A time for freshness / The freshness of time

I like

the freshness of mornings

when you enter the living room and

the windows are open

a light breeze breathing inside

while you sit and live

reading the news or talking with about

road trips to the north of the country

you know how I heart the north of the country

and you’re told it’s going to be fresh out there

like really fresh

(in the north of the country)

almost cold

and you think

that the difference between fresh and cold

is one of existential degree

based on a criteria of love and joy

(in the country)

it was also fresh next to the river

I saw a fisherman taking a fish out of the water

dozens of pedal bikes

and the brother of an old friend covered in sweat

while I ran to feel

some sort of energy before going on

a short road trip of my own

(in the north)

I remembered during the week

the freshness of the evening falling

in the Koyasan cemetery in Japan

there was no snow nor cherry tree leaves

only the air and the dim lights of the stone path

speaking of lights

I saw this graffiti next to the street lamp in front of my house

it said glow

and when I was coming back home from running I saw

in the wall next to the street lamp before my house

the word glow

same style

and I thought

we got an artist in the neighbourhood

I like people

that wish to make an oeuvre

out of their own light

(in the north of the country

I hope you feel and enjoy

this time of freshness

the natural beauty of the greens

so good and free and relaxed

so disarmingly

beautiful)

 

Iowa

Ele está sentado no sofá branco da sala de estar. A sala está às escuras. Duas das três portadas estão abertas, para arrefecer o espaço. Estava com calor enquanto jantava e escrevia. Pôs-se a ler, mas noutra sala, não menos quente. Quando acabou o sexto capítulo pousou o livro e resolveu ir rezar. Sentou-se no sofá branco, tal como agora. Pernas direitas, ambos os pés no chão, nádegas juntas às costas ligeiramente descaídas do maple. A luz do corredor está acesa; as portas para o corredor estão fechadas. Ele imagina a cena: estar sentado no sofá branco, e uma figura, que tanto pode ser o gigante escuro e dobrado que passeava pela casa teatralmente assombrada a que foi com os amigos no centro de Lisboa, há cerca de duas semanas, como DeMarcus Tillman, o basquetebolista desgraçado da segunda temporada de American Vandal (a qual acabou de ver hoje), como Martin Donovan, o anti-herói de Hal Hartley (do qual se recordou de noite, numa troca de mensagens com o seu irmão mais velho), ou até ele mesmo, só — a olhar pelos vidros da porta, para a sala. Passam carros, passam pessoas, o telefone não toca, mas a partir das onze deve tocar. Ele reza, e lembra-se enquanto está de olhos fechados do livro, cuja acção se passa no Iowa. Ele não se lembra do Iowa, neste momento, apesar de ter lá estado, mas sim do Texas, de uma pequena aldeia abandonada numa estrada paralela a uma interstate qualquer cuja velocidade máxima eram 75 milhas por hora, onde não se via um carro, onde a bomba de gasolina era uma ruína, onde as casas pareciam ter sido saquedas, e onde só se viam três miúdos a andar de bicicleta e um tipo gordo, muito queimado, que não falava nem inglês nem espanhol, mas percebia a palavra “gas”, e estava encostado a um alpendre. Lembrou-se depois de chegar a Marfa, de noite, e do quanto gostou de Marfa, e dessa adrenalina de viajar e de chegar, de descobrir e de partir, do desconhecido. Passou um carro que tocava kizomba. No livro os personagens veem cassetes de vídeo que têm mistérios dentro delas. Ele acaba de rezar e deixa-se cair no sofá a apreciar o Iowa à sua volta: a sala vazia. E o dia acaba.

Quero quero, muito bonito

Pop sentimental, festiva e com ginga para anca, coração e passeio. Há discos que podem ser muito bonitos, tal como certos tempos e espaços. O novo álbum dos Kero Kero Bonito que saiu hoje, Time n’ Place, tem a sensibilidade certa para um início de um mês, para um acompanhar de um dia, para um sorriso de acordar e adormecer. Maravilhosamente fixe, esta cena. Não?

