Léxico auxiliar

Estou sentado ao balcão da cozinha a comer duas embalagens de sushi barato que estavam em promoção no Uber Eats. Não tenho pauzinhos em casa; vou pegando em cada peça com os dedos, molhando-as na embalagem de soja, entretanto carregada de wasabi. No Japão é normal as pessoas comerem sushi com as mãos, de passarem o sushi pela soja com as mãos. Um tipo em Kanazawa, uma terra com belíssimos jardins, museus e bairros antigos, explicou-me isto ao balcão de um sushi bar, enquanto pegava em grandes peças, verdadeiras “postas” de peixe, com apenas um pouco de arroz, e as enfiava pela goela abaixo.

Costumo contar este apontamento algumas vezes, quando estou num restaurante japonês com família ou amigos. Sempre que o conto, acontece a mesma coisa: continuamos todos (eu incluído) a comer as peças com os pauzinhos, como se nada fosse, como se eu não tivesse dito nada, enquanto eu sei que dentro da minha cabeça este meu apontamento japonês e mundano está a considerar a necessidade da sua própria existência, ou melhor, da sua própria expressão, pensando se não podia ser só isso, uma memória interessante, uma ideia que fica para mim mesmo, como tantas outras, enquanto nós, no mundo exterior, aplicamos as nossas próprias regras, mesmo para coisas que não são originariamente nossas.

Por falar em regras, estou a falar sobre regras por mensagem, sobre o estudo das regras, a dogmática das regras, a filosofia das regras, tudo isso e mais um bocado, com muita soja e bastante wasabi. Lá fora está lua cheia. Quando me levanto para despejar o lixo no caixote vejo, da janela, a Igreja onde me vou casar, muito iluminada. Depois abro uma cerveja e vou para a sala. Não me apetece fazer nada. Não me apetece fazer rigorosamente nada.

A casa está vazia. Tenho só um candeeiro aceso. O copo de cerveja está no chão, junto ao meu pé esquerdo; estou sentado no sofá. Antigamente achava que estes eram os momentos ideais para o transcendente. Depois aprendi que são os momentos ideais para se estar como estou: parado, virado de frente para a televisão vazia. Lembro-me que hoje jogou o Benfica. Apetece-me beber esta cerveja? Não me apetece fazer, rigorosamente, nada. É isso? O que é isso?

Bebo um gole de cerveja, e volto a colocar o copo no chão, junto ao meu pé direito. Ouvi uma canção na minha cabeça em que o cantor me perguntava se eu achava que era o sal da terra. Não acho nada, rigorosamente, pelo menos agora. Acho muita coisa, mas de outras formas. Hoje achei que o mais provável, depois de encomendar sushi barato numa noite de lua cheia, seria encontrar o transcendente. O mais provável seria sentir o transcendente aqui, nesta sala, neste sofá, nesta casa vazia. Mas não. Sinto o sabor da cerveja nos lábios e nos dentes, junto com um bocado de arroz, atrás do molar esquerdo. É tudo tão real. 

Olho pela janela. Não dá para ver se a lua está reflectida no rio. Às vezes isso acontece durante a lua cheia, e é uma imagem muito forte. Não fica bem numa fotografia, pelo menos não numa fotografia tirada com um telemóvel. É terrível ter de ser profissional para fixar certas coisas. Há um barco estacionado no meio do rio, cheio de luzes ligadas. Parece uma esplanada da baixa, no verão, pronta para os Santos populares. Pergunto-me se haverá música para aqueles lados.

Estava no cimo de uma rua, fora da baixa, quando vi pela primeira vez o impacto da lua cheia sobre o rio. Nessa altura já tinha mais de trinta anos, mas ainda não me ia casar. A rua era muito íngreme, difícil de descer; no fundo da rua estava o rio e no rio estava a lua. A rua, no fundo, ia dar à lua. Mas eu não desci a rua. Não fiz nada, fiquei apenas a ver a imagem, da lua no rio, no cimo da rua, sabendo que depois ia para casa e ia-me deitar na cama e adormecer. Não me apetece adormecer, agora. 

Sinto-me pesado. Para ser rigoroso, engordei; para ser rigoroso, não tem sido fácil viver esta pandemia. Até Rick e Morty parece um desenho animado de crianças ao pé da realidade. Não aqui dentro, na casa vazia com um candeeiro ligado e duas embalagens estupidamente baratas e vazias de sushi barato no caixote do lixo. Falo lá de fora, nas ruas onde esta casa e as outras casas dos outros se encontram, nas terras junto às terras dos outros das outras terras, que todas juntas fazem a nossa grande terra que está ao pé de outras grandes terras dos outros, e separada pelo mar de outras grandes terras ainda, e de uma ou outra ilha pelo meio. E o que se passa quer nesta rua ou noutra ou numa outra terra ou grande terra ou ilha chega muito rápido aqui, à casa do copo de cerveja junto ao pé direito, onde passo algum tempo a ver ecrãs cheios de páginas e aglomerados de páginas, cheios de imagens, vídeos, sons e opiniões. E é difícil que o cá dentro não fique afetado pelo lá de fora, porque o cá dentro é a nossa maneira de nos relacionarmos com o que vem lá de fora.

