Narrativa del camino – o dia seguinte e final

Não acordei durante a noite. Acordei só com o despertador. E depois levantei-me e tomei banho e fiz a mala e guardei a mala na sala das malas e fui tomar o pequeno-almoço. Chocolate e churros, um croissant e um café com leite. Isto porque “o trabalhador merece o seu salário” (inserir emoji de piscar o olho). O croissant veio com garfo e faca. Ri-me. Comi tudo e depois fui até ao gabinete do peregrino pedir a compostela. Cheguei e estava fechado. Só abria às dez. Então decidi ir à catedral. Cada subida era boa, cada descida um horror. A minha perna, coiso e tal. Podia ir a uma farmácia, mas enfim, coiso e tal. Entrei na catedral e sentei-me por uns momentos largos a rezar em frente ao altar. Rezei sobre a viagem, sobre o ano, sobre as pessoas deste ano, sobre o próximo ano, sobre os desejos para esse ano, e etc e é o que é. Depois levantei-me e fui rezar ao túmulo de São Tiago e abraçar a imagem do Santo. Saí e fui comprar três conchas para recordação de Natal. Apanhei a mochila no hostel e guardei o chapéu lá dentro. Já não estou em modo caminhante. Fui ao gabinete do peregrino e pedi a compostela. Depois de ma concederem segui para a estação de autocarros. Pedi o bilhete para Fátima e fui comprar comida ao supermercado. Antes de entrar meti conversa com dois peregrinos, um alemão e um sul-coreano, que iam até ao Porto. O sul-coreano tinha feito parte do caminho francês, o alemão estava a andar desde Genebra. Cerca de cem dias, disse-me ele. Mudou a minha vida, disse-me ele. Sou uma pessoa nova, disse-me ele. Depois falei com um tipo de Taiwan que estava a viajar por várias cidades europeias. Não tinha feito o caminho. Fumava, ouvia música asiática no iPad e adorava Lisboa. Fiz a viagem parte em conversa, parte a dormir. O condutor era português e trocou com outro condutor, também português, na estação de serviço de Santo Tirso. No Porto fizemos uma pausa de vinte minutos. Comi a sandes e bebi o sumo que tinha. Depois o autocarro seguiu. O segundo condutor viu um saco num dos bancos da frente que não sabia de quem era e perguntou se era de algum dos (comigo) cinco passageiros que estava no autocarro. Dissemos todos que não. Ele abriu o saco e disse “são coisas de mulher”. Voltou para trás e deixou o saco na rodoviária. Seguimos e em Albegaria-a-Velha voltou o primeiro condutor. Perguntou onde estava o saco dele, que pela descrição era o saco que o segundo condutor deixou na rodoviária. O segundo condutor disse-lhe o que fez. Quando arrancámos o primeiro condutor ficou cerca de uma hora e meia (que foi basicamente o tempo de chegarmos a Fátima) a chamar toda a espécie de nomes ao segundo condutor por ter deixado o saco dele na rodoviária. Chegámos a Fátima a horas e estava frio. Comprei o bilhete para Lisboa e fui até ao Santuário. Era de noite. Acendi três velas porque queria rezar sobre três coisas. E rezei um terço na capelinha das aparições enquanto dois miúdos brasileiros brincavam à apanhada à minha volta. Depois levantei-me e arrastei a perna de volta para a estação. O Santuário tinha pouca gente. Quando os espaços estão vazios sente-se a sua presença com mais força. Este espaço tem qualquer coisa de especial, acredite-se ou não no milagre. Não vim cá no centenário. Foi bom vir agora. A caminho da estação passei por dois, três, cinco, seis pessoas a correr. As mulheres tinham todas ténis cor-de-rosa. Os homens tinham todos camisolas escuras. E é isso. A estação rodoviária de Fátima fecha às oito da noite mas o último autocarro sai às oito e meia. Portugal bestial. Fiquei com um americano de São Francisco e com um casal de sul-africanos e um tipo português calado à espera do autocarro e ao frio. O americano falou durante um bocado e depois calou-se. Os sul-africanos só queriam falar. Não se calavam. Mas eram simpáticos. O senhor falou comigo durante toda a viagem sobre a África do Sul. Os problemas históricos da África do Sul. A situação actual da África do Sul. O futuro da África do Sul. Fiquei a saber tudo. Em resumo, diria que existe esperança, mas algum ceticismo. Disse-lhe que percebia. Estava cansado e a perna doía-me mais, mas disse-lhe que percebia. Fiz os possíveis por ouvir o senhor sul-africano com atenção e dizer-lhe que sim, que percebia. Depois em Lisboa despedi-me e fui apanhar um táxi. O taxista só falou no fim e desejou-me bom Natal. Gosto de pessoas simpáticas. Cheguei a casa e entrei ao pé coxinho. Jantei e pus a perna em gelo. Depois fui-me deitar. Cheguei ontem à Catedral de Santiago mas sinto que a viagem só acabou hoje. As viagens só acabam quando te deitas na tua cama e acordas no dia seguinte. Essa é a regra.

Adormeci com esta canção na cabeça. Cantei-a muito ao longo do dia, quer na sua versão original quer na versão portuguesa que ando a escrever mentalmente desde há uns meses para cá. A cantora Julian Baker disse uma vez, sobre a canção Badlands, que era uma música desavergonhadamente triunfante. Acho que é a melhor maneira de caracterizar Bruce Springsteen em geral. Um tipo sem medo de ser grandioso, romântico, épico e descarado. Esta canção, Thunder Road é tudo isso. E talvez seja por isso que me diga alguma coisa. Motiva, toca, não sei. And my car’s out back / if you’re ready to take that long walk / from your front porch to my front seat / the door’s open but the ride ain’t free. Não é isso que é uma viagem? Não é isso que é uma aventura? Uma liberdade, um descaramento, uma descoberta, uma  enorme “estrada de trovão” para o desconhecido?

