A noite mais longa de George Smiley

Sempre que penso em John Le Carré vem-me à cabeça a imagem de George Smiley, o príncipe de todos os espiões que o falecido autor inglês projetou. Nessa imagem – que nasceu de uma leitura apaixonada do romance Tinker, Tailor, Soldier, Spy durante umas férias na Indonésia – Smiley está num quarto, numa casa fora de Londres, e creio que está a jantar ou a instalar-se, e de repente passam-lhe tantas coisas pela cabeça, sobre o antigo chefe que ele enterrou e sobre a mulher que perdeu e sobre o rival que o seduz. Há muitos plots e sub-plots na narrativa, muitos espaços onde personagens se perseguem, literal e metaforicamente, escritos com uma precisão e rigor belíssimos. Mas é essa imagem que me fica, o quadro de um homem sério e profissional num momento de dúvida, lutando contra as suas desilusões e frustrações, sabendo que só quando as ultrapassar é que vai chegar ao fim do combate. Não é qualquer romancista que nos consegue apresentar, de forma tão clara e profunda, o remoinho que nos surge em momentos de pausa e isolamento. Farewell John: o “espião” da literatura que sempre nos aqueceu a alma.

20 Canções para 2020

I’m New Here (Gil Scott-Heron e Makaya McCraven) – Olá. Sou novo aqui, sou novo nisto. Nisto de montar uma casa, que é o mesmo que dizer, nisto de viver numa casa, num espaço permanente e contínuo. Estudo o Estado, que é um espaço permanente de co-existência, mas talvez a primeira unidade política deva ser a casa, com as suas janelas e paredes e chãos e tetos. Gosto de estar, e gosto de estar em casa, que é uma forma boa de viver, de crescer. Às vezes ouço umas canções, elas ajudam-me a estar, a perceber que sou parte integrante de algo que me ultrapassa em realidade e potência. Faz-me feliz, a casa, e tudo o que nela se encontra.

Bad Decisions (The Strokes) – Todos nós já estivemos aqui. Jovens, inocentes, desesperados por aquilo que julgávamos ser amor, mas que na realidade era apenas uma sede de qualquer coisa inominável que nos fazia sentir vivos, reais, decisivos. Sem saber bem como, estávamos já a montar a casa, ou pelo menos à sua procura, tomando as decisões que julgávamos certas ou, no mínimo, menos falhadas. No caso do meu próprio combate político, peguei numas guitarras e numa voz blasé e numas letras desorientadas sobre coisas que são difíceis de explicar, e deixei-me conquistar por um estilo que nunca seria o meu, porque era demasiado bom, tanto que treze anos depois consegue ainda ser relevante, com um pouco mais de sabedoria, mas sempre muita desorientação. A casa o que é de casa.

The Steps (Haim) -Nunca fui a L.A.. Ainda não fui capaz de dar esse passo, de ir ao reino do oeste sentir o sol, conduzir por grandes avenidas, e sentir uma outra versão do plano. Vivo na capital do oeste do leste, num sítio que é tanto Europa como mundo, que é tanto mar como terra, tanta pedra como céu. Às vezes é difícil: difícil perceber o que é, o que há, o que se é e o que se tem. Mas outras vezes corro, vou correr – por cima de pedra, junto ao mar, sob o céu – e canto, abanando os dedos e abrindo os braços, com suor a cair por todo o lado, livre e total, e não percebo porque é que às vezes não me percebo, mas é como Wittgenstein podia ter dito, se em vez da linguagem tivesse olhado para a existência: sê, e faz favor de curtir esse som.

Kashmir (Filipe da Graça e João Gambino) – Soube muito bem ouvir o Filipe de novo, depois de tanto tempo londrino pelo meio, com cinco pequenas canções de de folque-roque com o amigo Gambino. Imediato, elegante, e aconchegante para chuchu.

Velodrome (2nd Grade) – O mundo complica-se, mas há quem se mantenha simples. Não é nada de segunda classe, o roque destes meninos: canções pequenas e simples mas com intenções claras, feitas só com refrões. Velodrome foi o grito de manifestação que abraçou o desconfinamento veranil – não soube tão bem? – quando o sol veio e pudemos voltar à luta.