Estou pesado (as calças não precisam de cinto, algo que nunca tinha acontecido) e se calhar o jantar e as duas embalagens tiveram algo que ver com algo. Mas não é transcendente. Vejo fogo e vejo força, vejo gritos e vejo dor, mas não vejo poder – ou tenho medo de o estar a ver, no ecrã do telemóvel. Estou a ver o ecrã da televisão, completamente negro, com uma luz vermelha por baixo. Penso se isto é uma representação do futuro, o transcendente que se faz apresentar enquanto metáfora televisiva. Não. Discuti, por mensagens, o idealismo e o realismo, o cinismo crítico, o declínio de um império. Depois vim para o sofá escrever. Apetecia cinema mas não apetecia filme. Apetecia que a televisão se ligasse e o filme que é cinema começasse a passar, e eu visse, e a Carol chegasse do jantar a que foi e ficássemos os dois a ver, ou a sorrir, e depois a dormir.

Durante a tarde também me deitei no sofá a escrever perguntas. Perdi todas as vidas do Duolingo numa aula de alemão sobre o presente. Há uma coisa que me faz confusão: é ein Glas Milch mas é eine Weinflasche? A Carol encomendou um chocolate de leite com avelãs. Lembrei-me de uma canção dos Delfins que ouvi na rádio do carro da minha mãe numa viagem norte-sul quando tinha menos de quinze anos. No refrão o cantor perguntava-me porque é que eu não era como a Sharon Stone. Eu sei que não era a mim que ele queria perguntar isso, mas pensei o que é que leva uma pessoa a perguntar a outra porque é que essa outra não é como, ou igual, à Sharon Stone. Somos o que somos, pessoas muito complicadas, com muitas histórias, já nos bastamos. Porquê?

Hoje, por exemplo, estive com um amigo e colega de trabalho a beber cerveja. Descobrimos, no final do encontro, que tínhamos feito Erasmus no mesmo semestre, e no mesmo país, e que tínhamos estado, durante esse período, em Bolonha, talvez ao mesmo tempo. E eu lembrei-me de um episódio numa pizzaria em Bolonha, em que um amigo português se pôs a falar com um outro português, e pensei se esse segundo português não era este meu amigo e colega de trabalho. Não era, mas não é engraçada, a coincidência? A cerveja agora está junto ao pé esquerdo, outra vez.

Há um tipo que toca a mesma canção na viola, todos os finais de dia e noites de domingo, no início da Rua Garrett. Parece uma música italiana, de filme de praia. Diz que me vai tocar um fado, um dia destes. Mas depois, sempre que nos cruzamos, ele toca esta canção, um dedilhado alegre, mas ligeiramente melancólico. Na quarentena – a Carol disse e bem, que agora falamos sempre desse período como sendo “a quarentena” – o homem estava sozinho, com os edifícios à volta, dando ao esqueleto da cidade a alma que esta não tinha. Era uma alma triste, mas bonita. Não sei se soava a fim, se a início, mas admito ser muito difícil perceber quando uma coisa acaba e quando uma nova coisa começa. Pelo menos para mim. 

Também me é difícil reagir sobre o que se passa. Há pessoas neste mundo que são maltratadas pelos outros de uma maneira abominável, apenas por serem diferentes quando, como nós, são o que são. Acordam, vivem, dormem, e lutam. Acontece noutras grandes terras, como acontece na rua aqui ao lado, ou nos ecrãs nas nossas mãos, e dói, dói horrivelmente. A dor é dor, não tem grande explicação. O mundo dói, e dói rigorosamente, e está a doer muito. Acho que devíamos fazer para que o mundo doa menos; tenho a certeza que poder, podemos. Podíamos (devíamos?) refundar o nosso léxico, fazer uma revolução em que algo verdadeiramente novo e diferente começasse. Sabemos?

A cerveja ainda não acabou mas já voltou para ao pé do direito. O direito trata das regras, das regras do poder, para limitar e para fazer valer o poder, não trata dos pauzinhos e das mãos, mas da realidade e do futuro. O direito devia ser a representação de um léxico bom, humano, aberto. O direito é meta, meta-tudo. Meta tudo o que não interessa no caixote do lixo, imaginem uma canção assim. Sim, sim, sim; sim, vou voltar a pegar num livro, prometo, um livro que não trate de poderes nem de regras, que não seja meta-nada, mas somente muito-tudo, muito bom.