O caminho de Santiago foi a viagem que tive em 2017. Soube-me muito bem, sob vários aspectos (excepto no físico). Mas nada que ficar de perna para o ar e a tomar anti-inflamatórios por dois ou três dias não cure. A vida segue, e a estrada também. Foi o que foi. A próxima viagem será o que será. Regresso ao caminho? Um dia, talvez. Mas agora, o trovão vai ser outro. Já falta pouco. Fim.

Narrativa del camino – dia três

Há atitudes e há atitudes. E há momentos em que pensamos que podemos fazer as coisas de outra maneira. E depois há momentos em que fazemos as coisas da maneira que for. E quando começamos a fazer as coisas, podemos parar. Podemos sempre parar. Podemos desistir, dizer não — “just say não” — ou ‘chau, au revoir, adieu, bye bye, non te quiero más. E há consequências e tal, mas pronto, poder parar podemos. Mas podemos também continuar. Querer seguir. Acabar o que se começou e, olha, ver no que dá, salvar a cara, não morrer na praia. Por vezes, porque se quer mesmo. Por vezes, por mero orgulho. Por vezes, por mera estupidez. Por vezes, porque é o que tem de ser. Por vezes, por todas as razões juntas e alguma crença de que se vai conseguir.

Digo isto pelo seguinte. São sete e cinquenta da manhã. Está escuro como breu e estou no meio de um caminho de bosque com a lanterna do meu telemóvel na mão. Está um frio de merda e vou a coxear da merda da minha perna esquerda. Tenho a merda da barba húmida e a merda das minhas luvas não protegem a merda das minhas mãos do frio. E há uma merda de uma seta que aponta para a esquerda mas que na realidade devia apontar em frente e então em vez de ir em frente vou por um caminho à esquerda e acabo a subir a merda de um monte enquanto vou magoando a merda da perna e depois desço a merda do monte no meio da merda das árvores e vou parar à merda de um riacho e não vejo nem uma merda de uma seta nem uma merda de um marco e então volto para trás e passo por uma merda de uma casa que parece estar abandonada e ouço a merda de barulhos que parecem ser de pássaros ou outros animais que não consigo ver porque acho que já disse que está uma merda de escuro e estou só com a merda da lanterna do telemóvel e sigo de volta para o caminho e vejo a merda da seta a apontar para a merda da esquerda e vou em frente como devia ter ido e — sabem o que aconteceu? — passados vinte metros está outra seta que continua a mandar em frente. E é a vida. E segue-se a seta.

Antes: despedi-me de José e deixei-lhe duas frutas que tinha comigo e algum dinheiro para o pequeno-almoço. Depois fui tomar o pequeno-almoço — torrada e café con leche, tendo guardado o queque de brinde (não falha) para a viagem — e pus-me a andar. Na televisão do café davam notícias sobre as eleições catalãs. Continuava a coxear tanto ou mais que ontem. Às sete e trinta e sete vejo o primeiro marco, que aponta quarenta e dois quilómetros até Santiago. Respirei fundo. E segui.

Passei a maior parte da manhã a pensar se devia seguir ou não. Se devia parar nalgum sítio e só continuar amanhã. Ver o que é que se passa com a perna. Mas depois pensei que se já fiz quarenta quilómetros em cada um dos dois últimos dias, porque não continuar? E então continuava. E rezava as dezenas (duas, de manhã) e pensava em coisas. E não encontrava outros peregrinos, e dizia bom dia às pessoas que passavam. E ia pelas aldeias, e pelas estradas, e pelos montes. E os cães ladravam. E alguns carros passavam. E as subidas faziam-se bem, e as descidas eram o pesadelo, e pensava se a esta velocidade conseguiria chegar a Santiago a horas decentes. E pensava se N iria conseguir chegar a Santiago e apanhar o comboio. E pensava no que iria fazer quando chegasse a Santiago. Pensava numa caña, em chocolate e churros, em entrar na catedral, em ir pedir a compostela. E depois pensava na estrada. E olhava para o caminho. Para as conchas e setas. Para as árvores. Para o céu, hoje meio nublado. E pensava no ano que passou, mês a mês, evento a evento. Pensava nos desejos para o próximo ano. Escrevi-os no caderno, os doze, como as passas que se comem à meia-noite. E pensava em coisas boas e más e assim-assim. E sentia-me, apesar de coxear, e de custar, e do cansaço, e da vontade de chegar, bem. Sozinho — salvo a divina providência — mas bem.

O sol não aparecia e o frio era muito. E era chato. Andei de luvas toda a manhã. Passei por uma zona chamada Pontecesures que era muito feia e que tinha muitas subidas e muitas (suspiro) descidas. E depois cheguei a Padrón, que também é muito feia. Sentei-me para almoçar num restaurante e pedi uma hamburguesa (a terceira em três dias) e um café e saí em vinte minutos. A perna doía e eu parava e esticava e depois andava. E então decidi ir devagar. Lembrei-me do Caminho dos Coxos e ri-me. Faltavam vinte quilómetros.

Quando desaceleramos as coisas demoram a passar, de facto. Mas aproveitamos mais. Ia-me sentando nalguns bancos, rezando uma avé-maria aqui e ali. Olhava para os campos grandes e para as casas de pedra. Via as couves e os animais a pastar. Encostava-me para deixar passar os carros. Comi o queque que tinha guardado do pequeno-almoço. E, aos poucos, ia sorrindo. Cantava uma ou outra canção que o meu shuffle mental me mandava. Desde pimba até pós-punk britânico — va savoir as associações cerebrais. Sempre que via um marco olhava para a distância que faltava. Pensava: só andei duzentos e sessenta e sete metros; boa, andei quinhentos e trinta e dois!; o quê, só cento e vinte e dois?! — entre outras coisas. E às vezes parava e encostava-me ao marco e olhava para as paisagens à volta. Salvo o som da estrada nacional ao fundo, era tudo silencioso e calmo. Ria-me, bebia água, e continuava a andar.

