Postcard for Simbad

Simbad, he’s

my friend. He’s not

a sailor. He’s

a traveller, someone who

decided to pack

and go for a walk.

The walk is long, it takes

flights to get

to where he wants to be.

He’s a

very lucky bastard, he has

always been one

and today

I’ll be thinking of him

imagining the thrill he must feel

when landing in some distant place

with just time

to spend.

Imagine

carrying a good pack of days

on your American-made backpack

to spend in the East.

How

amazing it must be

to go out in the world, with your

eyes open, capable of waking up

and spend time

looking at the sky

during the day; the

same sky that will be waiting for him

in summer

back home.

Álbum, 2018

Há um momento em que são quase seis horas da tarde e ela está a conduzir e a estrada está com espaço e estamos a voltar de fátima pela A1 e o céu está feito um daqueles monumentos de linhas vermelhas, laranjas e azuis, tipo dégradé, enquanto o sol se pousa, tipo postal africano, e está a dar o I heard you looking no rádio do carro, e eu penso: isto é um cenário bonito e cinematográfico, como se tivesse sido desenhado à medida e posto aqui de propósito, e penso – e digo, em voz alta – que estou na minha estrada preferida, com a minha miúda preferida, a ouvir a minha música preferida, e penso que tudo isto poderia caber num refrão, tipo “tanto que foi e veio / como num carro pela A1 / um passeio na cidade / com o céu já meio escuro”, e depois penso nas coisas sobre que rezei, sobre o ano que se passou e sobre o ano que está a chegar, e em todas as pessoas que amas e que não amas, pela vida em particular e o mundo em geral, e depois penso na essência estrutural de todas as realidades que me rodeiam – carro, céu, canção, C – e reparo que todos começam com a letra cê, e acho isso cool, porque acho estas coisas cool, sou um tipo que acha cool acordar e olhar para a agenda e ver o menu do dia, e depois, assim pela calada, quando o sentimento chama de forma inesperada, tipo tipo, num intervalo ou espaço ou buraco ou o caraca que lhe quiserem chamar, escrever qualquer coisa sobre isso, sobre o dia, o tempo, as palavras, o amor em particular e a vida em geral, e depois deixo-me ficar no carro perante o céu a ouvir a música e a olhar para ela e para a estrada, e, depois, fecho os olhos, e sinto: que bom, que bom. Que bom.

Care for / a dióspiro?

At night eu 

penso que

I want

to hug you

all, all of

you 

depois, é

de manhã, e

tenho os pés full 

of orvalho, e 

o ar está ultra fresh

e

é preciso trazer 

quatro laranjas para casa

para se fazer uma sobremesa

só que eu confundo sempre

tangeras com laranjas:

cheiram todas

muito bem; as 

minhas mãos ficam

elas próprias a cheirar

muito bem

and I aproveito a ocasião no pomar

para cantar uma canção para 

os limoeiros

ou árvores do limão

uma canção que costumava ouvir enquanto passeava em Bruxelas

no meio da chuva e da neve

e que falava sobre 

árvores e limões e árvores

do limão

ouve-se a cair lá em cima

(não há chuva, não há neve)

a água do tanque 

clear and bright, just like

the eyes were clear and bright

that night at trobadores

you know, não há 

muitas folhas, mas há 

muitos frutos 

e eu fico parado a ver

a árvore dos dióspiros

que está cheia deles

vermelhos e apetitosos

prestes a cair

care

for one?

(I want

to hug you

all 

before I fall 

asleep)

Poema da manhã de vinte e três de dezembro

A meio

da meia-de-leite

reparo no

sol que bate

no interior da portada.

Hora dourada, silêncio

dominical.

Ontem o céu

era azul e as nuvens

cor-de-rosa; as

árvores escuras, e estava

muito frio.

Também está frio

aqui em casa.

Sinto o frio nos pés

e nas mãos, mas sobretudo

nos pés

mesmo estando ambos dentro

de umas pantufas peludas

já um pouco gastas.

É Natal, podia

ter pedido umas

pantufas novas.

Imagino que haja boas pantufas

quentes e baratas

à venda nesta época.

Fica para

o ano.

Talvez sim, talvez

não. Quem

sabe?

Tu

sabes.

Sabes

muito.

Sabes,

agora está sol.

Hora dourada, luz

dominical.

És, com toda

a certeza,

Luz

da minha

vida.

