Working title, número um

A Friday late-afternoon jog around Burns Park, with the sun slowly setting in the sky, and that thing that is accurately described as the “junkyard of the self” (Ali Smith’s words; not the researcher’s) slowly dissipating like the gallant piece of shit that it is, and the chill and goofiness of life remaining, around the many houses and porches that appear and keep appearing and coming like, as the Portuguese people sometimes say (the researcher in particular) “there was no tomorrow”; and although there are many tomorrows as there are leaves on the ground (very few leaves on the trees; many tomorrows in the mind and in the sky) it is very difficult to escape the feeling that, well, yes, we are already in the time of that thing the ancients most beautifully named (and you, and also me) as “spring”. Simply — how should I put it? Ah, well, I’ll just say it and damned if it sounds cheesy — awesome. Simply awesome, peeps.

Romance académico, número três

A vida de um investigador é feita de desejos, sonhos, frustrações, desilusões, e muita, muita luta. Nisso, é relativamente semelhante àquilo que é considerado, em jargão comum, como “uma vida normal” (apesar de qualquer ser humano que se preze, investigador ou não, saber que tal conceito é altamente controverso). No entanto, existe uma dimensão na vida de investigador que tem um peso um pouco maior do que na (alegada) vida normal. Não é a disciplina, não é de todo a rotina, nem é a concentração. É o ritual. Um investigador precisa de rituais: de coisas incontestáveis e seguras, livres das garras das considerações científicas que tudo questionam, e pelas quais, por defeito de profissão, ele tem de seguir.

O nosso investigador tem alguns rituais — podem chamar-lhe “manias”, é outro termo aceite na doutrina — e um dos que mais preza é o seguinte. De manhã, seja lá a que horas é que isso seja, ir tomar o pequeno-almoço, seja lá no que isso consistir, e ler, por esta ordem: notícias agregadas por uma aplicação agregadora de notícias, um jornal generalista português, um jornal desportivo português, um jornal desportivo espanhol, um jornal generalista inglês (e em particular a secção de desporto deste jornal generalista inglês) e um jornal generalista norte-americano. Chegado a este último elemento — por esta altura está somente com a sua meia-de-leite ao lado — trata de passar a fazer a derradeira tarefa que lhe resta antes de ir à vida: as palavras cruzadas diárias do dito jornal generalista norte-americano. E a partir daí o mundo ganha sentido. Sem café, o mundo acaba; sem palavras cruzadas, o mundo é um caos. É mais ou menos este o peso das prioridades deste indivíduo que vos descrevo. Mas as pessoas são estranhas.

O que se segue, após esta breve exposição, é uma descrição de um pequeno-almoço recente do investigador.

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O investigador está sentado na mesa preta da cozinha, à cabeceira. Está a comer granola com iogurte de uma taça, e tem uma chávena de água escura a fumegar com cinco gotas de leite lá dentro ao lado (segundo a doutrina norte-americana, isto chama-se “café”; segundo a doutrina europeia, isto chama-se “uma piada”; por fim, segundo a doutrina portuguesa, isto chama-se “uma violação dos direitos fundamentais mais básicos de qualquer ser humano” ou, simplesmente, “uma valente merda”). Está a ler as notícias no agregador de notícias. Parece ser um dia normal, como os outros.

Nisto, entra o colega de casa número dois (“o francês”).

F: Olá.

I: Olá.

F: Ouviste a sirene, ontem?

I: Aquele barulho às duas da manhã?

F: Sim.

I: Era uma sirene?

F: Parecia uma sirene que se ouve num porto, dos barcos.

I: Pois era. Mas não há barcos por cá.

F: Pois não. Não há barcos por cá.

I: Pois.

O francês dirige-se à banca e começa a tirar os instrumentos para fazer a sua panqueca de frutos vermelhos e banana, uma mistela qualquer ultra-nutritiva e que o investigador confessa que tem bastante bom aspecto. Enquanto lê uma notícia musical no agregador de notícias, o investigador pensa no som de ontem. Parecia, de facto, uma sirene de barco. Depois pára de ler e pensa: a cidade chama-se “Ann Arbor”; se tivesse um agá, Arbor (ou Harbor) significaria “porto”, em inglês. Acha a ideia engraçada, uma sirene de barcos numa terra com o nome de porto. E depois volta a ler as notícias.

