Álbum, vinte / vinte

Estava a subir a calçada do Sacramento quando de repente se ouviu um estrondo, como se algo muito pesado tivesse caído e quebrado no chão. Seguiu-se ao som do estrondo – quase imediatamente, ligeiramente sobreposto até – o som de um grito, de mulher. Os outros peões e eu olhámos em volta, e vimos que no cimo de um prédio pintado de vermelho claro / cor-de-rosa escuro / cor-de-framboesa (escolhe tu a cor, por favor) estava um casal de asiáticos, ele e ela, vestidos exatamente da mesma maneira (calças de ganga azuis e camisola preta), os dois numa varanda com uma mesa no meio, a olhar para baixo, para aquilo que deve ser um pátio ou jardim interior, o qual não dá para ver da rua. Fiquei a olhar para os asiáticos, ele ainda a meio caminho entre uma cadeira e a grade da varanda, como se no fundo da sua vontade e desejo não se quisesse levantar mas tivesse de o fazer, ainda que ligeiramente, ou para perceber o que caiu ou para fingir que estava preocupado, enquanto ela estava agarrada à grade, completamente de pé e decidida, concentrada no que tinha acabado de cair. Fiquei a vê-los por alguns instantes, sem conseguir perceber bem o grau de preocupação pelo sucedido, procurando discernir o que é que caiu (Uma chávena? Um bule? Uma carteira? Uma prenda de Natal?) e onde, em cima de quê, com que consequências. Tirei o telefone do bolso para filmar o momento; quando voltei a olhar a varanda estava vazia. Continuei a andar.

Estou agora em frente a uma elevação de terra que me faz lembrar uma mini-falésia. Por cima e por baixo há uma grande vegetação selvagem e húmida. No meio da vegetação de baixo está um barco encalhado. Passa um comboio na margem de cima, e na esquina da rua ao lado está um tipo a puxar para o gordo a fumar um charro, enquanto dois casais trocam de lugar num Uber que pára em frente a uma cervejeira. Aquele barco não faz sentido nenhum, e apesar dos ares deste bairro, com as suas cervejeiras, galerias, lojas vintage e o restaurante Cais das Colunas, tudo instituições de arte, moda e provocação, percebe-se que a localização do barco não tem nada que ver com qualquer devaneio criativo, e sim ser fruto de um tipo maior de desleixo ou desvario. Imagino, mais tarde, uma pessoa – pode ser uma mulher – que todos os dias passa a vegetação e entra no barco, liga umas luzes e uma aparelhagem antiga, onde sintoniza uma rádio que passa música popular e romântica, e depois abre uma cadeira de praia e põe-se a apanhar sol, numa deliciosa cena de kitsch urbano. Cinco minutos depois de nos afastarmos do barco, e muitas horas antes da minha cabeça imaginar a cena da mulher, ouve-se um estrondo, desta vez de uma explosão. Olhamos para trás e vemos, na esquina do outro lado da mini-falésia onde eu podia jurar que estava o gordo charrado, imenso fumo, e parece-me que alguém explodiu um petardo. Mas não vejo o tipo gordo, não vejo carros, na realidade não se vê ninguém nem nada a mexer, na rua. Deixamos a cena e continuamos a passear. Vamos até à Fábrica Braço de Prata e voltamos para apanhar o carro e ir beber uma cerveja no Ferroviário, a ver o pôr-do-sol sobre o rio e as linhas rosadas do céu, falando sobre pessoas, sobre sociedades de advogados, e sobre os melhores discos do ano (na altura, disse Vampire Weekend e Big Thief; hoje faria menção dos belos trabalhos de Hand Habits e Better Oblivion Community Center). Parece que o Bonga vai dar um concerto no Ferroviário, mais precisamente à meia-noite e um quarto de dia um de janeiro.

Agora é dia trinta de dezembro, penúltimo dia do ano, e estou a andar na rua do Olival, quando uma senhora que vem na direção oposta diz bom dia a um senhor mais velho que está à janela, e pergunta-lhe, literalmente, como vai “isso”, “se vai bem ou se vai melhor”. Passo por ambos e levo-lhes esta gentil interação, altamente generalizada e impecavelmente aberta (o que é “isso”? A vida? O dia? O momento? Uma doença, um filho, uma mulher, um livro, um sonho?) para pensar enquanto observo os prédios novos com ar retro que estão a aparecer na zona de Santos. Entretanto está frio e está sol, uma combinação fabulosa que convida ao passeio. Penso também num diálogo do filme Parasitas, que vi ontem à noite, em que o pai, o Sr. Kim, explica ao filho a diferença entre ter um plano ou não ter plano, na vida. Abro o casaco mas não tiro o cachecol. Gosto do ritmo de tudo isto.

