Mobilidade urbana

Escrevo mentalmente um poema chamado mobilidade urbana. Fala de quase nada e de muita coisa, como um poema deve ser. Li o poema póstumo de Leonard Cohen, e apetece-me ser o Leonard Cohen de anything. Não sou. Sou um motoqueiro desastrado, com um casaco de anime japonês. Call me the guy that makes poemas sobre mobilidade urbana. Sobre a beleza juvenil de uma trotineta automática a cruzar a avenida da República. Foi daí que começou o poema, com o título, mobilidade urbana. Há títulos que são versos, e títulos que são (o) in-verso(s). Como um título de Herberto Helder. Já leram o conto Os Comboios que Partem de Antuérpia? Assombroso. Uma solidão que desarma. Lembrou-me o inverno na Bélgica, quando o li, na quinta-feira à noite. Agora é sábado. Estamos no outono, e o mar está branco. “Penso que o mar dá uma qualidade pessoal à fantasia, ao desejo e à confiança”. O Herberto Helder é o Leonard Cohen e o Herberto Helder de anything. Eu não. Sou só um jurista que viaja a pé, ou em motas elétricas, ou ainda de metropolitano. Gosto de passear: penso que um passeio dá uma qualidade especial à vida, ao dia, ao amor. Não escrevi poema algum. O poema só nasce / depois de um café / na pastelaria Nova Lapa. E isso acabou, agora mesmo, de suceder. Fim.

Mr. Tamarindo Man

It is what it is. Se calhar é coragem. É o que diz uma canção. E se calhar é verdade, é preciso coragem. Coragem para. Porque é fácil o não-para. É fácil o sofá da sala, mesmo muito, especialmente depois de comer uma massa caseira desenrascada em dez-vinte minutos com extra-pimento. Há um episódio dos Simpsons em que Homer, para ganhar um concurso de picantes, engole a cera de uma vela, e come trinta coisas cor-de-rosa douradas vendidas pelo chefe Quincy, coisas essas que ja no desenho-animado pareciam bombas atómicas, e depois de as comer desmaia e tem um sonho em que vai parar a um deserto mexicano cheio de vento e ruínas e cactos e onde um coiote lhe fala sobre o amor. Lembrei-me disso enquanto cozinhava, e o cheiro do pimento me fazia tossir, abrindo-me as narinas. Estou com uma tshirt americana com um M no meio, like the good days of the winter, em que cozinhava assim, numa casa no meio da neve. Não há neve nem neve ao nível dos Fargos reais desta vida, mas há o fresco da manhã, e da noite. Se calhar não ainda o suficiente para merecer um casaco de ganga para o caminho, assumo essa mea culpa. Mas bom, bom fresco. Avenida da Liberdade, before sinal verde. Hoje pensei em nunca mais escrever, publicamente. Pensei em escrever todas as ideias, poemas e postais que tivesse de ora em diante num caderno, chamado álbum, e deixar as coisas assim. Não pensei nisto por nenhuma razão em concreto. Apenas was what it was. Pensei igualmente em fazer uma lista das cem melhores canções do ano e publicar no blog. Uma canção por disco, única regra. Malkmus, Tillman, Phosphorescent, Nap Eyes, Gish. É engraçado como uma canção anda contigo, em corrida ou em passeio. Como é uma coisa livre, que não importa o que os outros pensam ou sentem sobre ela: basta que tu sim, verdadeira e justamente. Adjectivo preferido: bom / justo. O que é bom é necessariamente justo ou o que é justo é necessariamente bom (chiu: ambos, ambos). Gostava de ser um ramo de hortênsias paniculatas (ou “ada”?) numa jarra solstícia. Ou então um filme francês, em tua casa. Mas na realidade sou apenas um tamarindo. Mr. Tamarindo Man, playing this song for you. Ontem à noite deitei-me a fazer plantas e a agrupar pequenas linhas dentro de outras linhas. Fui almoçar a uma casa nova, com pinta. Regressei hoje à leitaria holandesa para um café e um croissant — é preciso passar a estes novos moradores da Praça das Flores algum sentido institucional. Não sinto a falta. Gosto de onde estou. De manhã cheguei a casa e fiz uma música para a Lapa. Anotei o primeiro verso, mas agora estou preguiçoso para me levantar e ir buscar o caderno e ver qual foi. Já me lembro (punho fechado, vitória da mente). Escrevi: a Lapa foi o meu segundo lar. É uma música de despedida, para quando quando quando. Agora é tempo de é é é. É o que is. E o que is pode ser muita coisa. Tal como estas linhas podem ser as últimas. Ou as primeiras, ou apenas mais uma continuação. É o que diz o Mr. Tamarindo Man, que te canta esta canção. Está com sono, mas não vai a nenhum lado — está sempre aqui. Com flores e tamarindos. Coragem e futuro. Bem e justiça. From the California coastline to the Iowa corn. O Iowa. Passei de carro por lá. Está num podcast, para quem quiser ouvir, ou não. Pensei em voltar a fazer um podcast. Chamar-se-ia Um Cowboy no Chiado e seria tal como este blog, imprevisível, como os dias. Um dia, um poema; noutro, um filme; e noutro ainda, o quê? E pensei: tanto trabalho on the way. Para quando o tempo, para quando a vontade, para quando quando quando. Sorrio imenso-menso. Porque sim, porque é. Aproveito o que é. E o que é? Tu / sabes bem / tens a qualidade rara / de acordar a sorrir / humilde como a primeira luz / que entra pela janela. Disseram-me que romantic apetite podia ser um bom nome para um restaurante. Acho que podia ser o nome deste postal. Ou então: adeus. Ou então: fim. Ou então: siga. Ou então… o quê? Romantic apetite, com ou sem extra-pimento. Não interessa. O que interessa não é a canção do tamarindo, ou a escrita, ou os filmes — estes são bons, são giros, até podem ser “vida”, mas não são o que conta. O que interessa é a coragem de ser. Essa desarma. Quando se sente o bem e o verdadeiro, e com eles o justo. Anseio pela presença partilhada do presente. E é isso. E isso é / 

