Viagens

No metro, ele continua a ler o livro que começou no Verão, quando ainda nem sequer estava noivo – pelo menos do ponto de vista técnico-jurídico – numa das muitas e pequenas ilhas que existem na Indonésia. Há qualquer coisa que o agarrava nessa altura e que ainda o agarra às páginas já muito amarrotadas, que andaram por horas de voo e de espera. É o ritmo leve e profundo das narrativas, tão reais e humanas que podiam estar a acontecer à nossa frente. A dado momento ele olha para o lado, aproveitando um intervalo entre parágrafos, e repara – de forma inocente – que a mulher que está sentada ao seu lado escreve uma mensagem no telefone. O nome do destinatário parece-lhe começar por “S.”, como se fosse um santo. Ele fica com esta ideia, de que há pessoas que trocam mensagens com Santos, que lhes rezam por sms, ou algo do género. Se calhar está aí uma história. Ele sorri, e volta a pegar no livro. Falta uma página / estação para sair.

A sala está escura, salvo pelas minúsculas luzes verdes do modem, e dos pontos vermelhos da televisão e da aparelhagem. Há um barulho contínuo que vem de fora. Faz lembrar um motor de avião, uma brisa muito forte. Mas nada se mexe lá fora. Lá fora só existe o nevoeiro, que vai crescendo muito devagar. Já cobre todos os telhados; talvez chegue até à janela. Às vezes o nevoeiro fica muito claro, como se alguém que estivesse no seu interior ligasse de repente um holofote. Se calhar é impressão minha. Estou sentado na sala e está tudo parado, fixo no chão. E, ainda assim, apesar de toda a tranquilidade, há uma leve sensação de movimento. Mesmo que fraca, está presente, como quando se está numa passagem, dentro de um túnel,  ou num intervalo. Sabe-se que se veio de antes para chegar aqui, e que a seguir se vai para o depois. Mas primeiro, agora, agora há isto, uma pausa que é um espaço, uma espera bem definida e limitada, que por tão forte e certa que é sabe a caminho. É bom, é mesmo bom sentir o sabor do caminho.

Meeting Adélia Prado

SENSORIAL

Obturação, é da amarela que eu ponho.

Pimenta e cravo,

mastigo à boa nua e me regalo.

Amor, tem que falar meu bem,

me dar caixa de música de presente,

conhecer vários tons pra uma palavra só.

Espírito, se for de Deus, eu adoro,

se for de homem, eu testo

com meus seis instrumentos.

Fico gostando ou perdôo.

Procuro sol, porque sou bicho do corpo.

Sombra terei depois, a mais fria.

in Tudo o Que Existe Louvará (Assírio e Alvim, 2016)

Babysitting

O truque que arranjei para que adormecessem sem chorar foi ficar ali, no canto da cama do mais velho, deitado e de cabeça para cima, a cantar canções de campos de férias que, para ser sincero, nem me lembrava que ainda sabia, enquanto eles respiravam de forma fungosa e adoentada, libertando com alguma probabilidade uma quantidade simpática de germes para o ar que partilhávamos, e quando me calei reparei que a do meio ainda estava com os olhos abertos e portanto decidi manter-me ali, a fingir que estava a adormecer para que eles adormecessem, e sem que desse por ela estava mas era a cair no sono, e no sono o que via era o caminho de carro até ao Inatel, a Lisboa residencial e nocturna de sábado à noite em pleno outono, a ouvir o meu último disco porque ando a ficar com vontade de fazer um novo e de dar concertos, mas agora já saí do quarto e vim para a sala, onde também devem existir alguns germes, e está tudo muito calado e silencioso, e estou caído no sofá, numa posição que é um misto de deitado e sentado, típico de quem se anda a borrifar já desde há algum tempo para a postura, físico, e alimentação, mas que sabe que a partir da próxima semana vai voltar a ter muito tempo para se preocupar com tudo isso e mais a tese, e é engraçado, quando me sentei-deitei-caí-a-porra estava com uma canção daquele magnífico disco do Co$tanza na cabeça chamado Linha Verde (não sei se era o Areeiro se era o Campo Grande) e agora não tenho nenhum som na cabeça, um autêntico nada, uma daquelas caixas que o Luís ontem contou que os homens tinham na cabeça, caixas para tudo e uma caixa para nada, e eu concordo muito com isso porque acho que sou muito assim, uma cabeça cheia com um conglomerado de caixas mais ou menos arrumadas, e agora vou fechar umas e abrir outras, e ter cuidado ao abrir essas outras porque há caixas que são prioritárias e outras que não, que são só necessárias, como escrever, passear, ouvir e fazer discos, e agora vou fechar os olhos e ficar no nada deste sofá branco antes de ir à cozinha deles ver o que há para comer. Entretanto, fui ver, e a canção que tinha na cabeça era o Roma. Tem muito que ver com a zona a que diz respeito – muito espacial, cinematográfica. Grande, grande disco. Já ouviram?