Eu sei no que estás a pensar. Estás a pensar no texto que acabaste de ler – mais concretamente nas imagens do texto, nas relações entre as várias imagens e eventos e pessoas, nos factos e no que eles reproduzem. Perguntas, para dentro de ti, se há uma ideia geral por detrás de tudo isto, se há algum plano maior, alguma construção significante e significativa a que devas prestar atenção. Pensas se calhar no autor, em como é a sua postura a andar; se me conheces, pensas em como é que eu estou, se ainda uso calças de fato-de-treino quando saio à rua (a resposta é: sim, claro). Pensas se o que estou a ver e retratar é real ou não, se aconteceu mesmo, e, se for real, até que ponto é que – wait for it – realmente o é.

Perguntas-te se há mais qualquer coisa, se houve mais qualquer coisa, se falei de tudo ou se deixei algo de fora, naquele momento ou nos momentos seguintes, nos espaços e tempos entretanto, entre tantos. Eu sei bem no que pensas, não exatamente no que pensas, mas nos caminhos por onde passas, aí dentro da tua cabeça e do teu coração, quando te confrontas com momentos, dados, factos, sonhos, pessoas, sentimentos, realidades, ideias, imagens, símbolos, referências e palavras. Se pensares bem, tudo isso, os momentos, dados, factos, sonhos, pessoas, sentimentos, realidades, ideias, imagens, símbolos, referências e palavras que por aí andam, não passam de histórias. Coisas que existem a partir de tudo, mas para lá de tudo ao mesmo tempo. Que se geram e se passam, que morrem e ressuscitam. Que ficam, que vão. Mas que são. Sempre foram, sempre são, sempre serão, contra todo o espaço e todo o tempo. Livres.

Não me lembro exatamente do mês – fui ver às notas; foi a meio de julho – mas um dia fui jantar ao Rei da China. O Rei da China é um restaurante de balcão na Rua Nova da Trindade. Estava para lá ir há imenso tempo, e um dia decidi: este é o dia. Fui sozinho, era de noite. Pedi um ramen, se não me engano, e bebi uma cerveja artesanal portuguesa. Era o único cliente do restaurante; de resto, só estavam no espaço os dois cozinheiros e uma empregada. Ouvia-se uma música eletrónica meio jazzy, que embalava tudo muito bem. Toda aquela mistura – o balcão, a razoável comida asiática, a solidão, as luzes, a música – fizeram-me lembrar o filme Chungking Express.

Foi nesse momento, entre dois goles de cerveja e uma mensagem de telemóvel para o Reino Unido, que decidi escrever qualquer coisa mais “recorrente” e “desenvolvida” (palavras relativamente determinadas e ainda assim abertas), durante um “determinado” período de tempo. Podes chamar-lhe um plano, se quiseres, um plano de histórias, sem necessidade de assinatura ou subscrição, mas sem expectativa de encontro. Um planos de viagens, interiores e exteriores, de atenções e de descobertas.

Não sei o que vai ser, se algo assim como isto, se algo diferente, se fabricado ou relatado, se facto ou ficção, se um diário ou uma crónica, se um poema que se cruza com uma crítica de teatro, se o quê. Só sei que no primeiro dia do ano de dois mil e vinte estava a ressacar no sofá de casa dos meus sogros, com a Ultra a dormir no meu peito e um filme interessante sobre a vida da Nina Simone a passar na TV. Olhei pela janela e vi o rio, e ao fundo o nevoeiro. Havia ali fora um quadro, com o ritmo lento da água misturado com as cores de céu de fim de dia, meio enevoadas, que se tornava um pouco transcendental, graças à natural calma e lentidão do dia e ao meu estado de recuperação festiva. Tomei nota, primeiro mental, e depois por escrito, para começar por aí, pelo início, pelo sentimento e pelo sentido do ano – ou pelo sentimento que faz sentido, ou pelo sentido que é sentimento.

Vou te contando o que vou descobrindo, ou seja, o que vou reparando e sentindo. Prometo, não me vou coibir. Entretanto, tem um bom ano. Vamos-nos vendo.

Abraços, beijos.