Mas antes, deixem-me ir à janela, porque não sei se as luzes que vejo são de um segundo barco, ou se são apenas o reflexo do meu único candeeiro no vidro. Já vi; são de um segundo barco, do mesmo tamanho do primeiro. E, à direita, lá está a lua, refletida no rio. À minha frente está uma grua, uma grua que aponta para a lua. Lua, sua, tua: transcendente. Uau. Sabes?

 

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A garganta do gato

Estava escuro. Lembro-me de abrir os olhos e de reparar como as paredes eram altas, sabes? Altas e inclinadas, como naqueles filmes alemães expressionistas, antigos. muito perturbadores Sim, havia uma luz, clara, vinda da janela, que a cortina de plástico (que eu era capaz de jurar a pés juntos que tinha esticado antes de me deitar) estranhamente não bloqueava. Eu estava deitado na cama, com uma perna fora do cobertor porque tinha calor, e sentia que agentes secretos israelitas e agentes secretos iranianos me tinham posto na cabeça a informação toda sobre tudo, e a informação toda é de que tudo, ou seja, o mundo, a vida, as pessoas, o universo todo está minado, comprometido, condenado, perdido e sem remédio, é o que é, e eu estava ali na cama e tinha só de estar consciente disto, de que o segredo tinha sido desvendado e que agora era tudo assim, para sempre sem inocência, para sempre e para o resto da minha vida com este conhecimento terrível, obrigado a andar nos dias apesar disto, como uma espécie de impostor.

Imediatamente depois desta sensação e constatação algo marada reparo que estou num quarto de hotel  no Algarve, anos noventa, e que o sol de Inverno (morno, como que adormecido) cai sobre a madeira escura do soalho. Olho pela janela – parece que estou de pé, agora – e vejo o Minho interior, vinhas e campos verdes e estradas cinzentas claras, e parece-me que é um verão, um de muitos, porque no Minho interior só as estações é que mudam, os anos são sempre os mesmos. É nesse momento, entre o norte e o sul do país, que me apercebo de que estou num sonho. Já estava antes, quando senti que os agentes secretos me tinham colocado numa missão suicida, no quarto do Dr. Caligari.  É tudo um sonho, porque nos meus sonhos venho sempre parar aqui, a quartos de hotel grandes, confortáveis e impessoais, e depois vou sempre para o meio do verde, das árvores, e acabo junto ao mar. Nunca estou numa cidade.

Algures no sonho vou entrar numa espiral de momentos, pequenos fotogramas editados de forma abrupta, em que consigo decorar um ou outro pormenor, como a água a chegar à estrada, o carro parado junto à relva, e a sensação de nadar contra a corrente, contra um arrasto do mar, mas seguro, pacífico. Depois vou-me esquecer, vou continuar a dormir, e depois vou acordar e ver a cortina fechada, tal como eu sabia, com uma ligeira luz do sol a entrar por baixo, a Carol a dormir e o relógio a dizer-me a hora portuguesa. Vou lembrar-me dos sonhos, da sua falsa-realidade, e vou pensar o quanto achava que depois dos trinta anos a idade vinha com mais calma. Mas se calhar não, se calhar é ao contrário: se calhar a partir dos trinta é que começa a acelerar. Penso também que talvez não devesse ler livros de Kurt Vonnegut sobre publicitários-nazis-que-na-realidade-são-agentes-americanos antes de dormir. Ou so it goes.

É sábado e estamos em Copenhaga. Copenhaga é sóbria por fora, nas fachadas dos prédios e dos museus, e bonita por dentro, nos corredores e nas salas, nos balcões das cervejarias, nos bancos dos cafés. Muita luz, bem medida; muito equilíbrio, bem desenhado; muito conforto, bem feito. Nada está em excesso, é tudo muito suave. O pão é bom, o café é péssimo, a comida é excelente, os museus são giros, e é tudo para lá de humanamente caro.

É uma boa cidade para visitar e passear. Há Igrejas luteranas de mármore muito bonitas, e livrarias pequenas com uma ótima seleção de romances norte-americanos e manuais de economia socialista em saldo. Apanham-se alguns bêbados na rua, no metro, e na casa de banho de galerias comerciais – encontrei um que, sem se virar do urinol, me contou uma história surreal sobre um “amigo” português com quem partilhava prostitutas; lembrei-me dele quando, ao chegar ao aeroporto de Lisboa, verifiquei que os urinóis são dinamarqueses (os loucos perseguem-nos). Há muitos bebés também, em carrinhos, a serem passeados nos seus sonhos e dias pela cidade fora. A dado momento estamos a almoçar num balcão com vista para a rua, e temos ao nosso lado uma mãe e uma filha a comer um ovo benedict com uma miscelânea de legumes fermentados e um pão de trigo, enquanto que o bebé (filho da mãe e irmão da filha, presumo) está deitado num carrinho, a dormir, do outro lado da janela, ou seja, na rua. Estão três graus lá fora, nem sei qual a sensação térmica real (um ou dois graus a menos, imagino), e penso que isto deve ter algum impacto na maneira como os miúdos crescem, na forma como uma cultura se desenha, e que esse impacto deve inevitavelmente ter consequências políticas, sociais e económicas. Lembrei-me de Vasco Pulido Valente, do que poderia ter Vasco Pulido Valente escrito sobre isto.

