Ending and beginning of a summer dia

Naquele pequeno momento de noite / manhã em que saí de casa para ver o alpendre / terreiro e respirar (reflectir?), antes de me virar e voltar para dentro, perante o céu claro / nublado e o barulho da rega, passou uma brisa, um espaço, um qualquer toque de mundo, natural, mas ao mesmo tempo dificilmente nomeável. Olhei à volta, e depois fiquei parado. Estava tudo calmo, tudo muito calmo. A casa, o tanque. As árvores, as plantas. A noite e a manhã. Os grilos e os galos, os irmãos e os sobrinhos, a mãe madrugadora, os convidados adormecidos. Os pássaros, a magnólia, a sala da torre, o cesto de basquetebol do terreiro. As folhas amarelas do Midwest com apontamentos sobre federalismo, as duas canetas, os marcadores e o céu. A rega. O oratório iluminado. Os livros e as janelas. Os morcegos. O calor da pedra, o cheiro a relva fresca. A canção / o mergulho sobre a / na época / zona do tubarão. As pessoas, a oração, os pensamentos, o sentido, o sabor a café na boca. As notícias e os poemas. O filme de Ingmar Bergman sobre o verão e a aveia do pingo-doce ao pequeno-almoço. O corpo, a alma, a memória, o desejo, a vontade e o saber, a dor e a alegria, e o amor. Tudo, tudo calmo, neste fim / início de dia.

Palavra pouca (rascunho para um poema feito à hora de almoço)

Toda a palavra é pouca

para descrever

o calor que se sente às sete da

tarde, do

alto do bairro da

Conchada, em 

Coimbra, no 

segundo dia do mês de

agosto. 

É pouca para conseguir

explicar a escolha de uma imagem para 

representar, numa

conversa, um 

conceito existencial

pesado, como

“vida”.

Qual a

melhor?

Uma

árvore, uma

planta, um 

sol, uma

onda, um

céu, ou

uma

janela? 

É pouca para capturar

o caminho nocturno até

ao jardim do

Torel, ou 

a sensibilidade de um poema curto

de Alberto de

Lacerda, ou

a buganvília que está do outro lado da janela durante o 

almoço, ou

ainda, a

sensação de estar sentado junto ao

tanque, em

casa da 

Mãe, junto 

à freguesia de 

Gandra, com

os pés e os gémeos dentro de

água, no 

terceiro dia do mês de 

agosto, durante

o calor das duas e pouco da

tarde.

Qualquer palavra é

pouca; mas

há palavras

que, mesmo

assim, conseguem ser

muito, fazer-nos

sorrir

muito.

Como, por

exemplo, o

nome masculino

“Wonder”, ou 

a alcunha feminina

“leve-leve”, ou

 a expressão inglesa “skinny     

dipping”, ou

o nome de cada um dos tipos de tomate que

está à venda no supermercado de

S. Martinho (a

saber, por

ordem de 

exposição: 

tomate,

cacho,

xuxu, 

coração, e

cherry).

Diário de tese, o regresso

O quarto estava fresco quando acordei. Dizem que hoje vai ser um dia quente. Tinha medo do calor, e por isso ontem adormeci sem roupa. Mas de manhã quando acordei puxei o lençol para cima do meu corpo bronzeado, e depois sorri. Hoje é o meu último dia de férias de verão. Passei as minhas férias num acampamento na Beira Interior, a ouvir música transe e a tomar banhos sem roupa num lago, e em Lisboa, a ler poemas e a fazer passeios nocturnos junto ao rio ou pelo interior da cidade. Ando a ler muita poesia e a andar muito. Se calhar há alguma ligação entre “dar passos” e “ler poemas”, ou escrevê-los. Se calhar é pelo espaço que existe, numa rua e num verso. Se calhar passear é a forma ideal de viver e sentir a poesia da vida, ou pelo menos de descobrir e percorrer um tipo de poesia existencial, num caminho muito próprio. Não sei — só sei que nestes dias entrei numa livraria para comprar um manual de direito de valores mobiliários e saí com duas colectâneas de poetas portugueses. Quem nunca? Fui jantar a Campo de Ourique e fui lanchar ao Saldanha. Estive com amigos, fui à missa de noite, e andei de mota. Provei molho inglês e partilhei guardanapos de papel. Sentei-me de noite, quase madrugada, à porta de um prédio, onde julgo onde um dia ter entrado para tratar de problemas forenses, a olhar para a rua, para o lugar da antiga livraria Bucholz, com o ombro direito preenchido de sonhos e promessas livres. E fui à praia. Peguei num carro, levei uma cadeira, uma garrafa de água, uma toalha e um amigo, tive uma mini-quebra de tensão, comi uma bola de berlim, fui ao mar, e li poesia. Foi o meu primeiro e talvez único dia de praia deste verão. Isto porque se me acabaram as férias. Estou na sala de estar de casa e a sala de estar também está fresca. Tenho uma mala para fechar e um carro para encher. Depois vou guiar, pelo meio do calor, estrada acima, de volta para o pequeno paraíso minhoto onde estão os meus livros, as minhas ideias, a minha família, e uma parte importante de mim. Levo poemas, tenho lá outros; tenho também muitos livros de direito, de contratos comerciais e de federalismo, entre livros de tecnologia e romances sul-americanos. Não tenho ruas, não tenho jardins, não tenho molho inglês. Mas tenho uma janela e da janela vê-se o céu. O céu é sempre o mesmo, onde quer que se esteja. Como a vida; a vida é sempre a mesma, onde quer que se esteja. A nossa janela — exterior e interior — é que muda. Lame? Talvez. Mas que querem? Acabaram-se-me as férias, mas não se me acabou o verão. Esse — um longo, livre e bonito poema, de uma leveza tão apreciável e de passos (versos?) lentos, certos e preenchidos — continua. Inté soon. 

