Na tina

Estou há quase duas semanas com a canção Ronaldo, do Chico da Tina, na cabeça. Já ouvi muita outra coisa, mas não há maneira de não voltar a esta. Parte do sucedido deve-se à sedutora produção do Bejaflor e do Co$tanza (o beat é ótimo, não há como fugir). Outra parte deve-se à forma da declamação: segura, assertiva, e provocadora, típica de quem está mais que à vontade, cheio de confiança. Não sou o maior fã do trap, mas confesso que esta fica – e já agora, sabem o que é que também fica na tina? Este pequeno som do Bejaflor: aqui fica, para que não passe despercebido.

Sobre pensar (demasiado) nas coisas

I’m Thinking About Ending Things é um filme puxado. A primeira metade corre a um bom ritmo, com imagens e diálogos extraordinários, e uma mise-en-scène que constrói muito bem uma tensão absorvente (excelentes atores, quer o casal quer os pais do namorado). Mas na segunda metade o suspense puxa em demasia, ao ponto de se tornar extenuante. A necessidade de encontrar pistas e simbolismos aumenta estupidamente, e a narrativa acaba por se fechar e concluir de maneira demasiado reduzida face a toda a carga que vinha de trás. Há momentos que esta trip misteriosa a um subconsciente pesado se assemelha aos melhores devaneios lynchianos, embora peque, no final, por ao contrário destes, estar sempre a tentar (com muita força) pôr o pé no chão. Ainda assim, é bom ver Charlie Kaufman de volta ao ativo, sempre pronto para nos levar em novas viagens.

Dick Johnson vive

A realizadora Kirsten Johnson conseguiu um pequeno milagre: chama-se Dick Johnson is Dead, e é um filme sobre agradecer uma vida, na hora do adeus. Em uma hora e meia de imagens duras, ternas e, por vezes, muito engraçadas, tornamo-nos testemunhas de uma despedida difícil, inevitável, mas amorosa – e de como o cinema consegue ser um belíssimo quadro do real e um antídoto para o tempo, uma porta para um além onde todos podemos viver e comungar (e onde Dick Johnson, para sempre, estará). Que documentário difícil e bonito.

Som, som, som

Temos duas novas plantas em casa, e a maior chama-se Johnson. A pequena ainda não sabemos; está agora em frente à televisão. A sala está fresca, é preciso ter uma manta para dormir com este tempo ventoso. A lua tem estado bonita, o futebol tem sido bom, Outubro chegou. Ouvi John Moreland: “Before you hang me for my story, Lord, let me be understood”. Apetece escrever. Som, som, som.

