Acho que podíamos olhar para o frio de outra forma, como se em vez de um sentido fosse uma coisa. Tentemos esticar a mão, protegidos pela sombra da rua da Lapa, e tocar. Sentem? É uma espécie de camada. Ajuda se estivermos quentes, de antemão, mas não ao sol. Bebam um café, ou então abram as portadas de uma casa recém-electrificada para verem a quantidade de luz que pode entrar. É muita, muita  muita muita muita. Assim ficam aquecidos. E o frio torna-se uma coisa que, apesar de presente, não é pesada. É engraçado: passamos o tempo a viver um jogo entre a realidade, o sonho e o desejo, procurando unir pontos entre os três. Fazemo-lo através da confiança, e do bem. Estou a cruzar a avenida de Roma de noite, with all of the lights, all of the lights ligadas. Acho que é das imagens mais cinematográficas desta cidade. É tão real, tão sonhadora. Oiço um disco do Angelo de Augustine no carro, e na Praça de Londres ouço uma voz — que é a minha, mas em modo podcast — a falar-me em língua inglesa, pedindo-me para pensar como uma espécie de personagem irreal, daquelas que lemos em páginas de blogs mas nunca chegamos a conhecer. Tudo isto dentro da cabeça, claro. Há tantas histórias que correm dentro da cabeça quando se anda de carro. Gosto de andar de carro, talvez por isso, ou talvez e só pelo movimento que as coisas ganham, tanto lá fora como cá dentro. Mas gosto mais de andar a pé. O movimento é mais lento. Recortei uma frase de uma entrevista, que dizia mais ou menos o seguinte: se tens uma coisa para fazer em muito pouco tempo, então fá-la muito devagar, porque só vais fazê-la uma vez. Hoje de manhã acordei e fui andar a pé. Quando cheguei, a porta estava aberta. Antes da eletricidade, veio a água, porque primeiro vem a vida, depois vem a corrente. Entrei e fui directo à cozinha. Vocês deviam ver aquela cozinha, e aquela light de início de dia que por lá andava. Boa realidade, bom desejo. É impressionante — a potência do aconchego com que se pode começar um dia da semana.

É engraçada a imagem que se vê da janela. Digo isto sempre que algo me parece — como dizer? — naturalmente cinematográfico. Falo da baía, da lua, e da roda luminosa que por lá está. Gosto especialmente da luz da lua a cair na água. É dreamy. Também gosto da cor laranja dos sofás: ficam bem neste tipo de casas, cheias de sol. Se calhar podia arranjar uns para a minha. Se calhar. Mas tinham de ser mais torrados do que estes. Estilo vintage. Estilo, tipo, califórnia anos 70. Tipo golden. Independentemente disso, gostava de ter um sítio em que nos pudéssemos sentar, lá em casa, para ver o lusco-fusco. É a melhor coisa que este país tem: o céu, e em especial, o lusco-fusco. Não consigo imaginar muito bem o futuro, a minha mudança de casa, e a minha escrita — hoje, enquanto descia a Rua das Flores, saíram-me dois versos: “em Portugal / não há café americano”. Mas consigo lembrar-me perfeitamente dos olhos que se desmanchavam e que me levavam com eles all the way through, profundidade absoluta, até ao ponto máximo da gratidão. Foi como se, por um instante, tudo fosse aqui, agora, ser e estar, ao mesmo tempo. Não há filme que bata isto, que seja um céu da mesma maneira. Mas enfim: não me tem apetecido escrever. Não quer dizer que não ande a guardar coisas, pessoas, eventos, e outros milagres da rotina. Vão é ficando comigo, e contigo. Por exemplo, o novo disco da Sharon Van Etten (holy shit, o pauer daquilo). Por exemplo, hoje, ao final da tarde, quando estava a ir apanhar uma bicicleta no Cais do Sodré, e olhei para cima. Nuvens, luz, um risco. Veio-me um título à cabeça. Era o seguinte:

Manly beach blues

I‘ve never been

to Manly beach — and

I suppose you’ll not be returning there

this time around.

But 

please do me 

a favor, you 

and that friend of ours

mountain man: go 

to some sandy place

(I think you’ll have no trouble finding them

in that island), and

look at the water

(what colors do you see — blue, green, what?)

and 

breath in, deep 

breath,

before bathing yourselves 

in all that life. 

Postcard for Simbad

Simbad, he’s

my friend. He’s not

a sailor. He’s

a traveller, someone who

decided to pack

and go for a walk.

The walk is long, it takes

flights to get

to where he wants to be.

He’s a

very lucky bastard, he has

always been one

and today

I’ll be thinking of him

imagining the thrill he must feel

when landing in some distant place

with just time

to spend.

Imagine

carrying a good pack of days

on your American-made backpack

to spend in the East.

How

amazing it must be

to go out in the world, with your

eyes open, capable of waking up

and spend time

looking at the sky

during the day; the

same sky that will be waiting for him

in summer

back home.