Aos quinze quilómetros, não sei porquê, fiquei animado. É o efeito dos números redondos e certos, talvez. Fiquei animado ao ponto de parar numa estação de serviço e comprar uma maçã e um kit-kat. Comi-os de imediato e segui caminho. Estava convicto de que ia chegar pelas oito da noite a Santiago. Eram quatro e muito da tarde e o céu estava nublado. Já não havia tanta luz. Entrei pela aldeia de Faramello e fui levado para uma zona de jardins e montes com muitas árvores e espaços abertos. Faltavam treze quilómetros para Santiago, o céu nublado em cima, cinco e tal da tarde. E então parei, e suspirei.

Sabem o que é o Outono? O Outono é a primeira metade do mês de Dezembro na Galiza. É um bosque, um monte ou um jardim galego, cheio de árvores altas com grandes ramos num dos dois luscos-fuscos do dia. É o número de folhas vermelhas e laranjas e amarelas nos ramos e no chão. As copas e os mantos, sobre a nossa cabeça e sob os nossos pés. É a serenidade da imagem, do momento, do cheiro a fresco que há nessa altura, do dia que começa e do dia que acaba. O Outono é uma pausa, um interregno na caminhada dos dias. É uma viagem no meio do movimento que é a vida. Uma fuga. Um prazer. Uma aventura. Um descanso. Uma dor. Uma preguiça. Um amor. Uma piada. O Outono é das coisas mais bonitas que existem neste mundo. E é isso que sinto enquanto passo por isto que vos conto. O Outono é isto. É esta sensação serena e segura. É esta paz. Não sei explicar melhor. Mas é bom.

Depois continuei. Quando vejo a placa que marca onze quilómetros olho para o céu e logo de seguida olho para o relógio e percebo que tenho de tomar uma decisão. Ou continuo, e faço os últimos onze quilómetros de noite, ou fico aqui e tento encontrar um sítio para dormir. Depois penso que se paro não vou querer andar mais. Portanto, mais vale fazer tudo agora. E sigo.

A noite cai e cai forte. O céu fica escuro e as setas e marcos vão me levando por estradas de terra e caminhos de bosque. Faço cerca de dois quilómetros e meio num bosque escuro, sem candeeiros ou casas, até chegar ao lado da estrada nacional. Por um momento penso no que estou a fazer. Estou sozinho, no meio da Galiza, de noite, a atravessar um bosque escuro, através de um monte. Tenho uma lanterna de um telefone, e estou coxo. Tenho frio, e daqui a pouco vou ter fome. Penso nisso enquanto ando, mas continuo a andar. Lento, arrastado, mas em frente. Quando chego a uma estrada com luz e apercebo-me que já não há mais bosque começo a chorar. Acho que foi do cansaço e do esforço. Deixo as lágrimas vir por um pouco e depois lavo a cara. E sigo. Sempre a seguir.

Os marcos vão ficando menores. De onze passei para dez. Depois nove. Depois oito — claro, com algumas centenas de metros pelo meio e não poucos impropérios. Por fim estou em Miladoiro, última paragem pré-Santiago. Luzes, condomínios, superfícies comerciais. Tudo o que você quer de um subúrbio estava ali. E dos oito passa-se a sete, e dos sete a seis quilómetros ponto qualquer coisa. E lá vou eu, bebendo água, todo contente, já feliz por faltar tão pouco, por passar por pessoas normais e suburbanas que vão fazendo a sua vida normal e suburbana e já me imagino a chegar à catedral em uma hora e tal e estar tudo bem. Tudo bem.

Mas de repente vejo um marco que diz que faltam sete quilómetros ponto qualquer coisa. E isso não está bem porque mais atrás faltavam seis quilómetros ponto qualquer coisa. Admito que não devo estar com todas as minhas aptidões físico-mentais no máximo. Mas não estou (assim tão) maluco. Olho para o lado e vejo um sinal que explica que houve uma alteração do caminho nesta parte final. E olho em frente e há mais bosque. E mais escuro.  Há uma parte de mim que fala sozinho e diz qualquer coisa como “F******” (em bold, sublinhado e caps lock) e respira fundo. Suspiro, mas pronto. É o que é. E o que é é seguir. E sigo.

Desço este bosque que percebo que vai ser curto porque vêem-se luzes ao longe. Mas antes de chegar às luzes oiço um barulho e olho para o lado e está um cavalo castanho a olhar para mim. É grande, e é bonito, e tem um ar sério. Fico parado a olhar para ele. E depois vou, e ele fica. Chego às luzes e vou andando. Às vezes olhava para a estrada e parecia que via setas amarelas em todo o lado. Só queria setas e marcos e direcções. Só queria, no fundo, chegar. Quatro destes seis quilómetros finais foram passados por aldeias pequenas, estradas de alcatrão que ora subiam, ora desciam, ora passavam a linha do comboio, ora acompanhavam algum viaduto, ora apenas existiam. Não cantava e não pensava em nada a não ser nos metros que faltavam de marco para marco. A perna coxeava e doía mas aguentava-se. A água bebia-se. A paisagem era dispensável. E era isto.

Cheguei a Santiago e meti-me por uma rua em direcção à zona antiga. Era a subir e via os cafés fechados. O meu chocolate com churros e a minha caña teriam de esperar pelo dia seguinte. Passei por jovens universitários e por imensa gente típica de uma grande cidade. As espanholas vestem-se tal e qual como as portuguesas, com saias ou vestidos e meias escuras e botas e os espanhóis têm aquele hábito estilístico estranho de subir a bainha das calças acima do tornozelo no inverno. Foi uma das poucas notas mentais que fiz. Depois entrei na zona antiga. Vi imensos bares abertos, com cadeiras na rua e galegos sentados a beber cañas. Estava um frio incrível mas eles estavam cá fora. É fixe ver isso. Passei por um restaurante que vendia massa para levar. Comprei uns raviolis com carne e molho de bolonhesa e uma lata de Mahon. Depois saí e fui para a catedral.

A catedral de Santiago estava fechada. Teria de entrar lá amanhã. Fui até à porta e toquei-lhe. Pensei: fim. Cheguei. E fiquei contente. E ri-me. E liguei o telemóvel e tirei o modo vôo e procurei um albergue na internet. Fui parar a um hostel cem metros acima (cem metros, lol) chamado El Último Sello (mega-lol). Tinham uma cama livre. Não precisei de tirar o saco-cama porque tinham lençóis lavados. Que luxo. Arrastei a perna até à cozinha e comecei a comer. Liguei à minha Mãe a dizer que estava vivo e em Santiago. Mandei umas mensagens e meti conversa com um peregrino escocês que veio de França. Depois fui para a cama. Lavei os dentes e pus os lençóis. Deitei-me.