Morning figo

I eat a figo in the morning

while tranquilo é o acordar de domingo

the buganvília está com as flores douradas

e o céu está muito blue

how can you not feel all the esperança in the world

after waking up neste green paraíso

in the calm terras of the north

where life simply sempre é?

A time for freshness / The freshness of time

I like

the freshness of mornings

when you enter the living room and

the windows are open

a light breeze breathing inside

while you sit and live

reading the news or talking with about

road trips to the north of the country

you know how I heart the north of the country

and you’re told it’s going to be fresh out there

like really fresh

(in the north of the country)

almost cold

and you think

that the difference between fresh and cold

is one of existential degree

based on a criteria of love and joy

(in the country)

it was also fresh next to the river

I saw a fisherman taking a fish out of the water

dozens of pedal bikes

and the brother of an old friend covered in sweat

while I ran to feel

some sort of energy before going on

a short road trip of my own

(in the north)

I remembered during the week

the freshness of the evening falling

in the Koyasan cemetery in Japan

there was no snow nor cherry tree leaves

only the air and the dim lights of the stone path

speaking of lights

I saw this graffiti next to the street lamp in front of my house

it said glow

and when I was coming back home from running I saw

in the wall next to the street lamp before my house

the word glow

same style

and I thought

we got an artist in the neighbourhood

I like people

that wish to make an oeuvre

out of their own light

(in the north of the country

I hope you feel and enjoy

this time of freshness

the natural beauty of the greens

so good and free and relaxed

so disarmingly

beautiful)

 

Iowa

Ele está sentado no sofá branco da sala de estar. A sala está às escuras. Duas das três portadas estão abertas, para arrefecer o espaço. Estava com calor enquanto jantava e escrevia. Pôs-se a ler, mas noutra sala, não menos quente. Quando acabou o sexto capítulo pousou o livro e resolveu ir rezar. Sentou-se no sofá branco, tal como agora. Pernas direitas, ambos os pés no chão, nádegas juntas às costas ligeiramente descaídas do maple. A luz do corredor está acesa; as portas para o corredor estão fechadas. Ele imagina a cena: estar sentado no sofá branco, e uma figura, que tanto pode ser o gigante escuro e dobrado que passeava pela casa teatralmente assombrada a que foi com os amigos no centro de Lisboa, há cerca de duas semanas, como DeMarcus Tillman, o basquetebolista desgraçado da segunda temporada de American Vandal (a qual acabou de ver hoje), como Martin Donovan, o anti-herói de Hal Hartley (do qual se recordou de noite, numa troca de mensagens com o seu irmão mais velho), ou até ele mesmo, só — a olhar pelos vidros da porta, para a sala. Passam carros, passam pessoas, o telefone não toca, mas a partir das onze deve tocar. Ele reza, e lembra-se enquanto está de olhos fechados do livro, cuja acção se passa no Iowa. Ele não se lembra do Iowa, neste momento, apesar de ter lá estado, mas sim do Texas, de uma pequena aldeia abandonada numa estrada paralela a uma interstate qualquer cuja velocidade máxima eram 75 milhas por hora, onde não se via um carro, onde a bomba de gasolina era uma ruína, onde as casas pareciam ter sido saquedas, e onde só se viam três miúdos a andar de bicicleta e um tipo gordo, muito queimado, que não falava nem inglês nem espanhol, mas percebia a palavra “gas”, e estava encostado a um alpendre. Lembrou-se depois de chegar a Marfa, de noite, e do quanto gostou de Marfa, e dessa adrenalina de viajar e de chegar, de descobrir e de partir, do desconhecido. Passou um carro que tocava kizomba. No livro os personagens veem cassetes de vídeo que têm mistérios dentro delas. Ele acaba de rezar e deixa-se cair no sofá a apreciar o Iowa à sua volta: a sala vazia. E o dia acaba.