Nisto, a colega de casa número um (“a remadora”) passa pela sala, diz um “Hi” com aquele tom altamente american-girl cá da terra, um tom que é altamente estridente e que requer pelo menos um minuto de recuperação após escuta, e segue para a saída de casa e diz, antes de sair, “Bye”, com o mesmo tom, e deixando outro minuto de recuperação a ser necessário.

Onde é que ele ia, o investigador? Quase a acabar as notícias da aplicação. Novidades da jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia, em que não parece haver nada de novo. O ruído do adeus da remadora ainda ecoa um pouco, mas nada que não passe. O francês entretanto está a cozinhar a panqueca e a mandar mensagens de voz em francês à amiga de uma italiana que mora no andar de cima, e que ele está de-ses-pe-ra-da-men-te a tentar conquistar. Sem sucesso, mas as mensagens são cómicas e expressam a falta de jeito para a sedução do rapaz (quem nunca…) e, com isso, distraem o investigador na realização do seu ritual. Ele apercebe-se da distração e respira fundo, come mais uma colher de granola, e volta a ler as notícias.

Nisto, entra o colega de casa número três (“o recruta”) na cozinha e senta-se ao pé do investigador. Está com ar de quem está ainda de ressaca da festa da sua “fraternity” do fim-de-semana passado. Ou é isso ou é só sono. Trocam os bons dias, mas o investigador não tira os olhos da aplicação. Tem de chegar às palavras-cruzadas. O recruta, que está sempre a piscar os olhos, como se lhe tivessem apontado uma lanterna à cara quando ele era miúdo e tenha ficado com o reflexo nas pálpebras para sempre, tira o telemóvel do bolso.

R: Acho que a minha ex-namorada me odeia.

I: (Olhando para o recruta) Achas que ela te odeia?

R: Iá. Não sei bem, mas acho que sim. Estou quase certo disso. Tipo, muito certo disso. Não totalmente, mas quase.

I: Odiar é uma cena tramada (o investigador é um coração sensível). Porque é que achas isso?

R: Uma amiga em comum mandou-me ontem uma mensagem que a minha ex enviou para um grupo de amigas quando uma delas lhe perguntou sobre mim.

I: Ok (o investigador não quer saber qual foi a mensagem. O investigador não quer mesmo saber qual foi a mensagem).

R: (o recruta passa o telefone) Lê a mensagem. O que é que achas?

I: Mostra (o investigador lê a mensagem. A mensagem diz: “o recruta? Não há muito a dizer. Ele é só o maior pedaço de lixo humano que existe, e para além disso é uma merda de pessoa. Nada mais”.) Pois. Não há muito a dizer.

R: Iá, pois. Acho que ela me odeia, mesmo. Mas pronto. É assim. É o que faz este grande país ser grande.

I: Não percebi (o investigador não percebe muitas vezes o recruta). O que é que faz este país ser grande?

R: (literalmente) “Freedom, man. That’s the shit. Freedom.”

O recruta levanta-se e pega no telefone e volta para o quarto. O investigador matuta por um segundo no que o recruta disse, e pensa se não será isso que faz este país onde ele se encontra ser uma grande loucura. Abana o pensamento e volta a olhar para as notícias.

Está no jornal generalista português, e continua tudo same old, same old na sua terra, tal como quando ele saiu. O francês, entretanto, está sentado na outra cabeceira, com a panqueca em frente, a ler um livro chamado “The subtle art of not giving a f*ck” e a fumar o seu estiloso cigarro eletrónico, que ao que parece se chama Jewel. O investigador sabe que há alguma coisa na imagem que soa a caricatura, mas não consegue perceber bem o que será. Nisto o francês pousa o livro, dá dois bafos e olha para a janela, com um olhar que se percebe distante, pensativo.

F: Hoje sinto-me niilista.

I: Acontece aos melhores.

F: Este livro que estou a ler pôs-me assim.

I: É o risco de ler livros.

F: Já alguma vez leste Nietzsche?

I: Tentei ler o Crepúsculo dos Ídolos em inglês, há alguns anos atrás. Cheguei a metade. Não me lembro muito bem.