Rezei mas não escrevi nem li. Não olhei para a cama de cima do beliche na camarata. Não me lembro, sinceramente, do que pensei. Acho que pensei que tinha de acordar cedo para ir à catedral e depois ir buscar a compostela e depois ir apanhar o autocarro para baixo ao meio-dia. Só me lembro de me sentir cansado, estafado, empenado, mas bem. Tinha feito cento e vinte e quatro quilómetros, sozinho, desde Valença do Minho até Santiago de Compostela em três dias. Foi uma estupidez gigante — o modo, não o caminho — mas estava bem. Valeu a pena. Pelo menos senti que sim. Que valeu mesmo a pena. E então adormeci.

Narrativa del camino – dia dois

Estou a levantar-me da cama no albergue de Redondela. Voltei a acordar durante a noite, mas só por duas vezes. A primeira foi pela uma e quarenta e dois. A segunda foi pelas quatro e tal. Ouvi o Senhor A a sair da camarata. O outro peregrino estava a arrumar as coisas quando me levantei. Vesti-me, enrolei o saco-cama e pus a mochila às costas. Fui à cozinha e comi o pão que me sobrou do jantar e uma das bananas que tinha. Depois olhei para o relógio. Eram sete e meia da manhã. Saí e virei à direita. Estava outra vez no caminho.

Fazia bastante frio e estava escuro. Em Espanha amanhece uma hora mais tarde. Ia andando rápido para ver se aquecia. Passei por ruas estreitas e por pessoas com ar de estarem a voltar de um bar ou discoteca. Noites loucas de Redondela. Segui por algumas descidas até ir parar a um caminho de terra. Entretanto passou por mim o outro peregrino português que estava no albergue e que falava com o Senhor A. Não me olhou, mas desejou-me “bom caminho”. Respondi-lhe o mesmo, e vi-o ultrapassar-me a um ritmo invejável. É a idade, pensei eu. Idade é experiência, pensei eu. E o que é a experiência? Continuei a andar e a vê-lo perder-se de vista. Os dois no caminho, cada um no seu caminho.

Passei por campos e um bosque escuro. Ouvi cães a ladrar e galos a cantar. Liguei a lanterna do telefone e fui vendo as setas e marcos no meio da escuridão das árvores. Passei a estrada nacional e numa subida virei para um monte. Eram oito da manhã e achei que o frio me tinha despertado de uma maneira incrível. Continuei a subir até estar numa encosta e conseguir ver, ao longe, aquilo que me pareceu ser um monte com um rio por baixo. Entretanto o céu ia-se abrindo e estava agora tudo a ficar claro. A luz rosada da manhã começava a bater sobre as árvores verdes escuras e avermelhadas. Parei e admirei a imagem. Nunca tinha imaginado que a Galiza interior fosse tão bonita. O calor da subida já me tinha afastado o frio que me gelava a cara. Sinto a barba algo húmida e penso se apanhei um pouco da geada matinal. Depois desço e entro na terra de Arcade.

Tomo o pequeno-almoço num pequeno café no centro que fica na linha do caminho. Peço um croissant e um café com leite. Servem-me o croissant com garfo e faca. Relembro-me imediatamente do episódio do Seinfeld em que George Constanza começa a comer barras de chocolate com talheres. Servem-me alguns bolos para o café. Já vos disse que adoro cafés galegos? Vejo na capa do jornal Marca que o Real Madrid ganhou ao Grémio com um golo de Ronaldo. Gracias, Cristiano. Tiro dois apontamentos no caderno e ponho-me a andar.

Passo por uma ponte ao sair de Arcade. A água está escura e há uma ligeira bruma por cima do rio. O sol começa a bater sobre a estrada. Meto-me pelo caminho e vou por dentro de ruas e ruelas de uma aldeia. As comparações minhotas continuam a abundar. Oiço senhoras a discutir e o tom é igual ao de discussões no Minho. Passo por imensas árvores de azevinho, carregadas e bonitas. Depois volto a entrar num monte e nas árvores vermelhas e nos campos com geada. A geada por derreter à sombra parece púrpura. Parece que todas as plantas são lavanda. No monte há imensas folhas vermelhas caídas e húmidas. Passam cães e cavalos pelo caminho. Oiço os pássaros nas árvores. A manhã vive enquanto eu caminho.

Penso nesta altura em como muitas vezes estou mais preocupado com o que pode acontecer do que com o que acontece. Mais a pensar no “e se” do que no “é”. Expectativa versus realidade. Penso que isso não faz bem. Penso que não é uma boa forma de se estar. Penso e páro e gravo o pensamento numa mensagem de telefone. Depois continuo a andar.

Volto para uma estrada depois do monte. Doem-me os ombros e a cintura. Tiro o cinto com a garrafa de água e prendo-o nas pegas da mochila. Sinto um alívio e sigo o caminho. Vou comer a Pontevedra e depois seguir para Caldas de Rey, fazendo mais ou menos a mesma distância do dia anterior. E, assim, chegar a Santiago já amanhã, um dia antes do previsto. Parece-me um bom plano. Entretanto vejo imensa gente a passar de carro e bicicleta pela estrada. É Domingo mas continuo sem ver um peregrino que seja.

Chego a Pontevedra e passo por uma rapariga que parece ser peregrina. Acenamos com a cabeça um ao outro e ultrapasso-a. Cada um no seu caminho, os dois no caminho. Vou entrando na cidade e procuro um sítio para comer. Tenho de ir à missa. As lojas estão fechadas mas há gente na rua. O centro de Pontevedra é bonito. O caminho leva-me à igreja da Virgem Peregrina. Entro e dizem-me que a missa começa dentro de quinze minutos. Compro uma sandes numa loja ao lado, como-a e depois assisto ao serviço. O padre é muito assertivo e aponta muito o dedo enquanto fala do evangelho e da importância do advento. Na assistência, cheia, sou uma de três pessoas com menos de quarenta e muitos anos. Rezo pela minha família, amigos e pelo que resta do caminho. Depois, quando a celebração acaba, saio da Igreja, pronto para continuar.