Karen O (Sun June) – Eu estive em Brooklyn, sim, há muito tempo atrás. Não vi a Karen O, mas dormi num apartamento. De noite sonho, e nos meus sonhos vou a muitos sítios, mas nunca a apartamentos. Sou mais de hotéis, aeroportos, casas de praia, campos, e estradas. Nos meus sonhos é sempre de dia, ou há sempre luz, não sei bem: estou sempre a mexer-me, em movimento contínuo. Encontro imensa gente, gente tão diferente e tão nada-a-ver, e eventualmente acordo e nem sei bem de onde vim, e o que estou a fazer, e por isso acuso alguma lentidão e cansaço. Mas fico sempre feliz por saber que estou aqui, no teu apartamento, que soube voltar para o teu apartamento, no meio de todo o movimento.

Hungry Heart (Bruce Springsteen) – No último capítulo do romance que nunca vou escrever as personagens encontram-se todas num bar (na minha cabeça é o Roterdão, mas no romance não sei, pode ser uma versão do Roterdão). Encontravam-se pouco resolvidas, no início da história, e não é claro se estão mais ou menos resolvidas agora, no fim. O que é certo é que estão ali – algumas como espectros, outras como corpos, umas no passado e outras no futuro – e que estão todas livres, soltas e totais na pista de dança, sob as luzes vermelhas, no meio de tantas outras figuras, a cantar e a sorrir, porque todas têm um coração, todas têm um coração, todas querem dançar e dar a mão, e eu espero que não falte muito para que possamos todos voltar a fazer isso, porque faz falta, faz mesmo muita falta.

I Contain Multitudes (Bob Dylan) – O Bob Dylan entrou em dois mil e vinte para nos dar um dos maiores mic drops da história, e boy como soube bem ouvi-lo, oh se soube.

Tou na Moda (Conjunto Cuca Monga) – Foi o disco que mais ouvi e a que mais voltei neste ano. Nesta festa de e entre amigos é impossível não curtir o groove e as graças, os exotismos e as idiossincrasias, o talento e a diversão que por ali abundam. Talvez por isso seja difícil escolher uma canção entre muitas, mas talvez por isso é que escolho, sem razão, esta, com beijoca e passou-bem.

Retorno a Casa (Te Voy a Matar) – O Silas é o maior e deu-nos a banda sonora da rentrée, numa aventura cósmica de proporções bíblicas (pun not intended) com surpresas a cada canto. Adoro bons discos instrumentais, que mais do que serem bons para ocupar o espaço nos puxem para dentro, para as suas curvas e contracurvas e todas as provocações que daí advém.

Time (You and I) (Khruangbin) – O segredo de uma vida feliz está no refogado, na quantidade certa de tempo, azeite, cebola e alho que conseguimos misturar. Depois desta canção, nenhum refogado será o mesmo, garanto-vos.

There Must Be More Than Blood (Car Seat Headrest) – Interessam-me zero os sonhos de grandeza, prefiro antes uma boa malha que corte direto para o que interessa. Will Toledo talvez esteja mais preocupado na marca do que no conteúdo, a julgar pelo seu último disco, com a exceção deste grande som, em que mostra que sabe bem o que é jogar com os grandes e fazer um refrão que fique.

Desilusão (Primeira Dama) – Manelito, não sei se algum dia serás star, ou sequer super. Mas fizeste uma canção muito sentida e que bateu de maneira muito forte no ano deste rapaz que aqui te escreve, um rapaz que também adora os Strokes, e que também fica a arder no inverno. Não sei se era este o plano, mas olha, estás lá, estás mesmo lá.

Coinstar Song (Juiceboxxx) – A canção do ano, presente em todas as corridas, em todos os momentos de festa, em todas as vezes que era preciso abanar o capacete e sentir-me como um adolescente de dezassete anos a curtir a vida no quarto, como se estivesse standing in the middle of a punk rock show.

Tudo bem (Os Morangos Estão Lá) (Jorge Palma) – O Silas é o maior (outra vez) porque numa lista de canções que partilhou nas redes a dado momento tinha lá esta pérola. O registo é clássico Jorge Palma, a letra é de resignação e ironia, de despedida e de aceitação, e aquele riff de guitarra antes do verso – Mas tudo bem, – é só incrível.

Photograph (Nickelback) – Foi um ano difícil, percebem?