Não sei o que teria VPV escrito sobre o  Louisiana Museum of Modern Art, mas deixem-me que vos diga: é uma pérola de instituição cultural, construída numa encosta sobre o estreito de Kattegat (“a garganta do gato”), com belíssimas e provocadoras exposições. Desde o calor rosa e turquesa das caixas de fumo e luz de Ann Veronice Janssens até às fotografias californianas e impressionantes de Lauren Greenfield e aos desenhos revolucionários e femininos de Nancy Spero. O jardim também é bonito, mas não tanto como o do cemitério de Assistens, no bairro de Norrebro. Adoro a calma de jardins urbanos, da sua calma e harmonia dentro do caos citadino de barulhos e confusões. Os dinamarqueses, tal como os japoneses e os norte-americanos, percebem muito disto, ao fazer cemitérios em jardins, ou vice-versa. Soube bem estar ali.

Na segunda noite em Copenhaga tive insónias (na terceira e na quarta népia; também não tive sonhos). Não havia agentes secretos, nem sequer luz no quarto. Deve ter sido do salmão amanteigado, ou da cerveja meio fumada que a Carol e eu partilhámos, não faço ideia. Deixei-me estar a olhar para o tecto, para as paredes, para todo o lado, enquanto esperava que o sono viesse. Tentei aproveitar o tempo para me consciencializar para mais uma Quaresma. Porque apesar de toda a modernidade e progresso, continuo a gostar de épocas e de estações, de momentos marcados, como a quarta-feira de cinzas e o caminho para a cruz. É uma ótima altura para olharmos para dentro e virarmo-nos para fora, com força e sem medo. E para deixar algumas coisas que estão a mais. Como, por exemplo, escrever.

Não me lembro quando adormeci; sei que não me recordo do que sonhei. Provavelmente, estava num hotel a caminho do mar, e depois de carro no campo, ou então no mar a ir para um hotel, pelo campo. Talvez tivesse existido alguma intriga, alguma espionagem, algum drama civilizacional na minha cabeça, não sei. Acabei o Vonnegut e comecei a ler o Milkman de Anna Burns, que é uma história sobre perceções e medos, sobre mentiras e ridículos, sobre exageros e violência, e sobre crescer no meio de uma guerra civil com contornos políticos e religiosos complicados, na Irlanda do Norte nos anos 70. Talvez me dê noites mais calmas, quem sabe. Sei que ontem li um poema com um verso de que gostei muito, de Sue Kwock Kim: “I am pure onion – pure union”. Santa Quaresma para todos.

 

Rua do Olival blues

De manhã há menos carros e mais passeio; de noite, vice-versa. Vice-versa também para os sentidos percorridos, nas duas alturas do dia, da saída e da entrada. No meio, sempre presente, a estrada de pedra escura, desnivelada, esburacada. Gotta love os poderes públicos lisboetas.

Nas pontas, por onde entro e saio, estão dois restaurantes — um italiano de origem nepalesa e um de “comida da lusofonia”. A rua cobre bastante geografias: há brasileiros e estudantes espanhóis de Erasmus nos prédios do meio, do lado esquerdo de quem parte e no direito de quem regressa. Há famílias, crianças, casais, trabalhadores, desenhadores profissionais com ateliês noctívagos pelo meio, perto das traseiras da Igreja de S. Francisco de Paula. A minha querida Travessa São João de Deus, eleita com orgulho a rua mais florida de Lisboa, aparece depois / antes da Igreja, sempre como uma pequena surpresa. Existe ainda uma pequena mercearia, muito idosa e portuguesa, com uma luz na janela de noite, que diz OMEGA. Há casas em obras e casas com sinal de que estão há venda há muito tempo. Nas paredes encontram-se símbolos anarquistas tapados por suásticas, ou se calhar é ao contrário, não dá para perceber bem.

Um dia, no sentido de regresso, lembrei-me de Georges Steiner, e pensei que género de ensaio cultural este grande mestre do cânone ocidental escreveria se vivesse na Rua do Olival. Será que pensaria na amplitude desta rua a céu aberto, e depois na prisão em que se tornou Wuhan na China, e citaria Camus, quando este escreve, no romance A Peste, que o “hábito do desespero é pior que o próprio desespero em si”? Ou será que faria alguma ligação com o evento do Brexit, com as confusas primárias democratas norte-americanas, ou com a “nova” direita portuguesa? Será que Steiner gostaria da energia mística do novo álbum de Dan Deacon, ou da classe intemporal das novas canções de Destroyer? Ou deixaria as referências para homenagear Kobe Bryant, relembrando como se fosse uma criança, a magia que via o Balck Mamba fazer em poucos passos?