O problema começa quando me ponho a andar. Sinto uma dor na minha perna esquerda, mais concretamente na canela. Não percebo o que pode ser, mas obriga-me a coxear um pouco. Penso se devia ou não ficar em Pontevedra e tratar disto. Mas são duas da tarde e pelos meus cálculos (altamente falíveis) penso que consigo fazer o mesmo número de quilómetros que fiz de manhã e chegar a Caldas de Rey. E assim passo mais uma ponte e saio da cidade e vou de volta para campos e aldeias e ando. Mais lento, e mais arrastado, mas ando.

Passo por linhas de comboio carregadas de balastro. Passo por pequenas estradas. Passo por riachos. Pego em paus e uso-os como cajados por alguns metros. Rezo as dezenas que tenho de rezar e penso em episódios do que ano que passou. Como bolachas e acabo com as bolachas. Sinto-me cansado e creio que se deve à falta de café. Depois vejo um prado enorme e espaçoso e animo-me. Olho para um marco e vejo que faltam dez quilómetros para Caldas de Rey. Sinto a perna esquerda a doer mais. Pergunto-me: devia parar? Mas continuo. Vejo que a claridade já não é tanta. Passo por cafés e albergues fechados. Passo por éne casas com éne cães que me ladram de éne formas. Vou parando às vezes para esticar as pernas, e depois volto a andar. Chego à estrada nacional e faltam-me sete quilómetros para Caldas. Imagino que será de noite antes de lá chegar.

E nesse momento aparece N. Vinha mais atrás e apanhou-me naquele momento. N era o peregrino que chegou tarde ao albergue no dia anterior. Apanhou-me na estrada nacional e deu-me companhia, conversa e ritmo.

O sotaque era nortenho. Ia determinado, era a quarta vez que fazia o caminho. Precisava de estar em casa, no Porto, no dia seguinte, porque tem duas filhas pequenas e a mulher está sozinha com elas. Falámos sobre fé, sobre existência, sobre santos, sobre formas de lidar com a vontade, a liberdade, a autonomia, o desejo, o querer. Conversas leves. E depois apercebemo-nos que tínhamos amigos em comum e pontos de contacto. A probabilidade de apanhares um português no estrangeiro que é amigo de um amigo e tal é impressionante. Apanhámos laranjas à beira da estrada e continuámos a andar. Não me lembro do caminho nesta altura. Só da conversa. Os dois no mesmo caminho. E, sem darmos por isso, estávamos de repente em Caldas de Rey.

N já cá tinha ficado e guiou-nos para o albergue. Tinha ainda de ir à missa, que começava às sete da tarde. Entrámos no albergue e deixámos as coisas. Falámos um pouco com o recepcionista, ele próprio peregrino. N perguntou-lhe de onde vinha, ele disse que de Zagreb. N perguntou-lhe se não era ele “o” peregrino. Ele disse que sim. Depois N explicou-me. Aquele homem era José, o peregrino. Era um pescador que há uns anos atrás estava na Noruega. O barco onde estava naufragou; José foi o único sobrevivente. Fez uma promessa que se vivesse iria passar o resto da vida a peregrinar. E desde aí foi o que fez. Já foi a praticamente todo o lado e estava agora ali em repouso, à espera de dinheiro para poder continuar. Desejou-nos bom jantar e saímos.

Enquanto N ia à missa fui para um bar. Sentei-me ao balcão e pedi um café com leite. Desta vez só me trouxeram uma bolacha, mas agradeci à mesma. A empregada era uma miúda dos seus vinte anos, cabelo escuro e óculos de aviador à anos setenta. Tinha um brinco na narina esquerda e uns ténis Stan Smith e um sorriso simpático. Escrevi no caderno sobre a viagem do dia e senti a canela esquerda a doer. Quando saí para ir ter com N tinha de arrastar a perna. N também estava “todo empenado” (dito com um forte sotaque tripeiro). E assim, a andar como dois aleijados, fomos jantar a um sítio que N conhecia.

Pedimos uma harmburguesa especial e uma caña. Acabámos por beber três cada um, todas elas superbock. Falámos muito, sobre arte, criação, estilos, família, escrita. Depois voltámos para o albergue. Dois empenados portugueses, na fria noite das Caldas. Quando chegámos José estava na recepção. Recebeu-nos com um vídeo de um noticiário sobre a sua promessa. Disse-nos que a melhor peregrinação que fez foi ao Tibete, e que já tinha ido e vindo da América pelo Estreito de Bering. Depois disse que ia dormir. Fomos para a camarata. Éramos os únicos ocupantes do albergue.

Fiz alguns alongamentos antes de me deitar. A perna esquerda continuava a doer. N emprestou-me Voltaren gel. Sim, porque sou um tipo super-inteligente e preparado que vai fazer uma caminhada de cento e vinte e quatro quilómetros em quatro dias e leva uma mochila hipster, camisolas e umas calças estilosas, um poncho super-impec para o que der e vier, meias quentes e boas para andar, um chapéu tipo Indiana Jones só naquela, uma luzinha (sim, uma lu-zinha) para ler na cama, e até um mini-kit primeiros socorros com benuron (uau!) e pensos e  gaz e álcool para as feridas, sem falar (mas deixem-me falar) da “experiência” de ióga (inserir caption “lots of laughs”) em alongamentos in-críveis (favor levantar os olhos para cima ligeiramente no “in”) para tratar de qualquer problema que possa surgir durante o percurso. Agora, coisas que interessam, que realmente interessam para tratar de maleitas que podem suceder em caminhadas, com as pernas ou os pés, tipo anti-inflamatórios, gel para dores musculares, e meias-elásticas, está quieto.

