Marty Toca os Blues, o disco

Saiu hoje o disco Marty Toca os Blues. Foi gravado entre os meses de Novembro de 2017 e Fevereiro de 2018 pelo Filipe Fernandes em Londres e por mim em Lisboa. Fiz as canções e toquei viola, guitarra elétrica e cantei; o Filipe tocou bateria, teclas, lap steel guitar, distorções e uma segunda voz. O Adriano Fernandes, irmão do Filipe, tocou baixo. A produção ficou a cargo do Filipe e de mim, enquanto que a mistura e a masterização foram feitas só pelo Filipe. A edição é de autor. A fotografia da capa é da Sara Asseiceiro.

O disco tem dez canções, feitas em diferentes alturas ao longo dos últimos seis anos, mas trabalhadas e terminadas antes e durante as gravações no passado mês Novembro. Não é um disco de blues no sentido “técnico” do termo. Se tivesse de o caracterizar, diria que é um disco Outono-Inverno-Primavera, bom para se ouvir em casa, num domingo à tarde, com a chuva a cair do outro lado da janela, uma manta bem quentinha por cima e uma chávena de chá ao lado. 

Sobre o disco, escreveu o João Pedro Vala: 

O Marty não tem como parar. Foi sempre assim desde que me lembro. Enquanto penso se este texto não será demasiado intrusivo, ele escreve um post, enquanto hesito entre uma palavra ou outra, ele cria uma malha do caraças na guitarra. Enquanto tento decidir se está ou não demasiado frio para ir ao cinema, já ele está a chegar à Barata Salgueiro.

Existe uma urgência em tudo o que o Marty faz que atira às malvas todas as poses, que dispensa as metáforas ou construções poéticas porque essas coisas todas são para quem não diz o que quer dizer. Todos nós sabemos que quando o Marty canta ‘acordo e ligo o ecrã’ não está a querer falar da alienação causada pelas novas tecnologias ou a querer rimar com ‘manhã’. Se ele nos diz que acordou e ligou o ecrã podemos ter a certeza absoluta de que foi exactamente o que ele fez. E isso é tão refrescante que parece mentira.

Marty Toca os Blues é, percebemos rapidamente, um álbum sobre um amor que acabou, mas é muito mais do que isso. É um álbum de um tipo que troça consigo mesmo e que parece escrever álbuns como quem nos conta a sua semana. O Marty Toca os Blues é, no fundo, um álbum de um tipo exactamente como nós, só que muito mais fixe. De um tipo que só quer correr para o tempo passar. E ainda bem, porque bandidos como ele foram feitos exactamente para isso.

Os agradecimentos vão para o Filipe, por ter tido a vontade, o tempo e a criatividade para ajudar a trabalhar de forma minimamente decente um conjunto de canções idiossincráticas para se tornarem num disco. Um obrigado ao Adriano pelos ritmos e baixos, e ao meu irmão Jacinto pelas primeiras escutas e pelo empréstimo dos microfones para gravação.

O disco está disponível nos serviços de streaming usuais, como Spotify, Apple Music e etc. Podem também ouvi-lo no Bandcamp.

Boas escutas.

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Lisboa

“Lisboa não é boa sem ti por cá. Ando muito à toa, sem ti por cá. E sinto, quando desço ao Rato, que és a única sacana na cidade que me pode aturar.

E Lisboa não é boa sem ti por cá. A baixa não tem coroa sem ti por cá. E eu sinto, quando estou no Chiado, que és a única sacana na cidade que me pode salvar.

E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína, mas por ti, miúda, eu sei que voltaria. E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína. Mas por ti, miúda, eu sei, que voltaria.

Lisboa não é boa sem ti por cá. Ando pelas lonas, sem ti por cá. E eu sinto, quando vou de carro que és a única sacana na cidade que me (a única sacana na cidade que me; que és a única sacana na cidade que me) pode perdoar.

E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína. Mas por ti, miúda, eu sei que voltaria. E eu perdi uma amiga, perdi uma heroína.

Mas por ti, miúda, eu sei que voltaria.”

Tradução (médio-livre) de “New York” de St. Vincent, do álbum MASSEDUCTION, Loma Vista Recordings, 2017.

Dez canções para começar a semana

1. May your kindness remain, Courtney Marie Andrews. Um vozeirão country numa música que vai crescendo aos poucos em potência e beleza.

2. What a time to be alive, Superchunk. Os Superchunk vão voltar em breve com mais do mesmo, o que é sempre bom. Canção directa ao assunto e com um refrão mobilizador.

3. Every time the feeling, Nap Eyes. Rock maduro, a lembrar os Velvet Underground, com um balanço muito porreiro e simpático.

4. Jesse, Frankie Cosmos. Bom regresso de Greta Kline após dois anos. É mais do mesmo, e como no caso dos Superchunk, é isso que se quer. Pop de quarto limpa, simples e bonita. Siga.

5. USA, Jeff Rosenstock. Um disco de punk-rock sempre em frente, que bebe muito na força dos Pixies, e uma canção que é uma viagem autêntica de saltos e destruição.

6. Follow me down, Renata Zieguer. A voz lembra-me a Natalie Pratt, terna mas assertiva ao mesmo tempo. O ritmo é divertido e o tom deslumbrado; prevê-se aí um grande álbum.

7. 2 minutes, cupcakke. O beat e o flow da menina são contagiantes. Às vezes, como em Duck Duck Goose dá-lhe para uma javardeira tremenda, mas há aqui talento. O disco tem força e swag: há rapper para dar força neste início de ano.

8. Soul no. 5, Caroline Rose. A primeira canção assumidamente pop e que ouvi este ano. Vai soar bem em viagens de carro e corridas soltas

9. Taste, Rhye. Bom som dos Rhye, suave e sedutor, para entreter.

10. You are here, Yo La Tengo. O trio ternura regressa com um álbum em Março. Por agora há quatro canções de “There’s a riot going on” disponíveis para escuta. À primeira, é o calor de sempre com um travo mais beatlesco do que o normal. Ou seja, bom, bom, bom.