The beginning of a new academic ano

Estava a escrever sobre acordar, com a cabeça encostada à janela do carro, a ver o céu e a paisagem e o movimento de tudo, o filme que é a vida quando vista a partir de uma janela de um automóvel. Tinha na minha cabeça o Arizona, e depois o Utah, e depois nada, nenhum sítio em especial; apenas o céu, e o tudo que o céu tem (que é: tudo). Mas é difícil, e quem sabe, talvez inútil, tentar escrever agora, no início de um novo ano académico. Na realidade, e para ser sincero, estava no banco de trás do carro, com janela semi-aberta e o vento a chocar contra a cara. Ruas pouco cheias, que é como quem diz um pouco vazias, que é como quem diz: a acordar. No outro dia passei aqui a pé, nesta avenida, a caminho de casa. Ouvia canções de guerra, de combate, de entrega. Todas do Chefe, claro. Depois fui ouvir, pela primeira vez desde que me lembro de ser pessoa, a canção Photograph, dos Nickelback. É suficientemente orelhuda para ficar na cabeça e invadir-nos os intervalos quotidianos de pensamento, como aquele momento clássico, após o jantar, em que vamos buscar chocolate à cozinha. É, também, suficientemente foleira para se perceber que é melhor, para a minha saúde – para a minha sanidade – ouvir outra coisa (escrevo “ouvir outra coisa” e na minha cabeça começa a tocar time to say goodbye, goodbye-eye-eye. Sacanas). Tenho saudades de ouvir discos bons, ou de ter cabeça para ouvir discos bons, nem sei bem. Por um lado é bom: estou focado, que é como quem diz, comprometido. Por outro, sinto. Comecei a ler Sylvia Plath no primeiro dia deste novo ano académico. Primeira frase: It was a queer, sultry summer, the summer they electrocuted the Rosenbergs, and I didn’t know what I was doing in New York. Depois, ou antes (não interessa, na verdade) estou em casa, e é de manhã; estou descansado, a pensar sobre isto, que é como quem diz: a pensar sobre escrever, e quando levanto a cabeça reparo que estamos, os dois, refletidos no ecrã da televisão, duas figuras no sofá, a beber café, com as tábuas da parede atrás brancas de sol. É uma imagem bonita e imediata. Depois fomos trabalhar. Ouvimos Bach, escrevemos uns bons parágrafos, no meu caso sobre o poder e o dever, sobre o poder do dever e o dever do poder. Aproveito o que recebo, dou o que devo, vivo o que tenho, e o que tenho para fazer. Agora, por exemplo, estou de pé, em casa, a olhar para o espaço para onde vai entrar o armário, e a aperceber-me: a acordar, aos poucos, para o ritmo deste final de ano no qual me encontro. Invade-me a vontade, impele-me o sentido, sorri-me / a / inocência. A dado momento desligamos as luzes, abraçamo-nos, e vamos dormir. Amanhã voltamos a correr, lado a lado: é uma promessa. Ritmo, movimento, e céu, que é como quem diz: tudo.

Álbum, número oito

Estou no meio da pista, e não sei se este é o lugar, ou se é outro, mas depois lembro-me que esta é uma pergunta de quem tem o sentimento como lugar, e o sentimento pode ser muita coisa, porque está dentro de nós, e não sei se este era o lugar, mas senti-me assim, como um adolescente que mais do que passar tardes a ouvir canções vive nelas, aposta tudo naquele lugar onde o som o leva, e o lugar, ontem, eram canções desses tempos, coisas que agora pertencem a um cânone, a um segmento limitado e pré-marcado para passar durante a noite, e não sei se “as pessoas não percebem” o que se passa quando essas canções tocam e estamos lá, porque sentem (vivem?) isso com outras canções, ou com outros filmes, ou com outras coisas, afinal de contas cada um tem os seus sentimentos, cada um teve a sua definição, cada um teve o seu trajeto, e ontem à noite senti-me bem a dançar, estava num lugar bom, o Éme tem uma canção que diz que “um lugar / é tão difícil de encontrar / um lugar” e é verdade, e quando encontras sabes, e ficas, de olhos abertos e pés no chão, uno.

Title: PIERROT LE FOU ¥ Pers: KARINA, ANNA / BELMONDO, JEAN-PAUL ¥ Year: 1965 ¥ Dir: GODARD, JEAN-LUC ¥ Credit: [ ROME-PARIS/DE LAURENTIIS/BEAUREGARD / THE KOBAL COLLECTION ]

