“Il problema è il silenzio. Ma, quale silenzio? Ci sono quattro tipi di silenzio: silenzio letterale, allegorico, morale, divino. E mettere insieme questi quattro tipi di silenzio è molto difficile, quasi impossibile. E’ un gol. Ma dopo c’è l’armonia, capisci? (…) E questo è molto importante, molto importante… Siamo cattolici, religione sportiva… ma non buoni contro cattivi… buoni contro buoni. Questi buoni fanno goal. Ogni goal è un silenzio.”

Nanni Moretti, Palombella Rossa, 1989 (aqui)

O que se passa é que no sábado santo, depois de uma overdose de açúcar, deitei-me no sofá da sala, e li a história de Rhea, que é uma personagem de um romance premiado, vivia nos anos setenta, e era aquilo que se podia chamar uma punk, tinha sardas, não gostava das sardas, também acho que não gostava do punk, mas pintava o cabelo de verde, e usava uma coleira com picos, e entretanto sinto o açúcar a correr no sangue, especialmente na  cabeça, junto à testa, e Rhea tem uma banda, e tudo na banda é juvenil, e portanto tudo é exagerado, tudo é inseguro, tudo é novo, e tudo é violento, e no meio desse “tudotudotudo” há um certo sentido, e há muita sensibilidade, e na sala há silêncio, há janelas fechadas e há luz por trás dos vidros, há algum vento que entra pela janela aberta da sala ao lado, e que depois entra pelos furos das crocs antigas que saquei de um armário de roupa velha, umas crocs amarelas, gosto imenso da cor amarela, mas não gosto de crocs, mas é sábado e estou no paraíso, e a ressurreição só precisa de amor e de silêncio para acontecer, por isso danem-se as crocs, e dane-se o punk, e deixe-se ficar só o tempo, só a tarde, só o vento, só o silêncio, só, deixemo-nos ficar, só.

                                      é que no outro dia fui correr; tinha chegado relativamente cedo a casa, era de dia, parei o carro e entrei e mudei de roupa, fui até à sala, e fiz uma lista de canções, é que apeteceu-me ouvir as canções que escutava em 2017 quando ia correr, quando ia correr na rua e o dia estava assim, no seu fim, o céu de cor azul já com traços meio-rosados, o ar quente ma non troppo, e havia uma sensação lenta na existência, na forma como a existência se desenrolava, na forma como eu descia a rua e punha a mão na barriga para tentar sentir os poucos abdominais que tinha / tenho, para ver se tinha / tenho os sapatos bem apertados, e depois começar, e ouvir as canções que eram sempre as mesmas, que foram sempre as mesmas, durante todo o verão, sempre as mesmas durante praticamente todo o verão, e talvez algum tempo depois disso, tipo até outubro ou quase novembro, eu correndo por meia ou uma hora completa, acabando ainda de dia, ainda quente, com o céu mais carregado, com suor no cachaço, nos braços e nas pernas, nos abdominais, nas costas, e eu a respirar e a subir a rua, a tentar estar direito da anca para cima, e sentir-me confortável, pacífico; é que no outro dia fui correr e senti-me assim, confortável e pacífico, dentro de um intervalo veranil, e não era uma memória, nem uma imagem, apesar desta sensação ter existido várias vezes, em especial durante um tempo específico, que num capítulo de uma putativa autobiografia da minha pessoa poderia ser chamado como “o meu ano na Lapa” ou “o meu verão de 2017”, porque penso que na minha autobiografia todos os capítulos serão ou sobre casas ou sobre verões, porque guardo sempre ambos, as casas e os verões, com igual cuidado,  e é isso, é que é apenas e só e tanto isso, locais, tempos, eras, sensações e existências que foram, e que são, e que estão, e que

A grande cara de Seymour Cassell

Vi há muitos anos atrás o filme Faces, de John Cassavettes. É um filme arrepiante, quase tão intenso como A Woman Under the Influence, também de John Cassavettes (esse é outra história, outro nível; outro filme, outra vida). Não porque tenha tensão, arrepios, momentos dramáticos. É só porque é tão humano que dói. Tão visceralmente humano – triste, alegre, exagerado, feliz, desesperado – que é impossível ficarmos indiferentes. No Faces, há um jantar em que o Seymour Cassell deslumbra como um playboy espetacular, que serve de escape para uma data de mulheres. O Seymour Cassell, que faleceu recentemente, tinha uma cara do caraças: nariz grande, olhos fortes, queixo definido, bom sorriso. Ria-se e assustava-se de uma maneira linda. E olhava bem, com força, com verdade. Lembrei-me disto ontem, de o ver naquele filme, de o admirar naquele preto e branco muito bonito. Adorei o Faces, tal como adorei todos os filmes que vi do Cassavettes, tal como adoro todos os filmes que me relembram o quão bonita e poderosa é essa coisa tão fixe a que chamamos vida. Descansa em paz, campeão.