Ou será que Steiner se limitaria apenas, no seguimento dos ensinos de Epicteto, a calar a sua única boca e a aproveitar os seus dois olhos e os seus dois ouvidos para apreciar o mundo à sua volta, ali e para lá da Rua do Olival, em toda a sua complexidade, com todo o seu ruído e toda a sua magnitude, conseguindo, após alguns momentos assim, em pausa, reconhecer ali um importante e provocador silêncio, com mais sentido e presença que tantas palavras escritas?

Estava a passear, numa pausa de estudo, pelas várias salas do andar de cima da Brotéria. Deixei-me seguir no silêncio de paredes brancas e pés direitos altos. Pensei em flores, pensei na fé, pensei no mundo, no(s) sentido(s) das coisas. Parei em frente a uma janela e fiquei a ver o Largo de S. Roque. Havia pessoas sentadas a tomar café no quiosque, enquanto outras estavam de pé nas escadas da Igreja, paradas, a meio caminho da Igreja ou de outro sítio, de outro caminho.

Estava a correr e passei pelas tendas dos mendigos perto do Urban Beach. Numa delas estava colocada a bandeira da União Europeia, como cobertura, mas também (pelo menos parecia) como manifesto. Noutra altura, quando parámos o carro para ir jantar a casa, a Carol e eu vimos, no fundo da rua, uma escavadora, e à frente da escavadora o pastor alemão do chef nepalês, sentado, a olhar para nós. Ficámos parados a olhar para a cena, como se fosse um mistério. Depois / antes, estava sentado no balcão da Musa da Bica a beber a última Severa que havia em stock e a ouvir Sheryl Crow (que me faz sempre lembrar a Alanis Morissette, não sei porquê) e senti naquele momento a certeza de que nunca deixamos de valer pelo que somos e pelo que sentimos.

Mais tarde, ou mais cedo, ou quando quer que tenha sido — o tempo no “ano de tese” é uma aventura fabulosa, fiquem desde já a saber — estava numa associação cultural de bairro prestes a produzir um espetáculo de stand-up falhada (há quem chame ao conceito “concerto musical”), num auditório com algumas décadas de vida, dedicadas, entre muitos ilustres, aos “parodiantes”. Estava à porta, como na nova e muito boa canção dos Strokes, para receber a Carol. E é difícil explicar (it’s hard to explain) a força de uma chegada. Mas é um facto que há tanta vida que se ganha na contemplação e no ser, no estar, sem grandes buscas nem perguntas.

Na Rua do Olival / o caminho é amplo / a estrada escura / e o céu / aberto.

Palavras, explosões

Não se ouvia o helicóptero. Não se ouvia nada, agora que penso nisso. Talvez se ouvisse — talvez fosse necessário ouvir-se — alguém a falar, alguma das pessoas que me acompanhavam e que eram, tal e qual como o seu discurso, se este existisse, apenas som e forma; palavras vazias, sem qualquer corpo ou significado, mas existentes. Uma espécie mutante de ruído branco, ausente e presente ao mesmo tempo. Também não se ouviu nada quando o helicóptero começou a cair; apenas se reparou, como uma mera evidência. A queda contínua, muito lenta e embalada, até se despenhar num pequeno descampado, sem um estrondo, nada. Eu estava nesse momento no cimo do monte, no meio de um caminho de vinhas minhotas, a olhar para o helicóptero, e via corpos que saltavam de dentro, alguns com pernas, outros sem; alguns que se mexiam, outros que ficavam caídos, e que ao caírem abriam os braços e desmembravam-se. Pensei que devia ter havido uma explosão, nalgum momento, ou pelo menos um som, um qualquer barulho. Começou a sair fumo do aparelho. Estava sol, céu azul, algumas nuvens brancas. Sentia dentro de mim um desconforto enorme e insuportável. Mas nada rebentava.

A morte de Suleimani tinha ocorrido há um ou dois dias, iniciando um ciclo de estrondos geo-políticos, culminando na trágica queda do avião ucraniano. Segui as notícias com muita preocupação, temendo por um escalar de violência a nível mundial. Às vezes a maior tensão vem disso, da espera, das possibilidades incertas, da informação que circula, do nada que não conhecemos, da descoberta. A tensão que é transmitida por palavras e silêncios. Estava a ler o último romance de Ben Lerner, The Topeka School, que aborda exatamente esse tema, o da violência cultural e emocional que é fruto do acumular de sintomas, de incapacidades de expressão, de exposição abusiva a demonstrações estéticas contraditórias. “Trauma is the collapse of experience as such”, e é difícil não pensar nos traumas que se repercutem —  quer no Kansas, quer em Bagdad, quer em Lisboa, quer em todo o mundo — por estes dias, nas suas causas mas sobretudo nas suas repercussões, quer políticas  e gerais, quer mundanas, individuais e concretas.

