Os últimos dias nisto

E saio do teatro e vou para casa. E penso nas referências a Pasolini que a peça tem. E penso no bom trabalho dos actores a lidar com aquela violência e misericórdia que é ser uma personagem de Máximo Gorki. E oiço as canções, italianas e alemãs que soaram, e estou de casaco aberto, porque a noite está fria mas eu estou quente. E desço a rua Áurea e oiço um dedilhado de uma guitarra reverberada. E a melodia está no limite do foleiro mas até calha bem naquele momento. E subo as escadas do elevador de Santa Justa e vejo o tipo de rastas com a guitarra a tocar. E fico nas costas dele, de frente para os três casais que se sentaram nas escadas a ouvi-lo. E depois passo-lhe pela frente e deixo-lhe uma moeda e sigo o caminho de volta. E depois irrito-me por a paz ser quebrada por um táxi com a janela aberta a disparar kizomba a volumes impróprios. E digo ao táxi “chiu!” enquanto ele desaparece. E continuo a andar e olho para a direita e vejo à porta do metro um casaco vermelho com duas mãos dentro e depois olho para a esquerda e vejo a rua e depois continuo. E apetece-me ouvir uma canção, não a reverberada nem a kizomba, mas uma que me dê abrigo. E então tiro os édefones e ponho a canção a tocar. E tenho de desligar os édefones e de voltar a ligar mais duas vezes porque o meu telefone está maluco e entra em modo voice-over quando se inserem os édefones. E depois já está tudo bem e estou no Terreiro do Paço e não está quase ninguém por lá e eu olho e penso “uau, está uma noite bonita” e sento-me num banco de pedra. E o banco de pedra está frio e a canção está alta demais e eu carrego no botão e ponho três canções para a frente. E viro para a direita e passo ao lado da Marinha e olho para o rio e depois olho para o chão e depois olho em frente. E enquanto ando oiço a canção. E a canção diz “sê feliz”. E eu até sou feliz e estou contente. Contente com a forma como os dias correm. E a canção diz para eu não sentir a falta. Mas eu sorrio e baixo a cabeça e ainda sinto a falta. Ouço a canção, deixo de sorrir, levanto a cabeça e suspiro. E ainda sinto a falta. E é o que é. É o que é. Onde eu pertenço — é o que é. E estou de mãos nos bolsos e mal a canção acaba desligo os édefones e continuo a andar. Onde eu pertenço, é o que é.