Upon reading Alejandro Chacoff’s review of Jorge Barón Biza’s “The Desert and Its Seed” in the NEw Yorker Edition of August 6 and 13, 2018

I sometimes t

hink about it, you

know. I’m a

man, a product of

love between two different

people, and here

am I, living

under God’s mercy, unable to

grasp God’s mercy but

accepting

that it exists, just like

me (and you, and

we) e

xist, a lawyer that

enjoys reading

too much, for his

own sake. I

particularly like to

read novels. They

take us to places that we don’t

really understand, but k

now, or

maybe it’s the

opposite: that we k

now, but

don’t really (maybe, just maybe)

understand. If I were a

character in a

novel – and there were m

any times in my life that I

wished I was a character i

n a novel –

I would like to b

e a character from a

Latin-American

novel. They

seem so

fleshy, so

cool, so

violent, so

desperate, so

powerful, so

crazy, so

weak, so

amazingly, magically, realistically, hu

man and

poetic. I

sometimes think a

bout it, you

know. Like

this.

Summer céu

Está uma

manhã fresca

no pátio cá de

casa.

Acordei e fui

ao supermercado comprar

aveia, e leite, e

pão, e ver o céu

azul, do cimo 

da minha rua.

O céu desta 

rua é diferente do 

céu das estradas nacionais e 

intenerários complementares

e autoestradas da 

Beira Interior.

Na Beira Interior o céu é

mais aberto, mais forte, mais

violento. Menos

elegante, mas não menos

bonito.

As paisagens da Beira Interior 

são bonitas.

É um facto que

viajar pelas estradas do Texas 

é um sonho, mas 

viajar pelas estradas da 

Beira Interior sabe 

à vida.

Estive na Beira Interior a 

sentir o calor do sol a 

cair-me no corpo; tenho 

os ombros 

ligeiramente encarnados, e 

o peito

a barriga

os braços

as costas

as pernas

as mãos

os pés e

a cara

queimados. 

Uma amiga disse-me que

este bronze passa 

rápido; acho que 

tem qualquer coisa que 

ver com a falta de 

iodo da água do 

lago onde tomávamos

banho.

Estive a acampar num

sítio com pó, sol, e céu; também

houve música, luzes, e 

.

Os meus amigos e eu assistimos ao

eclipse lunar — para o

jornalista, a lua parecia uma 

bola de ping-pong, para o

auditor, esta visão era 

o fenómeno natural

mais incrível que ele já tinha

presenciado, para a Vida do 

auditor este cenário era 

uma coisa muito bonita, e 

para mim também. 

Estávamos bem, os 

quatro, estávamos mesmo

bem, se é que me

entendem, se é que 

percebem e amam o 

exercício desse belo vício que é 

a amizade.

O acampamento acabou

no sábado, e eu acordei

na Beira Interior e arrumei

a tenda e a mochila e o 

saco-cama na mala do 

carro, e

fiz-me à estrada. 

Pensei, enquanto 

conduzia, que se estivesse em 

Londres teria, dentro do 

humilde escopo da minha

liberdade, talvez ido a

Battersea Park deixar-me cair 

na relva, talvez tivesse decidido 

correr, fossem qual fossem

os meus sapatos.

Depois teria “feito ruas” em 

Chelsea, até ser de

noite, e andaria até 

Temple Underground

Station, dançando uma 

canção qualquer aleatória pelo

caminho, sabendo, sentindo e 

apreciando o facto de isto 

estar a acontecer, e 

olharia para a lua quase

cheia, clara como a lua quase

cheia da Beira Interior, e 

lembrar-me-ia de estar a caminho 

da tenda, de noite, na 

Beira Interior, a escutar a 

emocionante calma que a 

felicidade pode ter.