Sonhos de ouro

Quando olhei primeiro, antes de mergulhar uma perna, pareceu-me que fosse uma minhoca. Mas ao olhar com mais atenção, e já com as duas pernas dentro do tanque, percebi que era só uma parte de um cabo de plástico, que deve ter caído com o vento. Estava muito calor ao sol, e talvez por isso a água não parecesse tão gelada. Ainda assim os meus sobrinhos perguntaram-me mais do que uma vez porque é que eu não mergulhava a cabeça. Estava com um livro na mão, a ler e a tirar notas, a ver o que é que uma das mentes mais conhecidas do positivismo jurídico tinha a dizer sobre a problemática da relação do direito com a política (spoiler alert: muito pouco). Acabei por mergulhar a dado momento, sem o livro nem o lápis. Às vezes tenho medo de me enfiar dentro de água. Não é uma coisa muito racional, acho que tem mais que ver com o frio do que com outra coisa, como, por exemplo, o medo de me perder. De me enfiar de cabeça na água e de voltar outro, de ali no mergulho deixar alguma coisa no fundo. Mais tarde, com as mãos raspadas e em ferida por terem aparado a segunda queda em jogos de basquete, sentei-me num banco junto ao tanque pequeno. O Jacinto tocava Leonard Cohen debaixo da árvore; estava um céu muito claro, com metade da lua cheia. Vi duas estrelas cadentes, e com binóculos consegue-se ver a cauda de um cometa, um pouco ao lado da Ursa Maior. Quando adormeci, aconteceu-me novamente: sonhei. Sonhar é como um mergulho: parece que quando entramos não sabemos como vamos sair. Nesta noite sonhei que encontrava os Capitão Fausto e lhes dizia que o meu sobrinho Baltasar (número cinco) me tinha confidenciado que tinha cuca-vírus (coisa que ele me disse mesmo, assim de repente, ao jantar). Não sonhei com o Dia do Gafanhoto, de Nathanael West, uma obra-prima da literatura norte-americana que a Snob editou e me recomendou numa das minhas idas semanais à Brotéria (a Snob é uma livraria e editora como uma livraria e uma editora devem ser, com ótimas edições próprias, uma belíssima seleção de livros à venda, e um atendimento impecável, cuidado e pessoal). O Dia do Gafanhoto é o melhor filme noir que vocês alguma vez vão ler; tenho a certeza de que até o “escritor fracassado” de Roberto Alt (também editado pela Snob) concordaria. Mas também não sonhei com o escritor fracassado, embora inconscientemente o tenha feito, nos últimos dias, enquanto acordado. Porque o calor, as ideias, o desejo, os sonhos… percebem? Há uma cena no filme Zabriskie Point, talvez o maior poema alguma vez filmado, em que o personagem principal entra num avião e foge da polícia. Ele já entra no avião transformado; a partir daquele momento a fuga torna-se uma espécie de sonho dourado sobre o deserto, o espaço maior de provação, de liberdade, de amor. Tenho tido alguns sonhos assim, de ouro. Sonhei com a Carol deitada numa piscina, a olhar para o céu, se bem que o céu podia ser os meus olhos, porque parecia que ela me estava a olhar e a sorrir daquela forma muito feliz e natural que ela tem. Hoje acordei e o Estêvão (sobrinho número oito) estava acordado, mas não queria ir para a sala, sorrindo de forma malandra, como quem está a preparar alguma. Enquanto bebia o leite com café pensei em Nanni Moretti a andar por Roma de Vespa, e a mergulhar numa piscina. Roma é uma cidade de verão: faz muito, muito calor. Depois sentei-me à secretária e escrevi no caderno: viver o verão. Tenho muitas páginas de teoria política e jurídica para ler e escrever, assim como algumas páginas de contos e romances onde me refugiar – e, talvez, alguns filmes. Tenho a Carol, tenho a família, tenho os amigos, e tenho o Beiral, e tenho a certeza de um desejo imenso, de me sentar um dia, livre (nem que por um curto momento) de ocupações intelectuais, para me dedicar a escrever uma história. A história é a seguinte:

B (that summer feeling)

Adorava ser criança para sempre. Assim posso usar tshirts com robôs desenhados quando for adulto. O tio dois usava, se calhar eu também posso. Mas e se for advogado? O tio dois é advogado, como o pai e a avó. O mano dois se calhar vai ser, não sei. Não sei o que quero ser quando for grande. Mas não me consigo imaginar para sempre dentro de uma casa. Prefiro estar fora, ao sol, de cabelo rapado. Gosto de filmes e de futebol, mas prefiro brincar, correr. Correr é bom. A mãe corre, e pinta. Gosto de me sujar e de me sentir livre. Lembro me de passar um aniversário da avó nas ilhas, e de estar no cimo de um monte muito verde, com água e nuvens por baixo. Era tudo muito bonito. Acho que já decidi o que quero. Vou ser criança para sempre, ou então vou passar o tempo a visitar montes e terras, e a estar no Beiral. Gosto muito do verão.

