Sunday night lights

Deitado no sofá da sala, a digerir tanto o jantar como a semana. Deitado no sofá, com as três janelas atrás de persianas corridas a metade, e uma televisão desligada em frente. Deitado, com a cabeça na almofada e a ver os três candeeiros de tecto da cozinha, em frente. Deitado no sofá e acho que uns vizinhos do andar de baixo até tocam ou estão a ouvir alguma coisa pesada, mas a verdade é que não ouço. Deitado na sala, mãos atrás da cabeça e pernas esticadas, aprecio apenas o calmo fim da semana, que como num bom filme começa a repousar em mim, enrolada na suave cadência de umas teclas de piano. Só isso. Só.

A neve lá fora

A neve lá fora, trazida por tempestades nocturnas que enchem as ruas, as janelas e os tectos. A neve lá fora e a aumentar, caindo de forma pesada pela janela do meu quarto. A neve lá fora sobre os passeios largos, as placas verdes das ruas e avenidas cujos cruzamentos dariam bons títulos para contos, como State e Huron, Packard e Hoover, Oakland e Hill. A neve lá fora e as pessoas com casacos, gorros, luvas ou o que for com algum símbolo azul e / ou amarelo e aquele ‘M’ em toda a parte. A neve lá fora e a minha cara embrulhada no cachecol que a minha Mãe me fez, com as mãos para dentro do casaco como um hustler de filme em busca de sarilhos, aproveitando o frio na cara e os tesouros desta cidade catita. Não sei porquê lembro-me de uma fotografia icónica de James Dean enquanto ando, e à noite apercebo-me que é o aniversário do seu nascimento. A neve lá fora e um velho mas belo cinema com um organista a dar show antes da sessão começar. A neve lá fora e o meu corpo dentro de uma casa boa junto à rua, ou de uma sala de investigação incrível, dentro de uma faculdade de pedra com condições para lá de top, ou de um pequeno e quente quarto com uma cama alta. A neve lá fora e Ann Arbor com os seus cafés, restaurantes, cinemas e salas de concerto, as suas ruas e arcadas, as suas lojas e as suas pessoas, os seus bares e a sua cerveja, os seus ginásios e a sua universidade a receber-me abertamente, como se nunca daqui tivesse saído. A neve lá fora e o bom de tudo isto, da chegada a este pequeno paraíso académico numa América perdida e do conforto que imediatamente sinto. A neve lá fora e eu, cá dentro, a aquecer, sem entusiasmo nem passado, só com liberdade e presente. A neve lá fora e tudo o que precisei para “chegar” e assentar foi um gabinete, uma noite bem dormida, uma biblioteca cheia de livros, um passeio até ao supermercado cooperativo, uma ida ao cinema para ver a nova obra-prima de Agnès Varda (se têm um pingo de humanidade dentro de vocês por favor vão ver Visages Villages, um road movie incrível sobre arte, pessoas e vida), um quarto quente numa casa simpática e uma (lindíssima) canção de Stephen Malkmus. A neve lá fora e a mesma previsão para os dias que se seguem: trabalho, cinema, ginásio, e calor. Tenham um bom carnaval, que o meu será assim.

Ir de viagem

Defini há muito tempo a partida como um ponto fixo no meu calendário existencial. Há um antes e haverá um depois. É difícil que assim não seja quando temos uma viagem ou um período longo fora de casa com regresso marcado. Há sempre um antes e um depois. Nunca sei bem o que será o segundo. Antes das viagens não sinto um entusiasmo ou ansiedade muito declarado, embora saiba que por dentro já tenho o foco no lugar. Quero lá chegar, abrir a porta da nova casa e instalar-me no novo quarto, com as malas no chão e o corpo na cama. Quando fechar os olhos concluo o trajecto de horas e quilómetros que fiz antes e quando acordar já começa tudo ao ritmo imprevisível da novidade do espaço e do tempo. E aí sei que os dias serão o que tiverem de ser. Há ideias, e há projectos — e há planos, alguns mais abertos e outros mais delineados. Veremos como sucedem. Não pensei muito neles nesta última semana, confesso. Aproveitei para dizer os até-jás, para comer o que não vou poder comer durante quatro meses, para estar com quem quero. Para passear onde não vou passear e para festejar o que não vou, pelo menos em pessoa, viver nestes tempos. Quatro meses é pouco dentro do grande esquema das coisas, mas se virmos bem estamos a falar de um terço do ano. Quando voltar será o fim da Primavera e já deverá haver sol e praia, e é a única coisa certa que sei. O resto nem suspeito. Vou de peito aberto e acho que é tudo o que basta. Apetece-me muito sair e estar longe, confesso. É uma óptima maneira para me (des)concentrar. As viagens são as melhores formas de nos tratarmos e mexermos por dentro, com a desculpa de ver coisas novas que nos tocam de alguma forma sublime mas profunda, provocando-nos interiormente  na nossa individualidade. Acho que o mundo é o melhor catalisador existencial que há. De que forma serei provocado, tentado, provado, tocado e sentido? Não sei. Nem faço a mínima ideia. Como no poema quase apostólico de Ruy Belo (adaptado à figura deste que vos escreve) “Está sereno” o viajante, que procura “pôr o rosto do senhor por trás das suas palavras / Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar.” E é isso, e apenas quero ir. O depois, logo se vê. Até já, pessoal. Vemo-nos no Verão.

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Banda sonora invernal

Metro do Rato, sexta-feira: um jurista académico em despedida do inverno lisboeta ouve o guitarrista diletante das nove da manhã, na entrada da estação. Viola americana, sons americanos, aqueles instrumentais simples que são mil paisagens. Tocando de pé, trocam um aceno e obrigados mútuos. O jurista agradece pela música, que lhe embala o pensamento e prevê a viagem seguinte. O músico agradece pelos trocos que o jurista lhe dá. Transações simples e gratificantes, para começar o dia da melhor maneira, numa sexta-feira. Ansiedade de estrada? Nenhuma. Apenas a espera serena de uma partida iminente. Até lá, é aproveitar. Assim.