O Inverno

O Inverno é uma cidade pequena com dois nomes, ambos começados pela letra ‘A’, localizada no norte desse país conhecido como Estados Unidos da América. Uma cidade pequena, numa sexta-feira à noite, carregada de neve pelos passeios e pátios e estradas, pelos tectos das casas de madeira que parecem ter saído de uma maquete gráfica do Wes Anderson, pelas ruas com os candeeiros ligados e sob o céu escuro mas muito (mas mesmo muito) claro. As ruas que estão adornadas com os nomes dos muitos bares que existem, nomes escritos em letras grandes e diferentes, algumas em neons, algumas mais estilosas. Bares com grandes janelas e luzes baixas e paredes de tijolo riscadas com nomes de bandas de rock n’roll. Ou então bares com cadeiras e mesas “de design” e barmans armados ao pingareiro e um mestre de sala que parece um detective do Law and Order: tough, esguio e canastrão como tudo. Ou outros bares, mais universitários, escondidos debaixo de escadas, com luzes baixas e grandes balcões de madeira como se fossem saloons de cowboy. Bares esses cheios de pessoas, e de álcool, e de pessoas alcoolizadas pela vida, pelo frio e pelo desejo. Bares esses onde se bebe uma pats blue ribbon por tuta e meia e se conversa sobre o mundo de borla e ainda se apanha com Thundercat nas colunas da sala. Bares onde se está até fechar, quando se passa de novo para a rua e rapidamente para uma loja de pizzas (ou pizzaria, se preferirem) local. O dono, um siciliano imigrado em Nova Iorque (com cara de siciliano imigrado em Nova Iorque) agarra-nos a mão com força, depois de dois dedos de conversa em italiano sobre Ann Arbor, e diz, com os seus olhos muito esbugalhados, do you get it? Do you capisici, caro? e eu digo que sim, sem perceber o que é que é para perceber, e ele ri-se. Sim, o Inverno é isso, uma narrativa absurda às três da manhã numa pizzaria, enquanto na televisão passam os jogos olímpicos de inverno. E é de novo as ruas da cidade, semi-nevadas, cujos respectivos nomes estão escritos em letras brancas e afixadas em placas verdes penduradas nos semáforos. São nomes colocados e iluminados de forma muito iconográfica, como se cada rua fosse uma instituição, ou o título de um conto ou, quem sabe, um sentimento. O Inverno é uma narrativa afectiva de South State, Liberty, North University, Packard, Hill, Hoover, Oakland, Huron, Main — entre tantas outras emoções. Todas elas calmas, mas assertivas; serenas, mas profundas. Por vezes aborrecidas, mas pelo menos justas. O Inverno é um sentimento misto, e é a inexistência de qualquer promessa ou ideia de futuro. É um presente mais forte do que o costume, como uma canção instrumental que nos envolve sem darmos por ela, ou um filme que não pára de nos visitar em sonhos. O Inverno, no fundo, é um caminho para casa. Difícil, mas bonito.

A neve lá fora

A neve lá fora, trazida por tempestades nocturnas que enchem as ruas, as janelas e os tectos. A neve lá fora e a aumentar, caindo de forma pesada pela janela do meu quarto. A neve lá fora sobre os passeios largos, as placas verdes das ruas e avenidas cujos cruzamentos dariam bons títulos para contos, como State e Huron, Packard e Hoover, Oakland e Hill. A neve lá fora e as pessoas com casacos, gorros, luvas ou o que for com algum símbolo azul e / ou amarelo e aquele ‘M’ em toda a parte. A neve lá fora e a minha cara embrulhada no cachecol que a minha Mãe me fez, com as mãos para dentro do casaco como um hustler de filme em busca de sarilhos, aproveitando o frio na cara e os tesouros desta cidade catita. Não sei porquê lembro-me de uma fotografia icónica de James Dean enquanto ando, e à noite apercebo-me que é o aniversário do seu nascimento. A neve lá fora e um velho mas belo cinema com um organista a dar show antes da sessão começar. A neve lá fora e o meu corpo dentro de uma casa boa junto à rua, ou de uma sala de investigação incrível, dentro de uma faculdade de pedra com condições para lá de top, ou de um pequeno e quente quarto com uma cama alta. A neve lá fora e Ann Arbor com os seus cafés, restaurantes, cinemas e salas de concerto, as suas ruas e arcadas, as suas lojas e as suas pessoas, os seus bares e a sua cerveja, os seus ginásios e a sua universidade a receber-me abertamente, como se nunca daqui tivesse saído. A neve lá fora e o bom de tudo isto, da chegada a este pequeno paraíso académico numa América perdida e do conforto que imediatamente sinto. A neve lá fora e eu, cá dentro, a aquecer, sem entusiasmo nem passado, só com liberdade e presente. A neve lá fora e tudo o que precisei para “chegar” e assentar foi um gabinete, uma noite bem dormida, uma biblioteca cheia de livros, um passeio até ao supermercado cooperativo, uma ida ao cinema para ver a nova obra-prima de Agnès Varda (se têm um pingo de humanidade dentro de vocês por favor vão ver Visages Villages, um road movie incrível sobre arte, pessoas e vida), um quarto quente numa casa simpática e uma (lindíssima) canção de Stephen Malkmus. A neve lá fora e a mesma previsão para os dias que se seguem: trabalho, cinema, ginásio, e calor. Tenham um bom carnaval, que o meu será assim.