Cafés com nome próprio

No sonho eu estava a correr, tal como hoje de manhã, outra vez a correr, desde não sei quando foi a última vez que corri, estava a correr e a ouvir uma canção que estava na lista que fiz para correr, a lista que fiz talvez há um mês atrás, com canções que tinha ouvido no mês anterior a esse, mas esta canção envelheceu bem, porque as canções para correr envelhecem sempre bem, são feitas para durar quilómetros, para durar anos e gerações, e no sonho estou a correr e a ouvir uma canção dessas e a pensar em fazer um filme com a máquina digital mini-dv que encontrei, no meio das mudanças de casa, um filme sobre um personagem que vive num último andar de um prédio, que tem o telhado pejado de gaivotas no verão, gaivotas às quais ele chama “gaivotins” por nenhuma razão aparente que não parvoíce, e ele no verão quer sempre ser escritor, mas não consegue encontrar uma história para escrever, e então torna-se crítico, crítico de tudo, de cinema, de teatro, de música, de leis e de política e de pessoas, e um dia está a arrumar uns caixotes em casa e descobre uma fotografia da mãe, que já morreu, uma fotografia antiga a preto e branco, em que a mãe aparece muito nova e antiga, ao lado de um senhor estrangeiro, também ele novo e antigo, um senhor que sorri, sorri muito, e ele não sabe quem é o senhor, embora suspeite que seja apenas isso, uma pessoa numa fotografia num determinado momento histórico, e começa a pensar escrever uma história sobre isso, sobre o senhor estrangeiro, sobre a mãe ou uma mulher parecida com a mãe, uma portuguesa num país estrangeiro num tempo antigo, e depois no sonho corro e imagino que o crítico sai de casa para ir levar o computador a arranjar, e entra no carro e põe um disco a tocar, e enquanto ouve o disco começa a fazer uma crítica, uma crítica mental ao disco, e enquanto a cuca toca o crítico crítica, as canções passam, e o carro cruzaas ruas do Bairro das Colónias, onde se encontram cafés com nome próprio, cafés tão espetaculares como o Faz Falta e O Especial, e o carro está a virar na rua Cidade de Liverpool e a subir para a rua Cidade de Manchester via rua Cidade de Cardiff, acabando por ir parar à rua da Penha de França, onde o crítico já não punha os pés, quanto mais as rodas, há uns bons anos, quando ainda nem corria mas já gostava de conduzir e ouvir discos, ouvia discos e criticava-os, escrevendo longos artigos na internet sobre editoras lisboetas alternativas, elogiando a energia e juventude de bandas que desapareceram após editarem um disco, é o que é, e eu estou a sonhar que estou a correr e a ouvir uma canção estrangeira muito forte chamada Velodrome e a imaginar o nosso crítico, em formato mini-dv, a descer a Calçada do Poço dos Mouros para a Morais Soares, ao som de uma canção portuguesa muito bonita chamada Travessia, sobre um casal que trabalha durante a pandemia, o carro e a crítica embalados pelas vozes do Tomás, da Tamen e do Louie, enquanto o crítico se embala até à Alameda a pensar na diferença entre discos SSD e discos HDD, e como a RAM se relaciona com a porta e já não há portas de cd, e ainda as placas, e quando me lembro da placa deve ter havido um curto-circuito qualquer na ligação do sonho e acabo por acordar, e depois levanto-me e vou correr, ouvir uma música chamada Velodrome, ter um dia longo, lavar o carro e ouvir um disco no carro, comprar café e ouvir as histórias e lamúrias do condutor de um serviço de assistência técnica, e a verdade é que não sei se a câmara mini-dv está sequer a funcionar, nem sei se os gaivotins que vivem em cima do telhado vão demorar muito tempo a sair, também não sei muito bem se o condutor não era um pouco exagerado nos números que dizia, mas uma coisa que sei é que não me tem apetecido escrever, ou ler, ou ouvir, que recebo estes discos descomprometidos e divertidos que um grupo de amigos muito talentosos consegue produzir em quarentena como uma boa companhia de viagem, que oiço a produção segura e a mistura eclética de dança, balada, hip hop, canción e divirto-me, aguento as idiossincrasias de grupo, típicas destes discos de comunidade, e aprecio a liberdade e amizade que por ali anda, e até consigo ter vontade de conseguir um vinil para pôr a tocar na sala, num sábado de manhã quando a Carol e eu estamos na nossa, mas nada mais, porque já entrei em modo acabar e quando se está em modo acabar não se escreve, escreve-se (gostam deste pun de tese?), e o resto sonha-se, guarda-se, vive-se, para depois. Depois, logo se vê, em canção, palavra ou, até, mini-dv. Tenham um bom verão; vamos falando. Inté.