Proposta de mês, um apontamento solto

Estava encostado ao semáforo. O meu amigo Francisco apareceu, deu-me um abraço, e disse que a cena parecia o início de um filme de Hal Hartley. Imaginei por uns instantes um plano em que estava de costas, o jurista-académico de mala na mão, encostado a um semáforo na Avenida Pedro Álvares Cabral, com o sol a cair-me ligeiramente em cima do casaco. A letargia de uma noite pouco dormida fá-lo (ao jurista, não a mim) querer ficar ali, a ver os carros passar, mesmo quando a luz muda de cor. Passados um, dois minutos entra uma voz off: Estou encostado a um semáforo a ver os carros a passar. Bill Knot diz que o semáforo tem sempre razão. É um facto, ou uma ideia? Tal como a luz das sete e quarenta e três na calçada da Estrela, das sete e cinquenta na Álvares Cabral, e das sete e cinquenta e cinco no Largo do Rato, é uma proposta. Uma proposta de mês, neste caso. Recebe o que te dão, dá mais do que o que recebes. Dia um de Outubro e a luz, no céu, no semáforo. A luz do sol no rio, visto do cimo da rua, com um ligeiro nevoeiro a tapar a outra margem. Brilha muito o rio, muito claro. Antes passei pela dupla. A dupla é um par de gémeos idênticos com quem me cruzo várias vezes durante a semana em espaços localizados entre o Ginásio Clube Português e o jardim da Estrela, e que pelos vistos vai encomendar frangos à Lapa à hora de almoço. Estavam em frente à churrasqueira, gerida por um tipo que está casado / apaixonado há dezasseis anos. Parece feliz, apesar da mulher já não poder ver frango à frente. A dupla jogava ao pimpampum com as mãos. Penso: se estou num filme, que tipo de filme é? Podia ser de Jim Jarmusch, um filme que é uma representação do real e que é ao mesmo tempo uma meditação sobre o próprio real. Tempo, banalidade, rotina, espaço. Vida? Vi a palavra glow escrita num parquímetro, virada para um candeeiro. Depois vi um caroço de abacate, inteiro, com a pele toda escura e apodrecida à volta, no pátio. Era domingo. As manhãs de domingo trazem boas canções — aprendo isso a ver uma ‘stória, num dispositivo móvel — e algumas canções trazem verdades giras. Por exemplo, o apontar de que o claro laranja e leve azul do final do dia no Chiado (Chiado evening sol) serem os mesmos que o claro laranja e o leve azul do início do dia na Lapa (Lapa street blues). “Quem sabe / amanheceu ou caiu / a tarde?” É bom ser e sorrir por ser. É que “se pensarmos na parafernália de toda esta vida / como imagens misturadas / sem passado nem futuro / se encararmos com franqueza / então como poderemos” — mesmo letárgicos, sonolentos — então não ver aí / oh, como poderemos então não ver aí… a (a-a-a-a-a-a-ah), a (a-a-a-a-a-a-ah)? E o dia segue.

 

 

Investment portfólio

The other night

I was thinking 

about blocks and chains and

Plato, when

I decided to open the window

and look outside.

The street was empty

and silent.

I then noticed this guy that 

I hadn’t seen in the neighborhood

for a while. 

He’s one of those guys that

you and me

(crazy-normal people)

call a character. 

He’s more or less my size, a 

little bit tanned and

always sings a song

after sighing.

He was in the middle of the street

with a towel on his hand

and two packs of sunscreen

in the pockets of 

his trousers.

He proceeded to tie the towel 

around his neck, and

voilá

now he had a cape. 

Then he went to the door of my

neighbor

Miss Very Nice

the daughter of Madam Nice

and Mr Nice.

She has a little brother

a Korean kid

called Nicey. 

She was at the door

and looked tired but

she laughed

when she saw this guy

in front of her house.

I saw both of them

stealing a kiss from each other

before he started to walk, half-jumping

as if he was about to start flying

at any moment.

She laughed, and 

for a moment, I think that

I caught in their faces

a little glance

of the most free-spirited kind of

joy.

She then closed the door.

The street was empty and silent

again.

I went to sleep.

The next morning I met

my neighbor the baker

and he told me 

that he saw this character

(his words, not mine)

walking at night next to jardim da 

Estrela. He was wearing a cape

that looked like a towel

and was walking in the middle

of the road.

No cars were passing by

and the guy was smiling.

I heard this and I just felt

this really strong feeling inside.

It is so difficult to describe

how much I love people 

who like to walk freely 

in the middle

of the road. 

Summer fim

The evening has arrived, and

the sky is no longer 

the mixture of

pink white blue that it was

just a couple of minutes

ago.

This was

the last thing I wrote

before geting to know 

how great friendships can 

start with just 

a simple call for help, and 

before attempting to watch a

legal docu-drama while

lying on the couch, and 

long before

my face got covered 

with chocolate.

Now the morning has arrived, and

the sky is already

the bright blue beauty

that it has always been

this September. At least as 

far as I can recall. 

Summer

is ending, that is what 

the calendar says. But 

today is Saturday, a calm,

thankful morning, with people 

retreating to the beach while 

listening to african dance music 

in their mother’s

car.

Good

day

for a life to

be.