F: Esse é dos fáceis. É bom esse.

I: Já leste mais dele.

F: Já li todos dele.

I: És fã.

F: Tenho sempre um livro dele por perto.

I: Porquê?

F: Nunca sei quando é que posso precisar.

I: Para as emergências. Tipo um kit primeiro-socorros. Pensos, comprimidos, e um niilismo de bolso.

F: Exactamente. Kit essencial. Não podes viver sem isso. Eu não posso, pelo menos.

I: Ok. Tipo chardonnay e batidos de proteína, bebidos à uma da manhã de forma intercalada?

F: Do género, sim.

Ontem, muito depois do jantar, quando o investigador estava no sofá a ler, o francês saiu de casa de propósito para ir comprar uma garrafa de chardonnay. Depois de beber dois copos foi à cozinha fazer um batido de proteína, e começou a beber, intercaladamente, o batido com o chardonnay. E agora diz esta do Nietzsche. O investigador pergunta-se a si mesmo se a tese que devia fazer, se o verdadeiro objecto de estudo que tinha encontrado nos USA não estaria neste momento a comer uma panqueca à sua frente, em vez de estar nos muitos manuais que tem no seu gabinete.

Entretanto, ouvia-se a voz do recruta vinda do quarto a dizer “Fuck, bitch, bastard, come on, fuck, bitch, bastard”. Ou estava a falar com a ex-namorada ou a jogar jogos de vídeo. O investigador achava que era o segundo.

Voltou para o ritual. Leu o jornal desportivo português, leu o jornal desportivo espanhol, foi para o jornal generalista inglês e estava a acabar a granola. Começou a sentir alguma ansiedade por fazer as palavras cruzadas. Estava a demorar a lá chegar. Sentia que o mundo se lhe estava a escapar das mãos. Primeiro a sirene, depois a liberdade, agora Nietzche e chardonnay. Precisava urgentemente de se concentrar na vida. Mas para isso, tinha de cumprir a ordem e chegar às palavras cruzadas.

Nisto aparecem a colega de casa número quatro (“a polaca”) e o seu engate singaporenho (hum, talvez… “o engate”?). Estão a discutir. O investigador não quer saber da discussão. O investigador não quer mais confusão. O investigador só quer fazer as palavras cruzadas. Mais nada. É um ritual, e é mais do que necessário. É exigido.

P: Estás completamente enganado. Estás com-ple-ta-men-te enganado. Pfff. Como é que podes achar isso?

E: Desculpa, mas é a verdade. Tens de admitir. Não pode ser de outra forma.

P: Estás parvo? (Olha para o investigador e para o francês, que continua a ler o livro e a pensar no infinito) Pessoal, Beyoncé ou Rihanna?

E: Rihanna, certo?

O investigador quer seguir o ritual. Acreditem, quer mesmo. Não há nada que ele mais queira e precise neste momento, juro pela minha alma. Mas ele é um homem sério, e com valores. E quando alguém diz uma barbaridade destas ele sente-se obrigado a responder, para repôr a verdade inabalável no mundo e o equilíbrio no universo. E ele responde. Levanta-se, e vira-se para o engate da outra, e diz-lhe, de forma organizada e coerente e assertiva, que a Rihanna é sua gémea, nasceu no mesmo dia e no mesmo ano, e tem grandes canções, claro, o Umbrella, Diamonds in the Sky, iá, até podem ser fixes, e parece ser uma rapariga simpática e interessante. Mas compará-la à Queen B? À cantora do Love on Top? Nem é preciso chamar o Singles Ladies para aqui, ou o Lemonade, ou o casamento com o Jay-Z ou qualquer outra coisa. Basta isto: Love-on-top. É que não dá para discutir, é um caso perdido, é uma afronta, é um erro, e o investigador não consegue não ficar a bater neste ponto até que ou o engate da outra concorde com ele, ou o esmurre, ou morra de cansaço, ou saia da cozinha. Que é, no fim de contas, o que a polaca o leva a fazer, voltando para o quarto, possivelmente para discutirem de forma mais acalorada um debate que nem sequer devia existir em primeiro lugar. Mas as pessoas são estranhas. Não é?