A grande inocência

Começou, por estes dias, o verão. O verão é o tempo, por excelência, daquele sentimento de vida tão doce e provocador, e ao mesmo tempo tão maldito e destrutivo a que podemos chamar a “impermanência”. É difícil permanecer – estar, ser, ficar – parado no verão, porque ao calor qualquer leveza que não a de espírito torna-se insustentável. Passamos a ser chamados, a cada momento, a lidar com a sensação do tempo presente de forma mais forte e abrasadora (pun intended) do que o normal. Muitas vezes a solução para esta ansiedade mais quente que o habitual é cair, baixar os braços, e ficar num braço de areia ou numa boa e confortável cadeira, entregues ao peso (isto, claro, se uma bacia de água, marítima ou não, não nos poder acolher). Não menos vezes, a solução é aquela diametralmente oposta, de entrar num movimento contra-ciclíco, enfrentando o peso do tempo com o nosso “peso” interior e dinâmico. O Verão é um tempo difícil, especialmente para quem gosta de correr.

As aulas acabaram, enquanto que a tese avançou. Dediquei-me a discutir a grande inocência dogmática e conceptual que é pensar o direito sem pensar no poder, e pensar no direito e no poder sem pensar no político. Arendt é espetacular neste aspecto, abrindo-nos os olhos e os sentidos para a promessa e vida dos conceitos. Tem sido uma boa companhia, agora que não tenho outros livros para ler, e que acabou a última dança dos Bulls (e que vi a vergonha constrangedora que é White Lines) e sobretudo agora que o corrupio público no mundo real é (in)tenso e confuso, confinado a trincheiras demasiado ferradas num tempo duro como é este de pandemia. Apesar das multidões consumistas que o Chiado recebeu este fim de semana, temo que o novo normal traga, mais do que máscaras e desinfetantes, uma sensação de distância terrivelmente exagerada, entre pessoas a ideias, e aquilo a que chamamos a nossa convivência comum. Tenho pensado muito, nesse aspecto, numa frase que li, de Tolentino Mendonça, de que a “normalidade não é um conhecido lugar a que se volta, mas uma construção onde somos chamados a empenhar-nos”. E empenhados temos de continuar, nesta altura presente, em que as confusões são muitas e as incertezas também.

De regresso a casa, depois de um almoço, passei pela Almirante Reis, a avenida mais cinematográfica de Lisboa. No início do mês li um comentário a um vídeo de youtube em que alguém dizia que um filme era tudo o que ela sempre quis fazer, pensar, dizer ou sentir. Há ruas que me fazem o mesmo, ou que me fazem sentir, pensar, fazer ou dizer o mesmo que fiz, nos meus melhores dias, ou mais vivos. E não só a mim, mas a muitos que se declaram nas paredes, escrevendo manifestos ou declarações, desabafos e marcas. A avenida como uma canção ininterrupta, como um espaço veranil, cheio de calor e movimento. Lembro-me de outro texto que li, no início de um mês, de um maluco que ia a um bar, todas noites, para ouvir a mesma canção dos Thin Lizzie, querendo que os rapazes voltassem à cidade, para que toda a inocência que uma canção consegue carregar dentro de si fosse aberta e o enchesse de um sentido, de uma presença.