Não sei se o sonho do helicóptero foi resultado disso, da tensão com que o ano começou, ou da releitura dos livros sobre a crise da zona euro, da correção de exames, ou simplesmente de uma assistência compulsiva da série Rick and Morty. Aí não faltam explosões, mortes, injustiças, mas também lições e verdades, como o discurso da psicóloga no final do episódio Pickle-Rick, sobre a importância e o desafio que é reparar, curar e tratar, ultrapassar. Os psicólogos, a terapia e a análise acompanharam muito o meu mês de janeiro. Desde os pais de Adam Gordon em Topeka School, até aos analistas do FBI de Mindhunter (série fantástica, sobre posturas e espaços, procuras e delisusões), passando pelo Joker de Joaquin Phoenix. Gosto da forma como Phoenix dança, mas fiquei conquistado, sobretudo, pelo modo como corre nesse filme, num estilo muito mecânico, com as pernas e os braços muito subidos, como se tentasse levantar vôo.

Não há tanta correria em Marriage Story de Noah Baumbach, a história é muito terra-a-terra. E talvez por isso é que seja uma pequena obra-prima: por dentro daqueles planos próximos, daquela cor quente californiana, daquela música quase infantil e daqueles incríveis actores está um mundo tão bem montado, tão realmente duro e humano. Sabemos que um filme ficou quando nos deitamos e acordamos e ele ainda lá está. Adorei, do início ao fim; acho que a cena do pai, vestido de homem invisível (que argumento genial) a levar o filho a comprar doces numa loja no Halloween é das mais bonitas imagens que vi no cinema, lá em cima com Bill Murray em Tóquio, Giulietta Masina em Roma, e todos os planos realizados por Yasujiro Ozu.

Adam Driver canta muito bem no fim do filme — se ainda escrevesse postais num blog teria feito um com esse vídeo, com o título de uma grande música dos Sonic Youth: “Do You Believe In Rapture?” — mas a verdade é que não tenho ouvido muita música, ultimamente. A Ultra e eu fizemos uma lista de canções que gostávamos que tocassem na festa do nosso casamento; ouvi D’Angelo num Uber no Rossio, numa noite de Domingo, e um belo disco de Mozart num jantar de sexta-feira. O shuffle de temas que me acompanha nas corridas (63,8 quilómetros até agora and counting) já passa despercebido, um ruído branco — outro — que desaparece perante o movimento (nada espetacular, ao contrário do de Phoenix) e as imagens do rio. É difícil correr com frio (este janeiro tem sido gelado) mas tenho conseguido dormir bem.

(Grande canção que vi foi o espetáculo “O Canto da Europa”, do Jacinto, no Teatro D. Maria II. Não deixem de assistir, se tiverem oportunidade; é música ótima para os tempos que vivemos.)

Tenho tentado estar atento, quando saio, ou para a corrida ou para as compras, ou ainda para a faculdade, ao que se passa à minha volta. Reparei que há uma proliferação estranha de novos restaurantes italianos em Lisboa, em particular na zona da Baixa / Santos. Reparei também num flautista na rua da Rosa, num domingo à noite. Vi que as obras no Jardim de S. Pedro de Alcântara já não afetam a vista. Assisti a um espetáculo do Coro de Câmara de Lisboa, e voltei à Luz para ver a máquina que é Gabriel Appelt Pires em ação. Passeámos, a Ultra e eu, pelas laterais da Avenida da Liberdade, tomando nota dos sítios que encontrávamos e almoçando num agradável café de estilo internacional. Escrevi para a tese.

Lembrei-me, com a história do Irão, de outra história, a do Pai e da senhora Húngara. A senhora Húngara era a amiga (amante?) do Pai, uma das quatro personagens principais de uma ideia de romance que tive há muito tempo, chamado O Albacora. Na ideia — no livro — o Pai está a contar-nos a história da sua viagem ao Irão, em trabalho, muito antes desta vaga de explosões, e de como conhece a senhora Húngara num hotel e decide acompanhá-la numa visita aos desertos do interior, a Yazd e aos montes dos Zoroastras, a Persépolis e ao túmulo de Xerxes. O Pai conta, primeiro dentro de um terminal de aeroporto europeu (sentado ao balcão de um bar, de fato sem gravata, a beber uma cerveja belga estupidamente cara), e depois à janela de um avião com destino a Lisboa, a caminho dos anos da Mãe, sobre estar num hotel género riad, a comer tâmaras e a imaginar-se numa festa no salão maior de Persépolis. Pergunto-me se agora — se eu o escrevesse agora — o Pai não pensaria nas ruínas, algumas cheias de marcas de exploradores britânicos do século dezanove, de como elas poderiam desaparecer, não devido ao tempo, que já se viu que o tempo não as consegue vencer, mas devido à guerra, aos mísseis da guerra. Palavras e espaços, destruídos em explosões.