O ano de 2018

No ano de 2018

aconteceu 

muita coisa.

Para começar, aconteceram

os trinta anos de muito boa gente

incluindo os meus.

Li dois livros

do Ben Lerner

e escrevi algumas páginas

da minha tese. 

Fiz a minha viagem de sonho; guiei

vinte e sete dias pela estrada, nos EUA

com mais três coitados

que acho que até se divertiram.

Aproveitei ainda para gravar 

um podcast sobre o 

sucedido.

No ano de 2018

editei um disco melancólico

fui com grandes amigos à 

Idanha-à-Nova 

dançar um pouco de transe

e fui com outros grandes amigos 

a Paredes de Coura 

curtir um indie rock maneiro. 

No ano de 2018 vivi em 

Ann Arbor, Michigan

e passei o Verão no 

Minho, Paraíso. 

Corri

quatrocentosetrintaesetequilómetros e 

sessenta metros; fiz 

algum exercício e muito pouco

iôga.

Escrevi

poemas

e postais

e poemas

que eram postais.

Vi 

um filme da Agnès Varda

sobre pessoas e 

fotografias

e uma obra-prima do Paul Schrader 

sobre pessoas que lutam contra si mesmas

e flutuam

quando, num inesperado intervalo de vida, encontram

um sentido.

Tive muitos momentos de intervalo

no ano de 2018.

Passei-os a passear

a viajar ou a correr

a ler e a comer

ou então a beber

sentado num balcão de madeira 

num qualquer bar americano

ou restaurante português

bem confortável. 

No ano de 2018

fui a cidades a que nunca ninguém vai

como Belfast, Phoenix, e Groningen

e apaixonei-me 

por Chicago

num fim-de-semana.

Fui consolado

por José Tolentino Mendonça 

no jardim da Estrela.

Tive uma angústia grande

enquanto assistia a uma encenação universitária

das Bodas de Fígaro

em Ann Arbor; fechei os 

olhos e 

pedi ajuda.

De repente

estava tudo bem. 

No ano de 2018 conheci

sem saber ler nem escrever

a Carol

e a vida

continuou a ser a mesma

só que melhor

muito 

(mesmo

muito)

melhor. 

Com muito mais

luz.

Entretanto nasceu

a minha décima sobrinha, que se chama

Clara, e o meu 

primeiro sobrinho, que se chama

Vasco, foi para a universidade.

No ano de 2018 fez vinte anos

que o meu pai, Chico, morreu.

Tive cinco amigos a casar, entre os quais

a Isabel e o Paul

o Lux e a Jux

o Sergey e a Joana

a Drix e o Mike e

a Inês e o Manel.

Comprei um chapéu americano

e um carro italiano

que se foi abaixo ainda no stand

mas que depois até se portou bem

cruzando auto-estradas e itinerários complementares

deste bonito país em que vivo. 

No ano de 2018

rezei muito, em casa e na missa, na 

rua e no carro e

junto a árvores, em bancos

de jardim. Pedi muito, agradeci tanto

e aprendi ainda mais.

Continuei a dar aulas

investiguei sobre tecnologia

ouvi carradas de discos

e fui pouco à praia. 

Prestei mais atenção do que o normal

ao céu.

O céu foi o meu mar

no ano de 2018. 

Neste mesmo ano, o de 

2018

fui num domingo à tarde

para dentro do tanque. 

A água 

gelada

e o sol 

a queimar.

Havia 

duas libelinhas a voar à roda, e

algumas folhas soltas

que boiavam. 

Ajoelhei-me

aos poucos; fui mergulhando 

até só me faltar molhar o pescoço

os ombros, e a cabeça. 

Mergulhei 

lentamente

tal como 

acordei

lentamente

todos os dias

no ano de 2018

cheio de 

espaço para saborear

o que há, aprendendo a receber

o que vem, apreciando

o que foi

enquanto leio as notícias e

tiro notas

e bebo uma chávena

de café com leite.

Às vezes

acho que foi tudo

um sonho

mas depois o café começa a bater

E lembro-me que tenho de trabalhar.

Antes de ir, penso

que todos os dias são gigantes

e todas as semanas são anos

todos os meses são vidas

e todos os anos são monumentos. 

No ano 

de 2018

houve muita, mesmo muita

vida. 

Coisa 

mais

boa. 

(Santo Natal

e bom ano

maltosa. Vemo-nos

em dois mil

e

19.

In

té.)