Mas depois estou num carro, e os Terno estão a tocar e sabe bem, não atrás / além mas aqui, aqui mesmo, e acabo por ir parar a um restaurante em campo de Ourique, com empregados de máscara e luvas, que servem os menus com pinças, e quando olho para a frente a Carol, que uns trinta minutos antes estava com uma toalha na cara a fazer uma figura divertida, está agora com o sorriso instalado, e o sorriso da Carol é devastador (é essa a palavra) porque as bochechas sobem e arredondam-se de forma muito deliciosa, e a linha do lábio fica muito recta e elegante. Tal e qual como na noite anterior, quando fomos agradecer ao café argentino que nos alimentou durante parte da quarentena, embora com uma diferença importante: é que agora, no italiano, a Carol está “sardinhenta”, o que quer dizer que apanhou sol e se vêem as sardas, e não há filme que pague isto, que consiga ser assim, como a imbatível naturalidade do amor que podemos ter por alguém diferente de nós.

Vem aí Junho, também conhecido por época de exames. Celebra-se o primeiro mês de vida dos bébés Emília e Simão, filhos de amigos, cujo primeiro contacto com o mundo ocorre nestas nossas novas condições epidemiológicas. O Verão vai acentuar-se e entrar em vigor, oficialmente, com bandeiras nas praias e férias pelas casas, aumentando a sede de movimento desconfinado. O virús ainda existe, ainda está por aí, e com ele um medo, mas o Mubi abriu a biblioteca e portanto posso pensar em, juntamente com a tese, o direito, o poder e a política, ver alguns filmes. Entretanto, comecei a ler Natalia Ginzburg, junto ao rio, num sábado à tarde. “Vocês – dizia o meu pai – aborrecem-se, porque não têm vida interior”. Acho que tenho tudo para amar.

Março, Abril, Maio

Caro diário,

Já faz algum tempo que não te escrevo. Espero que te encontres bem. Tentei por várias vezes falar-te, mas as coisas que se passavam eram tantas e tão confusas que preferi esperar. Não se deve escrever em turbulência; pode-se viver, mas não mais do que isso. Não sei se te lembras desta frase, que escrevi há uns bons anos, quando sonhava, algo ingenuamente, ser escritor.

Era de um personagem que estava a viajar sozinho durante dezassete horas, num comboio entre Dehli e Jaisalmer, e que tenta lutar com o tempo, o movimento, e o seu próprio conflito interior. Há pouco tempo, ao limpar o computador, deparei-me com ela, e achei que era verdade: só conseguimos falar com um mínimo de justiça das coisas quando elas acalmam, não quando estão ainda a acontecer.

Na realidade, as coisas ainda não acalmaram. Estamos a viver uma pandemia – desculpa por só te avisar agora, mas sabes como é, “mais vale tarde do que” – e há tanta coisa que se passa (tanto desespero, tanto humor, tanta dor, tanta alegria, tanta controvérsia, tanta preocupação, tanta ansiedade, tanto desejo) que apetece mesmo dizer: a vida não pode ser mais vida do que isto. Já estamos nisto há quase dois meses, Março e Abril, e agora vamos para o terceiro, Maio.

Tenho estado bem, a Carol mudou-se cá para casa e temos vivido graças a várias aprendizagens culinárias, desde o básico mas saboroso arroz (o truque está todo em não fazer prisioneiros no refogado) até aos bolos de iogurte mais divinais que podem existir (nesta casa não se faz pão, e bem). O consumo simpático de cerveja (Musa, by the way) e de documentários true-crime Netflix (vejam o The Staircase, é incrível; esqueçam o da Amanda Knox e não percam, por favor, o do Fyre Festival – true-lol ao máximo) também ajuda.

A Carol tem feito muito exercício, eu tenho feito pouco, mas aproveito para ir correr e ouvir alguns bons singles que têm saído, da Phoebe Bridges e das Haim por exemplo. O resto do tempo é com trabalho. Dou aulas à distância e escrevo a tese. Tem sido o melhor período para a tese desde os Estados Unidos. Tentei fazer uma data de outras coisas – um podcast baseado numa ideia de diário, um podcast baseado numa ideia de novela, um podcast baseado num disco de versões – mas desisti.