Estava a matutar nisto antes de ir viver um momento de rotina, e de ouvir um testemunho de um amigo querido sobre a guerra colonial, sobre pessoas que morreram na guerra colonial ao pisar uma minar, que morreram com a cabeça nos braços dele, um enfermeiro beirão, e o baixo ventre açoriano espalhado pela selva, sobre memórias que ficam, sobre promessas por cumprir, sobre passeios à Ilha da Terceira para prestar homenagem, fechar memórias, dar testemunho de uma vida, e se calhar daquele último abraço, mesmo que fatal.

Emociono-me com o mundo que uma pessoa consegue ter e carregar enquanto se dedica à ordinária tarefa de existir dentro de uma rotina. Acho isto um dos melhores exemplos possíveis de humanidade; guardar palavras e explosões, vivê-las, descortinando o melhor sentido de ambas. Ou, se calhar posto de outra forma, apenas, e tão só e dificilmente, vivendo.

 

Álbum, vinte / vinte

Estava a subir a calçada do Sacramento quando de repente se ouviu um estrondo, como se algo muito pesado tivesse caído e quebrado no chão. Seguiu-se ao som do estrondo – quase imediatamente, ligeiramente sobreposto até – o som de um grito, de mulher. Os outros peões e eu olhámos em volta, e vimos que no cimo de um prédio pintado de vermelho claro / cor-de-rosa escuro / cor-de-framboesa (escolhe tu a cor, por favor) estava um casal de asiáticos, ele e ela, vestidos exatamente da mesma maneira (calças de ganga azuis e camisola preta), os dois numa varanda com uma mesa no meio, a olhar para baixo, para aquilo que deve ser um pátio ou jardim interior, o qual não dá para ver da rua. Fiquei a olhar para os asiáticos, ele ainda a meio caminho entre uma cadeira e a grade da varanda, como se no fundo da sua vontade e desejo não se quisesse levantar mas tivesse de o fazer, ainda que ligeiramente, ou para perceber o que caiu ou para fingir que estava preocupado, enquanto ela estava agarrada à grade, completamente de pé e decidida, concentrada no que tinha acabado de cair. Fiquei a vê-los por alguns instantes, sem conseguir perceber bem o grau de preocupação pelo sucedido, procurando discernir o que é que caiu (Uma chávena? Um bule? Uma carteira? Uma prenda de Natal?) e onde, em cima de quê, com que consequências. Tirei o telefone do bolso para filmar o momento; quando voltei a olhar a varanda estava vazia. Continuei a andar.

Estou agora em frente a uma elevação de terra que me faz lembrar uma mini-falésia. Por cima e por baixo há uma grande vegetação selvagem e húmida. No meio da vegetação de baixo está um barco encalhado. Passa um comboio na margem de cima, e na esquina da rua ao lado está um tipo a puxar para o gordo a fumar um charro, enquanto dois casais trocam de lugar num Uber que pára em frente a uma cervejeira. Aquele barco não faz sentido nenhum, e apesar dos ares deste bairro, com as suas cervejeiras, galerias, lojas vintage e o restaurante Cais das Colunas, tudo instituições de arte, moda e provocação, percebe-se que a localização do barco não tem nada que ver com qualquer devaneio criativo, e sim ser fruto de um tipo maior de desleixo ou desvario. Imagino, mais tarde, uma pessoa – pode ser uma mulher – que todos os dias passa a vegetação e entra no barco, liga umas luzes e uma aparelhagem antiga, onde sintoniza uma rádio que passa música popular e romântica, e depois abre uma cadeira de praia e põe-se a apanhar sol, numa deliciosa cena de kitsch urbano. Cinco minutos depois de nos afastarmos do barco, e muitas horas antes da minha cabeça imaginar a cena da mulher, ouve-se um estrondo, desta vez de uma explosão. Olhamos para trás e vemos, na esquina do outro lado da mini-falésia onde eu podia jurar que estava o gordo charrado, imenso fumo, e parece-me que alguém explodiu um petardo. Mas não vejo o tipo gordo, não vejo carros, na realidade não se vê ninguém nem nada a mexer, na rua. Deixamos a cena e continuamos a passear. Vamos até à Fábrica Braço de Prata e voltamos para apanhar o carro e ir beber uma cerveja no Ferroviário, a ver o pôr-do-sol sobre o rio e as linhas rosadas do céu, falando sobre pessoas, sobre sociedades de advogados, e sobre os melhores discos do ano (na altura, disse Vampire Weekend e Big Thief; hoje faria menção dos belos trabalhos de Hand Habits e Better Oblivion Community Center). Parece que o Bonga vai dar um concerto no Ferroviário, mais precisamente à meia-noite e um quarto de dia um de janeiro.