O investigador, neste momento, respira fundo. Está tenso. Está de pé. Olha para a mesa. A granola já acabou. Falta-lhe só o jornal norte-americano. Depois, as palavras. Cruzadas. E, depois, fica tudo bem. Aquela mistela escura ao lado já não está quente, mas tem cafeína e isso ajuda. Portanto ele move-se lentamente até ao seu lugar, sentando-se, respirando fundo como lhe ensinaram há muito tempo nas aulas de ióga, e procura voltar a tentar sentir-se parte de algo que é real e possível. Pronto. Leu o jornal. Agora as palavras. É só carregar no ecrã, e o mundo vai voltar a ser um lugar melhor. Tão difícil, e tão fácil ao mesmo tempo.

Nisto, o francês olha para ele e diz, no meio do vapor do jewel.

F: Sabes, estava aqui a pensar numa coisa engraçada. Aquela sirene de barco que tocou ontem? Pode até fazer sentido ter sido de um barco; afinal de contas, estamos em Ann “H”arbor! Ah ah ah ah ah! Não é divertido?

Marty Toca os Blues, o disco

Saiu hoje o disco Marty Toca os Blues. Foi gravado entre os meses de Novembro de 2017 e Fevereiro de 2018 pelo Filipe Fernandes em Londres e por mim em Lisboa. Fiz as canções e toquei viola, guitarra elétrica e cantei; o Filipe tocou bateria, teclas, lap steel guitar, distorções e uma segunda voz. O Adriano Fernandes, irmão do Filipe, tocou baixo. A produção ficou a cargo do Filipe e de mim, enquanto que a mistura e a masterização foram feitas só pelo Filipe. A edição é de autor. A fotografia da capa é da Sara Asseiceiro.

O disco tem dez canções, feitas em diferentes alturas ao longo dos últimos seis anos, mas trabalhadas e terminadas antes e durante as gravações no passado mês Novembro. Não é um disco de blues no sentido “técnico” do termo. Se tivesse de o caracterizar, diria que é um disco Outono-Inverno-Primavera, bom para se ouvir em casa, num domingo à tarde, com a chuva a cair do outro lado da janela, uma manta bem quentinha por cima e uma chávena de chá ao lado. 

Sobre o disco, escreveu o João Pedro Vala: 

O Marty não tem como parar. Foi sempre assim desde que me lembro. Enquanto penso se este texto não será demasiado intrusivo, ele escreve um post, enquanto hesito entre uma palavra ou outra, ele cria uma malha do caraças na guitarra. Enquanto tento decidir se está ou não demasiado frio para ir ao cinema, já ele está a chegar à Barata Salgueiro.

Existe uma urgência em tudo o que o Marty faz que atira às malvas todas as poses, que dispensa as metáforas ou construções poéticas porque essas coisas todas são para quem não diz o que quer dizer. Todos nós sabemos que quando o Marty canta ‘acordo e ligo o ecrã’ não está a querer falar da alienação causada pelas novas tecnologias ou a querer rimar com ‘manhã’. Se ele nos diz que acordou e ligou o ecrã podemos ter a certeza absoluta de que foi exactamente o que ele fez. E isso é tão refrescante que parece mentira.

Marty Toca os Blues é, percebemos rapidamente, um álbum sobre um amor que acabou, mas é muito mais do que isso. É um álbum de um tipo que troça consigo mesmo e que parece escrever álbuns como quem nos conta a sua semana. O Marty Toca os Blues é, no fundo, um álbum de um tipo exactamente como nós, só que muito mais fixe. De um tipo que só quer correr para o tempo passar. E ainda bem, porque bandidos como ele foram feitos exactamente para isso.

Os agradecimentos vão para o Filipe, por ter tido a vontade, o tempo e a criatividade para ajudar a trabalhar de forma minimamente decente um conjunto de canções idiossincráticas para se tornarem num disco. Um obrigado ao Adriano pelos ritmos e baixos, e ao meu irmão Jacinto pelas primeiras escutas e pelo empréstimo dos microfones para gravação.

O disco está disponível nos serviços de streaming usuais, como Spotify, Apple Music e etc. Podem também ouvi-lo no Bandcamp.

Boas escutas.

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