Mas enfim, vivendo e aprendendo. N emprestou-me o gel e passei-o na perna e no pé. N mostrou-me um vídeo de flamenco com um poema de S. João da Cruz. Era interessante. Depois despedimos-nos e deitámo-nos. N tinha de sair pelas cinco da manhã para ver se conseguia chegar a Santiago a tempo de apanhar o comboio de volta para baixo. Quanto a mim, só queria lá chegar, fosse às horas que fosse.

Deitei-me e olhei para a cama de cima. Tinha um desenho feito a caneta azul numa das barras de madeira. O desenho era de de dois círculos grandes, cada um com um círculo mais pequeno e carregado no seu interior. Ao lado tinha uma frase. “Sonha e dorme bem, peregrino” e em baixo, entre parêntesis, “mamas”. Ri-me. Não me apetecia ler o livro. Depois pus-me a pensar nas coisas que pensei durante o dia. Pessoas, eventos, sonhos, frustrações, alegrias, certezas, inseguranças, etc, e etc, sweet old etc. E depois pensei na minha perna e se ela ia estar melhor ou não depois desta noite. Rezei pelos efeitos milagrosos do Voltaren e comecei a imaginar cenários possíveis caso não recuperasse. Teria de ir pelo menos até Padrón, porque os albergues até lá não estariam abertos. A pergunta era se iria depois até Santiago, ou esperaria mais um dia. Fui dormir. Amanhã veria o que fazer.

Narrativa del camino – dia um

Acordei por volta das seis e cinquenta. Foi a quarta vez que acordei desde que adormeci. A primeira vez foi à uma e trinta e sete. A segunda pelas três e quarenta e dois. A terceira não me lembro, mas acho que eram cinco e pouco da manhã no meu relógio azul de plástico. O senhor que dormia na cama no fundo da camarata ressonava, e muito. A rapariga que estava com ele ligou o telefone durante a noite e ouvi o som de mensagens de forma regular. Tive um pesadelo. Não sei se foram essas as causas de acordar. Ou se foi a excitação que sentia de forma inconsciente. Aquela excitação da insegurança do desconhecido, como quando se tem uma viagem no dia seguinte. O facto é que não estava cansado quando me levantei. Arrumei as coisas, vesti-me, comi uma banana, pus a mochila às costas e saí. Eram sete e trinta e um da manhã.

Está frio. O nevoeiro cobre tudo a pelo menos dez palmos de distância. Vejo em frente o primeiro marco do caminho e sigo-o. O telemóvel está em modo vôo. É uma promessa, ter o telemóvel em modo vôo até chegar a Santiago. Fui seguindo as setas até entrar na fortaleza de Valença. Rezei a primeira dezena. É uma promessa, rezar um terço por dia. Sinto-me entusiasmado. Tal como numa viagem. Sabem, aquela adrenalina de chegar a um sítio que não conhecem, onde nunca estiveram, e não saber como vai ser? É assim que me sinto. Passo pelas ruas da fortaleza de Valença, pelas lojas fechadas e pelos carros parados. Ruas vazias, seguindo setas e conchas amarelas. Chapéu de aventureiro na cabeça. Luvas escuras. Mochila estilosa — demasiado hiptser para isto, confesso. Cá vou eu. E, chegado a um café que estava a acabar de abrir, entrei para tomar o pequeno-almoço.

É um café pequeno e simples, dentro da fortaleza. Peço uma torrada em pão de forma e uma meia-de-leite. Escrevo no caderno e ouço os donos (há um casal atrás do balcão — assumo, por não usarem farda, que são os donos) e o empregado a falarem. Falam um português com sotaque minhoto perfeito. Não há traços de Espanha aqui. A fronteira funciona, penso eu. Mesmo que por uns metros, funciona. Esta meia-de-leite também funciona e sabe-me pela vida. Penso: agora posso enfrentar o frio. Um dos donos do café diz: “O frio vem todo de Espanha. Na Galiza deve estar o caralho”. Escrevo a frase. Depois pago e saio. Volto ao nevoeiro, ao entusiasmo, e ao caminho. Eu quero o caminho.

E então ando. Controlo-me para não fotografar tudo o que vejo. Porque tudo o que vejo merece uma fotografia. Quando se está entusiasmado o coração parece que explode. O olhar fica mais atento e a criatividade mais solta. Estava tudo húmido, algumas plantas com orvalho ainda por cima. Fui andando pela fortaleza até chegar à ponte. Não se vê nada para lá da metade portuguesa. Nem uma imagem. Dois países separados por uma bruma. Não é giro, ou romântico, ou místico, digno de uma qualquer cena de filme? Apreciei o momento por uns segundos. E depois voltei a andar e passei a ponte.

Chego ao outro lado e o nevoeiro continua forte. Agora não via Portugal, olhando para trás. Recordo-me do poema de António Machado: “Al andar se hace el camino, / y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se ha de volver a pisar”. Continuei a andar.

De estradas passei para passeios. Passo por um Irish Pub chamado “The White Clover” (até em Tuí há Irish pubs) e por um bar chamado “Café Lisboa”. De passeios passei para caminhos de terra, e depois de novo para estradas e mal dou por mim estou na Catedral de Tuí. Grupos de senhoras montam barracas do que parece vir a ser um mercado, na praça em frente à catedral. Entro para rezar. Quando saio toca o Hard Days’s Night dos Beatles no sistema de som municipal que se ouve por todo o centro histórico. Los Gallegos saben mucho. Como não manter o entusiasmo, enquanto volto ao andar?

A estrada vai-me levando. Vou pensando nisso, no facto de estar a ser guiado por indicações colocadas de propósito e cuidadas de propósito para que uma infinitude de pessoas de várias idades e tempos possam passar por ali. Sou mais um num caminho de séculos. O caminho é uma instituição que me ultrapassa. Adoro instituições. Sinto-me pequeno e forte com esse facto. Penso nisto enquanto passo por ginásios e salas de cross-fit com publicidades chungas. Fotografias de malta  feia e foleira a levantar pesos com dragões tirados de uma edição qualquer perdida do Mortal Kombat, estão a ver? Mau-gosto espanhol, kitsch máximo, estão a ver? Mesmo cómico. E depois virei para o bosque.