Mas agora estava a 

conduzir, na estrada, sob

o céu azul, com uma canção da

Marisa Anderson a tocar no

rádio, e estava 

a caminho.

Cheguei a casa e fui

tomar banho, tirar o 

pó do corpo, cozinhar 

ovos mexidos para o 

almoço, vestir o 

fato, pôr uma 

gravata, voltar para o 

carro e apanhar a 

A8, para assistir ao 

casamento de um amigo.

Encontrei na minha

mesa um italiano que 

conheci há dezasseis anos

atrás, num curso de 

inglês de Verão, em 

Cambridge, quando eu sabia 

pouca coisa para lá

de saber falar 

inglês, mas sabia, pelo 

menos, que era 

um sentimental. 

Voltei cedo para

casa, estava

muito cansado, mas

ainda assim fui 

ler alguns

poemas, e depois

fui dormir. 

E agora acordei, “ainda

“meio vivo / um pouco

ensonado / é mais ou menos

fácil entrar na vida

depois destas coisas”.

Está uma manhã fresca, e 

aproveitei para juntar 

canela por cima

dos mirtilos e das framboesas

e das nozes e das avelãs

e da(s papas de) aveia

e bebi a meia-de-leita

na chávena que era

do meu pai. 

Estrada nacional

Descrevemos os sentimentos por palavras, encaixamos reflexões em caixas de texto, e depois arranjamo-nos, tiramos pêlos da ponta do nariz com uma pinça e perfumamo-nos depois de um banho, enquanto o fumo nos tapa a visão no espelho de outros detalhes do corpo e apenas nos projecta a nossa forma, que em forma ou fora dela é sempre justa, e colocamos um bom fato, uns bons sapatos e uma boa camisa, uma boa gravata com um nó possível, e uns óculos escuros, os quais perderemos mais tarde sem saber como nem porquê, e assim, todos pipis, pegamos num carro e guiamos, pela tarde, rumo a uma festa, e olhamos para a estrada, e pensamos que a estrada em que estamos é bonita, o que quer dizer que a paisagem em redor da estrada é bonita, porque uma estrada é feita de alcatrão e tinta, mas o que a rodeia é maior, é um mundo autêntico, um mundo feito de árvores e jardins, de hortos carregados de áceres, de casas caiadas de branco com estruturas de pedra maciça e brilhante, com bombas de gasolina que dispõem de bar, restaurante, antiquário e cabeleireiro, tudo na mesma bomba, que para além de um negócio podia ser uma rua, e pensamos que a paisagem é bonita, que a zona é bonita, e ficamos levemente emocionados, e pensamos num diálogo imaginário, em que dizemos ao outro que nos ouve, imaginariamente, que se não fôssemos lisboetas seríamos minhotos, por certo, e pensamos num verso que pudesse servir para um poema imaginário, uma frase ou parágrafo para um conto assombrado de realidade, do género dos contos de Herberto Helder, algumas premissas literárias que rasguem e provoquem ao ponto de nos diminuir a alma e o sentido ao nível mágico da evidência dos factos, transcrições desenhadas a caneta de escritório de advogados numa folha amarela de linhas que veio da América, uma soma de palavras seguidas e gramaticalmente coerentes, uma coisa assim tipo: “Já percorreu uma estrada nacional minhota? Não? Mas tem ideia, por certo, dessa construção metafísica e sublime que é a nacional duzentos e um, sentido Ponte de Lima para Braga, conduzida à tardinha de um sábado em que se oferece um matrimónio ao mundo? Ou então já lhe chegou aos ouvidos e ao coração a ideia da mesma via, o mesmo alcatrão e tinta, mas percorrido no sentido de Braga para Ponte de Lima, de madrugada, com o céu ameno, a paisagem serena, e a velocidade excessiva dos automóveis que isoladamente nos acordam do sonho de vida em que estamos?”, e pensamos depois se chegaremos antes da noiva, se a noiva se vai atrasar mais do que o devido, e quando a noiva entra na Igreja do Mosteiro e o coro começa a cantar ao nosso lado a canção da banda do noivo, sobre uma estrada branca que é um caminho e ao mesmo tempo um grito de desejo, de verdade, da promessa de um encontro e da descoberta do amor, coisas abstratas mas sentidas, e pensamos outra vez na forma justa de passar coisas que se sentem e que se refletem, se em texto ou se em canção, mas a canção também é texto e também é inútil, no fim do dia toda a descrição é inútil, porque o que interessa é o que se vê, é o que se é, é onde se está, e o que interessa é a felicidade indiscutível dos nossos amigos recém-esposados, são as paredes de pedra da pousada, são os montes do Gerês e o pôr-do-sol que vai caindo, são as mesas de jantar  colocadas a céu aberto, dentro do pátio da pousada, são os sorrisos dos outros amigos dos teus amigos, alguns deles teus amigos também, todos suados e bêbados e divertidos numa pista de dança, carregando o noivo