa está fria e o café também. Sentei-me à secretária, escrevi a defesa para enviar à minha mãe. Depois deixei a cabeça pesar-me, bebi um copo com água, cantei uma canção dos Berrie para as paredes vazias. Há umas horas atrás, a caminho de casa da Ultra, voltei a passar pelo jardim da Estrela. Estava escuro e molhado. Queria demorar-me por lá, como fazia dantes, como fiz durante dias seguidos, incluindo um verão inteiro e dois outonos. Fiz muita coisa em muito pouco tempo no jardim da Estrela, e ele esteve sempre lá para mim (para nós). Como uma canção melodicamente animada mas funda como o raio, como o The Boy With the Arab Strap. Não dancei. Arrastei o passo, respirei fundo, deixei-me levar até à saída. Toquei no passeio com a mão. Vi uma folha a cair de uma árvore e a dar duas voltas inteiras no ar antes de tocar no chão. Lembrei-me de tudo quando abri o livro de Sophia, na página 31 da minha idade, e li, sob o título de “Promessa”: “Na clara paisagem essencial e pobre / Viverei segundo a lei da liberdade / Segundo a lei da exacta eternidade”.

Viagens

No metro, ele continua a ler o livro que começou no Verão, quando ainda nem sequer estava noivo – pelo menos do ponto de vista técnico-jurídico – numa das muitas e pequenas ilhas que existem na Indonésia. Há qualquer coisa que o agarrava nessa altura e que ainda o agarra às páginas já muito amarrotadas, que andaram por horas de voo e de espera. É o ritmo leve e profundo das narrativas, tão reais e humanas que podiam estar a acontecer à nossa frente. A dado momento ele olha para o lado, aproveitando um intervalo entre parágrafos, e repara – de forma inocente – que a mulher que está sentada ao seu lado escreve uma mensagem no telefone. O nome do destinatário parece-lhe começar por “S.”, como se fosse um santo. Ele fica com esta ideia, de que há pessoas que trocam mensagens com Santos, que lhes rezam por sms, ou algo do género. Se calhar está aí uma história. Ele sorri, e volta a pegar no livro. Falta uma página / estação para sair.

A sala está escura, salvo pelas minúsculas luzes verdes do modem, e dos pontos vermelhos da televisão e da aparelhagem. Há um barulho contínuo que vem de fora. Faz lembrar um motor de avião, uma brisa muito forte. Mas nada se mexe lá fora. Lá fora só existe o nevoeiro, que vai crescendo muito devagar. Já cobre todos os telhados; talvez chegue até à janela. Às vezes o nevoeiro fica muito claro, como se alguém que estivesse no seu interior ligasse de repente um holofote. Se calhar é impressão minha. Estou sentado na sala e está tudo parado, fixo no chão. E, ainda assim, apesar de toda a tranquilidade, há uma leve sensação de movimento. Mesmo que fraca, está presente, como quando se está numa passagem, dentro de um túnel,  ou num intervalo. Sabe-se que se veio de antes para chegar aqui, e que a seguir se vai para o depois. Mas primeiro, agora, agora há isto, uma pausa que é um espaço, uma espera bem definida e limitada, que por tão forte e certa que é sabe a caminho. É bom, é mesmo bom sentir o sabor do caminho.