Porque um dia acordei e percebi que, um, não sou escritor, e muito provavelmente nunca vou sou ser; e depois fui à varanda de casa, olhei para fora, e tomei nota pela milésima-sétima vez que o tempo não pára quando queremos, apenas pára quando achar que faz sentido. Estamos (o país, o mundo) há dois meses em casa, e vamos ficar mais uns tempos assim, entre “recolhimentos domiciliários” e “distanciamento social”, entre necessárias medidas sanitárias que nos fazem parecer figuras de um filme de ficção científica série-z, alternando entre pesados estados legais de limitação individual e opções políticas difíceis e de equilíbrio social controverso, com o projecto europeu no fio da navalha e sem cinemas, teatros, concertos e mar.

Pode-se descrever a turbulência: o vazio das ruas, as flores nas portas e os músicos que se mantêm, desde há quarenta e cinco dias, no Chiado, a tocar fados tocantes, enquanto tudo à volta parece um monumento abandonado, uma maquete em exposição, um futuro que vai ou não vem. Mas falar dela, do que vem, quando tudo está ainda a acontecer? É difícil. É muito difícil.

Por isso, querido diário, vou continuar a viver a rotina que estabeleci, que é o possível, vou continuar a tirar a loiça da máquina (a Carol odeia essa tarefa) e a tentar lidar com os problemas da máquina de lavar roupa (está a verter água); vou continuar a ler os meus livros de teoria política, a tentar perceber o direito da vida e a explorar os limites de um bom refogado, e a ver filmes e séries, a ouvir os discos que valem a pena, e a tentar viver de forma justa o que se passa. Vou te deixando pequenas notas sobre o quotidiano, prometo.

Por exemplo, está um belíssimo dia de verão hoje, muito quente e solarengo, e é dia da Mãe; faz-me pensar que vai correr tudo bem. Rimei, foi sem querer, desculpa-me; da próxima

Tenho cinco dedos. A janela tem dezasseis vidros, uma árvore verde, um monte escuro e um monte branco, de nuvem. O aquecedor range muito. Lembrei-me de Russell Brakefield, o autor de Field Recordings, que me dedicou um exemplar pela música, e pelas milhas. Milhas é uma medida, uma forma de contar e estruturar as coisas que existem. Faz mais sol às sete da tarde do que às sete da manhã, como se o dia estivesse ao contrário. Se calhar é o mundo que está, mas alguém já deve ter feito esta piada. Sinto que vivo mais o dia do que vivia antes, que me preocupo menos com o que vem e o futuro. Um dia é uma certeza, o seguinte uma ficção, e ontem sonhei que um tipo me mostrava como iria morrer. Depois sentávamo-nos a tomar um café. O sol bate na janela, duas cruzes e quatro vidros na madeira. Quantas páginas escrevi hoje, para depois rever, e continuar? Gostava de ler um poema que cheirasse a relva; a Carol disse hoje que tinha saudades do Verão. A Carol está a tirar uma fotografia, neste momento: Carol ao sol, com uma camisola de inverno, e eu gostava agora de escrever um verso, o último de um poema imaginário que começa com “tenho / cinco dedos”. O Estêvão perguntou ao pai: qual é o teu ser? E o teu, qual é?

O novo normal, parte dois

Ela olha-se ao espelho, ele está à porta, at the door, mas não toca nenhuma canção, ainda. Olhos no reflexo, cabelo molhado, uma ode aos tempos que já foram, e ao filme, qualquer que ele seja, que começa… agora? Novo episódio desta audio-novela, sem nome próprio, aqui:

O novo normal

Gosto imenso do balanço do novo disco dos Strokes, The New Abnormal, tem bons sons de sobra. Sim, alguns confortáveis, com os riffs cortados, e aquele croonismo futurista e nova-iorquino blasé da voz, mas eu gosto disso. E gosto muito de Selfless, Eternal Summer e Ode to the Mets, acho graça a The Adults are Talking, e acho que Brooklyn Bridge to Chorus é uma ótima música de festival. E Bad Decisions é a minha canção preferida do ano, até ver, altamente viciante. Fácil, nostálgica, não digo que não. Mas qual o mal? Gosto muito. Gosto muito deste novo normal. E agora vou voltar à escuta.

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