em ombros, bailando com a noiva nos braços, circulando entre si um belíssimo chapéu de cabedal, comprado numa loja em New Orleans, onde havia um saxofonista a tocar e os empregados ofereciam rum aos clientes, esse chapéu que não perdemos, que levamos connosco da pousada, já com a gravata dobrada no bolso e os óculos escuros perdidos, quem sabe se para sempre, muito provavelmente para sempre, com a luz do dia a nascer por detrás dos montes do Gerês, e pensamos enquanto entramos no nosso carro novo, que já agora diga-se que se está a portar muito bem, pensamos enquanto guiamos pela estrada, de forma lenta e cuidada, sem música no rádio e com as janelas abertas, o quão bom foi estar ali, e pensamos nas mesas em que nos sentámos, e tomamos consciência de que estivemos sentados a comer arroz de tamboril numa mesa em que se discutia violentamente a monarquia e a república, e que aborrecidos pelo tema fomos comer vitela numa outra mesa, com amigas que foram amantes dos teus amigos, um cenário felliniano incrível, cheio de descaramento, álcool e humor, ou apenas uma coisa banal, e não por isso menos digna e espetacular, como o vento na cara, o poema do vento e a palavra liberdade, que temos sentido e usado tanto nos últimos tempos, pensamos nisso, na liberdade, e o céu já está azul e a estrada já é outra, já estamos em Talharezes a passar o Adão, a passar a placa para Gondufe, a passar esses nomes que podiam ser de discos ou de bandas, ou que nos fazem lembrar discos e bandas, e pensamos em não adormecer hoje, em parar na aldeia antes de casa, sair do carro, pôr o chapéu na cabeça e ir à pastelaria Moinho comprar pão para casa, e aproveitar e tomar o pequeno-almoço, não vá a fome tornar-nos sentimentais, uma meia-de-leite e um croissant, algo mais do que suficiente para nos sentirmos confortados, embora seja uma opção de vida obviamente mais cobarde que a adoptada pelo o senhor que está ao nosso lado no balcão, que nos diz bom dia, que nos diz que o grupo que está lá fora fala muito alto, o senhor a quem respondemos que sim, que é impressionante a energia que se pode ter às seis e quarenta e seis da manhã, enquanto pensas porque é que estão dez pessoas em amena cavaqueira numa padaria em Gandra às seis e quarenta e seis da manhã de domingo, o senhor que se contenta em pedir o “costume” e que recebe da empregada o “costume”, um café com um copo de bagaço, para que a manhã comece logo com cheirinho, mas a nossa manhã também começa com um cheirinho, neste caso a trinta carcaças quentes, divididas em dois sacos de papel e transportadas no banco de trás do carro, e “no banco de trás de carro / o meu amor diz que” estamos bem, bastante bem para quem dormiu apenas cinco horas na noite anterior, a noite anterior que neste momento já foi há um dia atrás, quando o tempo estava fresco e cinzento, não como este dia que começa e já se vislumbra quente e claro, como se fosse verão, e fresco só está o orvalho da relva da casa, quando pensamos em sentarmo-nos na relva da casa para gravar os sentimentos, encaixar as reflexões em ficheiros digitais de voz, e somos espertos o suficiente para pôr uma mão primeiro na relva antes de deixarmos assentar o rabo, sentindo de imediato a humidade fresca do verde, e levantando-nos de seguida, optando por gravar os sentimentos de pé, ouvindo a nossa própria voz rouca, cansada e sentida, e depois entrando em casa, como se fosse um dia como outro e não domingo, um dia de trabalho semanal, em que acordámos cedo, vestimos um fato e pusemos um chapéu, fomos à aldeia tomar o pequeno-almoço, talvez até “o costume”, e voltámos com dois sacos de pão quente para a casa, e depois seguimos para o nosso escritório e pusemos o chapéu em cima da mesa, o casaco nas costas da cadeira, fechámos os olhos e rezámos, abrimos os olhos e os livros de federalismo e direito, sim, um dia normal, pensamos que podíamos viver essa personagem, não dormir e viver isto como se fosse mais um dia, mas já nos conhecemos, e caímos na cama com as portadas do quarto fechadas, com a ténue luz do sol a tentar entrar pelas frechas, e sabemos que não vamos dormir muito, que vamos acordar cedo e com os músculos doridos, com a voz perdida, com demasiado açúcar no sangue, e que talvez tenhamos de fazer domingo à séria, beber copos de água e comer bolo de limão caseiro, ir tomar banho ao tanque, ler um livro de Herberto Helder e outro de federalismo, e adormecermos cedo, e com pinta, depois de vermos e pensarmos naquilo que temos para dar à semana que amanhã começa. E depois dormimos.