Brainwashed (Stephen Malkmus) – Houve uma altura, no confinamento, em que acordávamos e íamos para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Fazíamos café de cafeteira, papas de aveia, e comíamos alguns frutos vermelhos. Depois íamos para o sofá. O sol batia do outro lado da janela; à nossa frente, na televisão, estava a nossa imagem refletida. Naqueles quinze minutos em que estávamos sentados, antes de nos lançarmos aos afazeres de montar uma casa, uma rotina, uma vida a dois, sabia bem a calma, a luz, o acordar. Sabia mesmo, mesmo muito bem poder parar e olhar para a cara da Carol, para as doces bochechas da Carol, e sentir a alegria de viver esse dia (e os outros todos) com ela.

Ronaldo (Chico da Tina) – Não faço a mínima ideia se este tipo dura para lá do próximo disco, mas também não me interessa. Tem sons muito engraçados, e arriscaria dizer, sentidos. Este é completamente uma victory lap, um ponto alto indiscutível, que ainda não saiu da minha cabeça.

Serviço de Despertar (Benjamim) – Estou num uber a voltar para casa, e está a chover lá fora. O carro segue entre outros, não meto conversa com o condutor. Estou cansado, porque este ano trabalhei muito mais do que noutros anos. Aproveito a viagem para me desligar, para tentar sonhar com outra coisa que não o que tenho para fazer. Passo pela Praça de Espanha, e depois pelo Corte Inglês. As pessoas andam de máscara na rua, os restaurantes vão ter de fechar pelas dez e meia. Lembro-me da Brotéria, do bom que é almoçar ao sol na Brotéria. Agora é de noite, e o carro está a chegar. Subo as escadas do prédio e apetece-me, mal abro a porta, pegar na Carol e dançar ao som deste refrão lento, calmo e seguro com ela, antes de nos deixarmos estar a retomar a rotina deste primeiro ano a dois.

Ode to the Mets (The Strokes) – Todos nós já aqui estivemos. Trinta e dois anos, a acabar uma tese no ano do casamento e no meio de uma pandemia global. A preferir ver séries em vez de filmes, a ler mais livros de direito do que ficção, a deitarmo-nos no sofá para tirar notas à vida e a acabarmos a olhar para a planta que comprámos para casa, uma planta a quem demos um nome e que tratamos pelo mesmo, com carinho. Parece estranho, mas é bom. A dado momento a canção começa a tocar, e rio-me porque o riff inicial é parecido ao do Is This It. Todos nós já aqui estivemos, neste exato momento, em que o tempo nos colocou, a sentirmos que a nossa vida, por mais caricata que seja, tem algum sentido. Agora, se não se importam, vou só ali fazer o jantar, porque já se faz tarde. Mas se quiserem ouvir alguma coisa, fiz uma lista, e está aqui em baixo. É só escutar. Tchidles.

Corri vinte minutos

Corri vinte minutos e achei as coisas bem, cheias de sol. Apontei o dedo para casa, para aquelas duas bochechas muito bonitas e sorridentes, e pensei no realismo jurídico e mágico da vida, e cantei o verso, contigo sou agradecido, contigo sou sempre agradecido, e continuei.

Sobre o mar

Abrimos a janela e a noite estava boa, nada fria. Algumas nuvens, um barco com as luzes todas ligadas, um autocarro a passar o Rossio, ninguém à vista em lado nenhum (rua, janelas, nada). Ouvi o avião, e espantei-me, porque há tanto tempo que não reparava em aviões, e ainda para mais estamos em recolhimento, quem é que voa quando o país está em recolhimento? Mas não pensei muito nisso, e virei-me para ver o avião, seguindo-o com os olhos, e o avião subiu e virou, entrando em cheio nas nuvens, desaparecendo no meio delas, muito lentamente, como num filme. Depois voltou a ficar tudo calmo, as pessoas continuaram recolhidas, a Carol tirava fotografias e o céu estava aberto e limpo, sobre o mar.

Re / colher obrigatório

No primeiro dia / de recolher obrigatório/ eu estava na rua / quando começou / o recolher / obrigatório / não era o único / na rua / existiam / outros / músicos, atores, estrangeiros, professores / mendigos / e um casal / na varanda / com uma vela / na mesa / a / cesa / estariam eles / a violar / o recolher / obrigatório? / Acabei por entrar em casa / quinze minutos atrasados / um quarto de hora académico / depois / do re/ colher / obrigatório.