Agora é dia trinta de dezembro, penúltimo dia do ano, e estou a andar na rua do Olival, quando uma senhora que vem na direção oposta diz bom dia a um senhor mais velho que está à janela, e pergunta-lhe, literalmente, como vai “isso”, “se vai bem ou se vai melhor”. Passo por ambos e levo-lhes esta gentil interação, altamente generalizada e impecavelmente aberta (o que é “isso”? A vida? O dia? O momento? Uma doença, um filho, uma mulher, um livro, um sonho?) para pensar enquanto observo os prédios novos com ar retro que estão a aparecer na zona de Santos. Entretanto está frio e está sol, uma combinação fabulosa que convida ao passeio. Penso também num diálogo do filme Parasitas, que vi ontem à noite, em que o pai, o Sr. Kim, explica ao filho a diferença entre ter um plano ou não ter plano, na vida. Abro o casaco mas não tiro o cachecol. Gosto do ritmo de tudo isto.

Eu sei no que estás a pensar. Estás a pensar no texto que acabaste de ler – mais concretamente nas imagens do texto, nas relações entre as várias imagens e eventos e pessoas, nos factos e no que eles reproduzem. Perguntas, para dentro de ti, se há uma ideia geral por detrás de tudo isto, se há algum plano maior, alguma construção significante e significativa a que devas prestar atenção. Pensas se calhar no autor, em como é a sua postura a andar; se me conheces, pensas em como é que eu estou, se ainda uso calças de fato-de-treino quando saio à rua (a resposta é: sim, claro). Pensas se o que estou a ver e retratar é real ou não, se aconteceu mesmo, e, se for real, até que ponto é que – wait for it – realmente o é.

Perguntas-te se há mais qualquer coisa, se houve mais qualquer coisa, se falei de tudo ou se deixei algo de fora, naquele momento ou nos momentos seguintes, nos espaços e tempos entretanto, entre tantos. Eu sei bem no que pensas, não exatamente no que pensas, mas nos caminhos por onde passas, aí dentro da tua cabeça e do teu coração, quando te confrontas com momentos, dados, factos, sonhos, pessoas, sentimentos, realidades, ideias, imagens, símbolos, referências e palavras. Se pensares bem, tudo isso, os momentos, dados, factos, sonhos, pessoas, sentimentos, realidades, ideias, imagens, símbolos, referências e palavras que por aí andam, não passam de histórias. Coisas que existem a partir de tudo, mas para lá de tudo ao mesmo tempo. Que se geram e se passam, que morrem e ressuscitam. Que ficam, que vão. Mas que são. Sempre foram, sempre são, sempre serão, contra todo o espaço e todo o tempo. Livres.

Não me lembro exatamente do mês – fui ver às notas; foi a meio de julho – mas um dia fui jantar ao Rei da China. O Rei da China é um restaurante de balcão na Rua Nova da Trindade. Estava para lá ir há imenso tempo, e um dia decidi: este é o dia. Fui sozinho, era de noite. Pedi um ramen, se não me engano, e bebi uma cerveja artesanal portuguesa. Era o único cliente do restaurante; de resto, só estavam no espaço os dois cozinheiros e uma empregada. Ouvia-se uma música eletrónica meio jazzy, que embalava tudo muito bem. Toda aquela mistura – o balcão, a razoável comida asiática, a solidão, as luzes, a música – fizeram-me lembrar o filme Chungking Express.

Foi nesse momento, entre dois goles de cerveja e uma mensagem de telemóvel para o Reino Unido, que decidi escrever qualquer coisa mais “recorrente” e “desenvolvida” (palavras relativamente determinadas e ainda assim abertas), durante um “determinado” período de tempo. Podes chamar-lhe um plano, se quiseres, um plano de histórias, sem necessidade de assinatura ou subscrição, mas sem expectativa de encontro. Um planos de viagens, interiores e exteriores, de atenções e de descobertas.

Não sei o que vai ser, se algo assim como isto, se algo diferente, se fabricado ou relatado, se facto ou ficção, se um diário ou uma crónica, se um poema que se cruza com uma crítica de teatro, se o quê. Só sei que no primeiro dia do ano de dois mil e vinte estava a ressacar no sofá de casa dos meus sogros, com a Ultra a dormir no meu peito e um filme interessante sobre a vida da Nina Simone a passar na TV. Olhei pela janela e vi o rio, e ao fundo o nevoeiro. Havia ali fora um quadro, com o ritmo lento da água misturado com as cores de céu de fim de dia, meio enevoadas, que se tornava um pouco transcendental, graças à natural calma e lentidão do dia e ao meu estado de recuperação festiva. Tomei nota, primeiro mental, e depois por escrito, para começar por aí, pelo início, pelo sentimento e pelo sentido do ano – ou pelo sentimento que faz sentido, ou pelo sentido que é sentimento.

Vou te contando o que vou descobrindo, ou seja, o que vou reparando e sentindo. Prometo, não me vou coibir. Entretanto, tem um bom ano. Vamos-nos vendo.

Abraços, beijos.