A América

A América é uma ideia que é real. É mesmo, mesmo muito real. Aquelas casas de madeira, com os alpendres e os jardins, as casas todas iguais por dentro e por fora, com pessoas completamente vivas e fodidas, por dentro e por fora, isso tudo que tu vês na televisão e no cinema? A América é assim. É exatamente assim. Mas real. Podes tocar na América, podes beber um copo nos bares da América e andar de carro pelas estradas da América, que é tudo tão, mas tão tão maior que a ideia que tens dela. O céu é mais América, a estrada é mais América, o café (porra, o café) é América-máximo. E sim, é tudo bom, e é tudo mau, e é tudo o que é, bom e mau, médio e normal, é a América. Há racismo na América, e dói. Há violência na América, e dói. Mas há amor e amizade na América, e é bom. Há sonho, há esperança, há luta na América. Há fé, e é complicado, mas há muita fé na América. E nós estamos aqui e eles por lá, um país que é uma ideia, e uma piada, e uma série e um filme e milhões de discos. Milhões de livros. A América é lixada, e é entusiasmante, e é dreamy, é muita coisa. Eu gosto muito da América, e odeio muita coisa da América. Gosto de small towns. Gosto de Bruce Springsteen. Gosto de guiar pelo Texas. Gosto do Arizona. Gosto muito de Ann Arbor, que é uma América entre mil. It may be a long while before the highway / decides to finally set me free. Hoje é o dia em que a América elege o seu presidente. Vou estar atento, a ver o que se passa, na América. A América. Que cena.

Sonhos de ouro

No sonho de ontem estava numa floresta, numa casa (num hotel?) na floresta, e havia bruxas e pessoas com poderes especiais, fenómenos luminosos e místicos, e pessoas que fugiam umas das outras, que não se queriam encontrar. Mas eu encontrava todos, debaixo de uma vindima; estava fresco, matinal, apesar de escuro. Depois estava num aeroporto, num quarto de hotel dentro de um aeroporto, a caminho de um avião que parecia estacionado junto a uma bomba de gasolina de berma de estrada. Depois outra vez o ar, a natureza, o mar ao fundo, qualquer coisa de terra. Por fim, uma sala de concertos, de exibições, de filmes, com muita gente à porta. Sem canções: nunca se canta, nos meus sonhos.

Romance académico, número Uber

Chamava-se Giuseppe e era romano. Tinha 72 anos, e estava divorciado; a ex-mulher tinha ficado a viver no Brasil. Falou muito do seu filho Alessandro, que tinha sido advogado, e agora estava a estudar para ser juiz. Alessandro fala seis línguas e faz três anos que está a preparar-se para os exames, aproveitando para ler sobre outras constituições. “A Constituição italiana”, disse Giuseppe, “diz que Itália é fundada no trabalho”. Eu disse-lhe que as constituições são exemplos de uma promessa, de uma ideia, até da alma de um país. Ele riu-se. Não lhe disse o que fazia, nem que era o meu dia de anos. Não lhe interessava para nada.

Draft note, número 761

I like this house, I really do. During the morning I feel like I’m on the beach. In the afternoon I feel like I’m on the street. At night, I’m wherever the song takes me to. I’m in one of those restaurants that still exists in this town, where the food is good and comfortable, the wine is a joy, and the owners are the best people you’re never going to be friends with (so that you know, I’ve counted three of these gems so far, resisting as they can in post-crisis Lisbon: Batata Doce, Raízes, and A Camponesa). I’m singing a Mountain Goats song while the machine washes the dishes. I’m drinking a decaf while resisting to watch season something of show x, y, z. I have seven articles / chapters about the EU’s economic and monetary union open on my desktop. I also have memories, feelings, a bottle of water, and some books. And Carol, thank God. I’m singing out of my head, and I don’t want to put any real music in here. It’s quiet, and at the same time, full. I like it. I really do.

Na tina

Estou há quase duas semanas com a canção Ronaldo, do Chico da Tina, na cabeça. Já ouvi muita outra coisa, mas não há maneira de não voltar a esta. Parte do sucedido deve-se à sedutora produção do Bejaflor e do Co$tanza (o beat é ótimo, não há como fugir). Outra parte deve-se à forma da declamação: segura, assertiva, e provocadora, típica de quem está mais que à vontade, cheio de confiança. Não sou o maior fã do trap, mas confesso que esta fica – e já agora, sabem o que é que também fica na tina? Este pequeno som do Bejaflor: aqui fica, para que não passe despercebido.

Sobre pensar (demasiado) nas coisas

I’m Thinking About Ending Things é um filme puxado. A primeira metade corre a um bom ritmo, com imagens e diálogos extraordinários, e uma mise-en-scène que constrói muito bem uma tensão absorvente (excelentes atores, quer o casal quer os pais do namorado). Mas na segunda metade o suspense puxa em demasia, ao ponto de se tornar extenuante. A necessidade de encontrar pistas e simbolismos aumenta estupidamente, e a narrativa acaba por se fechar e concluir de maneira demasiado reduzida face a toda a carga que vinha de trás. Há momentos que esta trip misteriosa a um subconsciente pesado se assemelha aos melhores devaneios lynchianos, embora peque, no final, por ao contrário destes, estar sempre a tentar (com muita força) pôr o pé no chão. Ainda assim, é bom ver Charlie Kaufman de volta ao ativo, sempre pronto para nos levar em novas viagens.

Dick Johnson vive

A realizadora Kirsten Johnson conseguiu um pequeno milagre: chama-se Dick Johnson is Dead, e é um filme sobre agradecer uma vida, na hora do adeus. Em uma hora e meia de imagens duras, ternas e, por vezes, muito engraçadas, tornamo-nos testemunhas de uma despedida difícil, inevitável, mas amorosa – e de como o cinema consegue ser um belíssimo quadro do real e um antídoto para o tempo, uma porta para um além onde todos podemos viver e comungar (e onde Dick Johnson, para sempre, estará). Que documentário difícil e bonito.

Som, som, som

Temos duas novas plantas em casa, e a maior chama-se Johnson. A pequena ainda não sabemos; está agora em frente à televisão. A sala está fresca, é preciso ter uma manta para dormir com este tempo ventoso. A lua tem estado bonita, o futebol tem sido bom, Outubro chegou. Ouvi John Moreland: “Before you hang me for my story, Lord, let me be understood”. Apetece escrever. Som, som, som.