Pensilvânia, céu

Tirei esta fotografia, segundo os registos, no dia 7 de abril de 2018, às 9:40. Estava em Scranton, onde nasceu Joe Biden, embora eu não soubesse isso nessa altura. Na realidade, eu não sabia nada sobre Scranton (nem sequer que o The Office americano se passava ali). Vim de Wilkes-Barre, onde assisti a um stand-up de Jerry Seinfeld, seguindo a sugestão do Road Foods, o melhor guia que podem usar para conhecer os EUA. Cheguei ao Glider Diner e o Glider Diner era o diner americano que eu sempre quis conhecer: bancos vermelhos, refill de café, e um pequeno almoço que é capaz de matar de ataque cardíaco qualquer pessoa normal. Não me matou, felizmente, e saí e fiz-me à vida, a caminho do norte. Antes, tirei esta fotografia, segundo os registos. Lembrei-me dela hoje, ao ver a vitória de Biden. A América continua muito dividida, continua muito diferente, continua muito tensa, e esta eleição. Mas, talvez agora, possamos começar a olhar para o céu, novamente, com outro ar.

A América

A América é uma ideia que é real. É mesmo, mesmo muito real. Aquelas casas de madeira, com os alpendres e os jardins, as casas todas iguais por dentro e por fora, com pessoas completamente vivas e fodidas, por dentro e por fora, isso tudo que tu vês na televisão e no cinema? A América é assim. É exatamente assim. Mas real. Podes tocar na América, podes beber um copo nos bares da América e andar de carro pelas estradas da América, que é tudo tão, mas tão tão maior que a ideia que tens dela. O céu é mais América, a estrada é mais América, o café (porra, o café) é América-máximo. E sim, é tudo bom, e é tudo mau, e é tudo o que é, bom e mau, médio e normal, é a América. Há racismo na América, e dói. Há violência na América, e dói. Mas há amor e amizade na América, e é bom. Há sonho, há esperança, há luta na América. Há fé, e é complicado, mas há muita fé na América. E nós estamos aqui e eles por lá, um país que é uma ideia, e uma piada, e uma série e um filme e milhões de discos. Milhões de livros. A América é lixada, e é entusiasmante, e é dreamy, é muita coisa. Eu gosto muito da América, e odeio muita coisa da América. Gosto de small towns. Gosto de Bruce Springsteen. Gosto de guiar pelo Texas. Gosto do Arizona. Gosto muito de Ann Arbor, que é uma América entre mil. It may be a long while before the highway / decides to finally set me free. Hoje é o dia em que a América elege o seu presidente. Vou estar atento, a ver o que se passa, na América. A América. Que cena.

Sonhos de ouro

No sonho de ontem estava numa floresta, numa casa (num hotel?) na floresta, e havia bruxas e pessoas com poderes especiais, fenómenos luminosos e místicos, e pessoas que fugiam umas das outras, que não se queriam encontrar. Mas eu encontrava todos, debaixo de uma vindima; estava fresco, matinal, apesar de escuro. Depois estava num aeroporto, num quarto de hotel dentro de um aeroporto, a caminho de um avião que parecia estacionado junto a uma bomba de gasolina de berma de estrada. Depois outra vez o ar, a natureza, o mar ao fundo, qualquer coisa de terra. Por fim, uma sala de concertos, de exibições, de filmes, com muita gente à porta. Sem canções: nunca se canta, nos meus sonhos.

Romance académico, número Uber

Chamava-se Giuseppe e era romano. Tinha 72 anos, e estava divorciado; a ex-mulher tinha ficado a viver no Brasil. Falou muito do seu filho Alessandro, que tinha sido advogado, e agora estava a estudar para ser juiz. Alessandro fala seis línguas e faz três anos que está a preparar-se para os exames, aproveitando para ler sobre outras constituições. “A Constituição italiana”, disse Giuseppe, “diz que Itália é fundada no trabalho”. Eu disse-lhe que as constituições são exemplos de uma promessa, de uma ideia, até da alma de um país. Ele riu-se. Não lhe disse o que fazia, nem que era o meu dia de anos. Não lhe interessava para nada.