O bosque está vermelho. As árvores carregadas de folhas velhas. Como diria o meu sobrinho Estêvão, está tudo “cheio de Outono”. Tudo muito húmido. Há riachos e pontes de pedra. Vejo anúncios de albergues privados que prometem milhares de pequenos-almoços e requintes, em vilas e cidades que ficam quilómetros acima. O nevoeiro vai-se dissipando aos poucos, enquanto o dia avança. A cada passo, mais luz no céu. Mais subidas, mais monte, mais campo. E casas. Senti que ainda estava no Minho, tal é a semelhança dos cenários. Mas menos verde. Menos, sei lá, quente. Continuo a andar e ainda rezo outra dezena pelo meio.

De repente chego à zona fabril de Porriño. Sinto-me como no Gosto do Sakê de Ozu, tal o cenário industrial que está à minha volta. Fábricas e mais fábricas e uma fábrica em especial de onde sai fumo. E uma estrada recta, que faço enquanto tiro a primeira camisola — estou com mais duas camadas. Está sol, agora. E algum calor. Sinto fome. Olho para o relógio e já são horas para se poder comer.

Passado um pouco chego a Porriño e entro  num café e peço “uma hamburguesa” e trazem-me um hambúrguer vegetariano. Foi sem querer. Não me apercebi que tinha vindo parar a um sítio vegetariano. Acontece. Como o que me dão e bebo água da garrafa. Olho para o mapa na minha credencial e penso no plano a seguir. Num mundo normal ficaria hoje aqui, em Porriño. Mas as pernas pedem mais e podem mais. “A culpa”, já dizia António Variações, “é da vontade”. Por isso agradeço e pago o hambúrguer e peço um café. Ponho a mochila às costas e o chapéu na mona. Vou de volta para às ruas da vila, andando entre lojas e passeantes de sábado à tarde, atrás de setas e conchas amarelas. Sinto-me bem. Mesmo bem.

Rezo a terceira dezena do dia depois de passar um riacho e um armazém gigante. Um jovem chinês está encostado a um muro a falar por vídeo através do telemóvel. Tem um fato de treino cinzento com pinta. Passo por eiras que me lembram mais o Minho. Há subidas e descidas. Começo a pensar porque é que estou a fazer o caminho. Será pelo desafio em si, por querer provar alguma coisa, por querer rezar ou reflectir algum assunto em concreto? A resposta não me é óbvia. Faço-o por várias razões, acho eu. E sem expectativas de resultado. Acho que é assim que as viagens devem ser feitas. Gosto disso, de ir pouco preparado. E assim posso ser surpreendido quando, por exemplo, numa zona chamada Caminho das Lagoas, passa um carro Renault com vinte anos, daqueles muito achatados, de um dourado metalizado, conduzido por um homem com outro homem ao lado, e cheio de balões brancos e azuis-cueca pendurados no tejadilho. Parece uma cena de um filme do Kusturica: uma estrada de aldeia minhota, vazia e silenciosa e um carro com balões pendurados a passar e a desaparecer. Sigo a estrada e atravesso um caminho chamado Caminho do Coxo.

Depois passo por um cemitério de espantalhos. Uma série de campos, cada um com pelo menos dois espantalhos caídos no chão. Tipos com colete, fatos-de-macaco, cabeças de balde, cabelos de esfregona. Terá sido chuva, terão sido os pássaros? Vou gravando notas no telemóvel sobre estes encontros para me lembrar mais tarde. Passo por um poste com um autocolante que diz “J’existe”. Fotografo e sigo.

Passo pela terra de Mos. Os cafés estão fechados e os albergues também. Subo montes, desço montes, passo por estradas, vou por passeios. Vejo pessoas que me olham e dizem “hola”. Um miúdo gordo com uma camisola do Real Madrid que está sozinho num campo de jogos a chutar uma bola contra uma baliza diz-me “Buen camino”. Respondo-lhe “Gracias, Cristiano”. Ele ri-se. E eu continuo.

Penso se vou até Arcade ou se me fico por Redondela. Uma vez chegado à segunda, e visto que o dia se está a pôr, penso em parar. É o primeiro dia, foram quarenta e dois quilómetros. Acho que mereço um pequeno descanso. Dirijo-me ao albergue municipal e registo-me. Sou o terceiro peregrino, e o terceiro português, diz-me a senhora. “E eram três”, como na música dos Comboio Fantasma. Instalo-me na cama de baixo de um beliche e vou tomar um banho. Faço algumas flexões antes e sinto os músculos das costas e dos ombros a tremer. A água morna cai-me pelo corpo abaixo e sinto-me renascido. As minhas costas estão péssimas devido ao acne mas é o que é. Saio e visto-me e sento-me na cama. Penso e declaro para mim mesmo: foi um bom dia de caminhada.

Saio do albergue e vou a Redondela comprar comida. Entro no supermercado local para ver o que se arranja. Saio com um pão, uma embalagem de fiambre e uma cerveja Mahon de lata, mais umas bolachas. Depois passo por um café e decido entrar. Sento-me e peço um chocolate quente. Oferecem-me um bolo para acompanhar. Adoro cafés espanhóis porque nunca te deixam só com uma bebida. Mergulho o bolo, uma espécie de folhado, no chocolate, enquanto vejo televisão. O Real Madrid joga contra o Grémio na televisão. Dá-lhes, Cristiano. Depois olho para o mapa da credencial para pensar no que fazer amanhã. Depois acabo o chocolate e saio. Já está escuro na rua e faz algum frio.

Sento-me na sala de estar do albergue e abro o caderno e tiro notas do dia. Depois abro as Confissões de Santo Agostinho e tento ler um pouco. Está um senhor na sala de estar a ler jornais e um miúdo a estudar o que parece ser geometria descritiva. Não são peregrinos. Sinto o cansaço e a fome. Fecho o livro e vou para a cozinha preparar umas sandes.

Chego à cozinha e meto conversa com um peregrino que por lá se encontra. Chama-se Senhor A. O Senhor A é português e ciclista. Está a fazer este caminho a pé pela segunda vez (fez mais uma vez de bicicleta, bem como o caminho francês). O Senhor A é um daqueles tipos que quer falar muito. Sabem, uma daquelas pessoas que mete conversa e que quando faz uma pausa olha para nós e independentemente do que dissermos (como, por exemplo: a sério?; isso é engraçado; aconteceu-me uma coisa parecida um dia; olhe, vou morrer amanhã) ou não dissermos elas continuam a falar do que estavam ou querem falar. E assim vou ouvindo o Senhor A e as suas histórias enquanto bebo a minha Mahon.

O Senhor A tem sessenta e um anos e uma vida de aventuras. Algumas pessoais, outras de bicicleta. Por exemplo, fez a estrada da morte na Bolívia, de bicicleta. Fez uma série de viagens pela Europa, de bicicleta. Tem dois filhos e uma ex-mulher. Fala de coisas familiares e pessoais com um grau de pormenor que é algo aberto demais. Ou como dizem os ingleses, “too much”. Entretanto aparece o Senhor O. O Senhor O é um peregrino alemão. Foi o único peregrino que vi durante poucos minutos no caminho antes de desaparecer por uma curva (diz-me agora que foi a um café). Falou pouco, mas interrompeu o suficiente a conversa com o Senhor A para eu conseguir sair da cozinha e voltar para a sala de estar e voltar a abrir o meu livro. Li duas páginas e fui para a camarata.

Estou no beliche a preparar-me para dormir. Tenho tudo pronto para sair amanhã. A mala, a roupa, as bolachas. Enquanto escrevo as últimas notas no caderno vou ouvindo o Senhor A e o outro peregrino português conversar sobre histórias pessoais e de bicicletas e de albergues. A dado momento o Senhor A diz que vai falar com os filhos e abre o computador. Depois chama-me e pergunta se eu quero ver as suas páginas de Facebook. Levanto-me e vou ter com ele. O Senhor A mostra-me então três páginas onde escreve sob pseudónimo, como se fosse um personagem. A partir do personagem vai criando histórias fictícias. Cada página, um personagem; cada personagem, uma história. Algumas, diz-me, são bastante sugestivas — e acrescenta que é dessas que as mulheres mais gostam. Olho para as páginas e vejo fotografias de pessoas feias em roupas foleiras.  Nas páginas mais sugestivas estão fotografias de pessoas feias com poucas roupas (mas as roupas que têm são foleiras) e em poses, de facto, sugestivas. Não creio que as histórias devam ser grande coisa, mas se calhar estou a ser mauzinho. O Senhor A diz que é um “grande maluco”. Entretanto os filhos dele falam-lhe pelo serviço de mensagens do Facebook. O Senhor A diz-me que o mais velho tem dezasseis anos e quer ser body-builder. Digo-lhe que é uma carreira. Ele diz que ele é um mandrião. Respondo-lhe que é a vida. Ele diz-me “pois”. E então levanto-me e volto para a minha cama. Entretanto entra outro peregrino na camarata, mas vai para uma cama que fica noutra divisão.

Deito-me e fico a olhar para a cama de cima. As luzes estão ligadas e o Senhor A e o outro peregrino português recomeçam a falar. Não me lembro se acabei de rezar a última dezena ou se adormeci antes. Lembro-me que me doíam ligeiramente as costas. Fiz alguns alongamentos de ióga ao tronco, costas e pernas antes de dormir. Lembro-me também que pensei nas muitas coisas que pensei ao longo do dia. Andei durante cerca de onze horas sozinho. Pensei em muitas pessoas, situações, passados, imaginações. Cantei algumas coisas. E de resto andei, e olhei, e rezei um pouco. Estive muito atento e animado. Gostei deste meu primeiro dia. Continuava a querer mais caminho. Dentro de umas horas era o que me esperava. E adormeci.

Narrativa del camino – o dia anterior e início

São dez e quarenta da noite. Estou deitado na cama de baixo de um beliche na camarata do albergue de peregrinos São Teotónio, em Valença do Minho. Vim a guiar com a minha Mãe para cima e ela ofereceu-me de jantar antes de me deixar no albergue. Fomos a um restaurante chamado A Merendela. Comemos costeletas e bebemos vinho tinto. Soube bem. Estava já vestido com as calças de caminhada que comprei na Decathlon. Pretas, justas, razoavelmente estilosas, ao ponto de ter ido almoçar com um amigo ainda em Lisboa e ele não se ter apercebido de que eram calças de caminhada. Estava com o relógio no pulso, também ele saído da Decathlon. Azul, plástico, digital, maneiro. Agora estou deitado dentro de um saco-cama e a minha Mãe está a viajar para Ponte de Lima. Acabo de escrever no meu bloco de notas e de ler um bocado do livro. Trouxe as Confissões de Santo Agostinho para ler. Achei que podia ser um bom livro para se ler durante uma caminhada para Santiago de Compostela. Quando pouso o livro olho para o lado. No fundo da camarata está um homem deitado numa cama de baixo. Careca, gordo, de óculos, com um telemóvel ligado. Na cama de baixo do beliche ao lado está uma rapariga, com um iPhone. Sei que é um iPhone devido ao som das mensagens que vão surgindo regularmente. Devem conhecer-se, o homem e a rapariga. Tipo pai e filha, tio e sobrinha, amante e amante. Viro a cara e olho para a cama de cima. Fico assim, no relativo silêncio que é estar numa camarata quase vazia. Está muito frio lá fora e algum cá dentro do albergue. O saco-cama é quente e o vinho ainda circula no meu corpo. Penso no dia de amanhã. Não tenho bem noção do que vou fazer amanhã, para além de andar e seguir direcções. Não tenho mapas. Vou andando. Penso numa música. Não tenho édefones, nem música na cabeça para este momento. Os telemóveis dos meus colegas peregrinos apagam-se. A camarata está escura. Penso no ano de 2017, episódio a episódio. Nem parece que está no fim, depois de tanta coisa que aconteceu. Fecho os olhos e procuro adormecer. Não toca nenhuma canção. Nenhuma. Nenhuma?